3. THEORY
3.3 VISCOELASTICITY
O espaço analisado é a Goma, "uma associação interdisciplinar de empreendedores", sediada na cidade do Rio de Janeiro e que busca oferecer infraestrutura adequada para pessoas de diferentes áreas, movidas “pelo propósito de fomentar as economias criativa e colaborativa".18 A Associação Goma foi escolhida depois de realizada algumas visitas ao espaço, durante as quais pôde-se observar que o ambiente contava com os elementos presentes no modelo teórico, bem como extrapolava-o, apresentando-se como um caso extremo.
A Goma tem sua sede estabelecida na região portuária do centro antigo do Rio de Janeiro. A associação surgiu do encontro entre indivíduos, profissionais liberais, autônomos e pequenas empresas que já atuavam no espaço, em modelo semelhante ao de uma incubadora. A esse grupo, formado por representantes de diferentes setores - sobretudo oriundos da economia criativa -, uniram-se, informalmente, outras empresas, pessoas e entusiastas da economia colaborativa, em busca não apenas de um espaço, mas de sinergia e trocas.19 Era um grupo,
18 Disponível em http://goma.org.br/ Acessado em 19/07/2015
19 Matéria veiculada no jornal O Globo, em março de 2014. Disponível em http://oglobo.globo.com/rio/uma-
em suma, formado por pessoas que acreditavam em um modo de trabalho colaborativo, compartilhado, e na construção de redes de relacionamento.20
O modelo da Goma começou, então, a ser desenhado a partir de 2012, por pessoas que, em parte, já haviam experimentado formas distintas de trabalho compartilhado. Outros membros, por sua vez, ingressavam nesse novo ambiente pelo simples interesse da colaboração. A partir de suas ideias, "o que era pra ser um espaço de incubação de empresas novas acabou virando uma transformação de estilo de vida, relações pessoais, relações profissionais e tudo que engloba o dia a dia em uma grande cidade" (Nachle, 2013).
Quando enfim surge, em 2013, a Goma conta "com a missão de desenvolver um ecossistema empreendedor ao seu redor" (SILVA, 2014), sustentando um modo de trabalho que se compromete com projetos que tenham como foco central a sustentabilidade, a inovação social e a criatividade. A associação funda-se com base no modelo de autogestão, segundo o qual todos os membros devem participar da gestão do espaço e da associação, e compartilham, com isso, as mesmas responsabilidades e preocupações com relação ao espaço, o que acaba por culminar em ideais, crenças e expectativas21 similares sobre o novo modelo de trabalho promovido. Em menos de seis meses, a associação passou a contar com mais de 60 profissionais, distribuídos em mais de 20 empresas engajadas no fortalecimento dos negócios e expansão de projetos alicerçados, em geral, na responsabilidade social e ambiental. O objetivo de sua existência como associação distancia-se do conceito de aceleradora de microempresas, que apenas provê meios para o crescimento de negócios que ali se desenvolvem - em geral cobrando-se por este trabalho -, pelo contrário, o foco é no “empoderamento” das pessoas que participam da iniciativa.
A Goma foi escolhida porque o grupo de pessoas que forma o seu contexto, os recursos que a compõem e as interações que nela se dão, apoiando a emergência de um novo modelo de trabalho, representam os elementos delineados no modelo teórico, bem como correspondem à definição de espaço de coworking.
20 Disponível em <http://projetodraft.com/goma-rj/> Acessado em 20/08/2015.
21 Disponível em <http://www.publico.pt/mundo/noticia/goma-um-cowork-carioca-1634186> Acessado em
Com relação à ocupação do seu espaço, há três diferentes formas de se associar à Goma, e um papel definido para cada um deles. Os membros podem escolher entre três diferentes níveis de associação:22
• Residente: de acordo com a proposta da associação, são pessoas que buscam um espaço de trabalho diário fixo, intensa interação e troca de experiências e conhecimento. Na prática, são os membros que estão no dia-a-dia da casa, que têm o direito de frequentar o espaço todos os dias da semana, e por isso precisam e lidam com todas as questões do espaço e do grupo, mesmo que, muitas vezes, de formas e em níveis variados. A eles se demanda participação constante nas reuniões e nos grupos de trabalho da associação.
• Rolezinhos: são aqueles, na visão do grupo, que buscam um espaço de trabalho com flexibilidade de horários e uma interação mais dinâmica. Deste nível de associados também se espera uma participação ativa na casa, nas decisões conjuntas – inclusive votando -, e para o fortalecimento do grupo. No entanto, por estarem menos presentes no dia-a-dia (com direito ao acesso à infraestrutura da casa por até 10 dias no mês), eles invariavelmente tem uma atuação menor, principalmente no que diz respeito ao cuidado diário das instalações, por exemplo, ou questões mais ordinárias. Alguns deles, inclusive, possuem duas atividades de trabalho e utilizam aquele espaço para desenvolverem suas “segundas” profissões, geralmente numa fase de vida de transição ou experimental, até se estabelecerem melhor como profissionais da economia criativa. Por outro lado, como se constatou em campo, em muitos casos, eles são tão ou mais participativos quanto um residente.
• Amigomas: são entusiastas que buscam interação com a rede. Essa forma de associação é mais buscada por quem quer ampliar contatos, trocar experiências, mas não precisa necessariamente de um espaço de trabalho compartilhado. Ou em outros casos, não querem ou não tem tempo de lidar com todas as questões que incorrem em se tornar membro de um grupo que compartilha não só o espaço mas os deveres pelo cuidado deste espaço, mas que admiram, defendem, ou apoiam a iniciativa.
Estes diferentes níveis de associação estabelecem diferentes níveis de relacionamento com a Goma, que a princípio só dizem respeito ao modelo organizacional de gestão da associação e não contribuem para fazer qualquer associação com os tipos de espaços de coworking encontrados em Spinuzzi (2012).
Reunindo um grupo multidisciplinar de pequenos empresários e empreendedores que têm como foco negócios sustentáveis, criativos e de impacto social, a Goma comportava 32 empresas associadas no período em que o trabalho de campo foi realizado. Dessas, três cumpriam aviso prévio e uma, que não constava na listagem, entraria no mesmo mês, o que demonstra certa rotatividade no espaço. Somando 80 indivíduos, provenientes das mais diversas áreas, como arquitetos, engenheiros, gestores, consultores, publicitários, profissionais de meio ambiente, designers e produtores, entre outros, a composição da associação era a seguinte, em outubro de 2015:
Tabela 1: Número de associados na Goma no mês de Outubro de 2015
Grau de associação Quantidade
Residentes 47 Residente TEMPORÁRIO 1 Rolezinhos 16 Estagiário 2 Amigoma 7 Amigoma Recorrente * 7 Total 80
Fonte: Drive da Goma
* Apesar de os níveis de associação divulgados pela Goma serem apenas os três acima apresentados, no que concerne à gestão pode acontecer de estes níveis se desdobrarem em outros, dependendo do envolvimento do associado. Isso acontece geralmente apenas no nível do Amigoma, podendo haver os Amigomas que apenas pagam sua mensalidade e se beneficiam de alguns recursos da Goma, e outros que, além disso, se envolvem com as questões da Associação.