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Conforme apontamos, os planos do Économie et Humanisme eram ambiciosos e para serem alcançados precisariam extrapolar para além do território francês. Neste sentido, parece-nos que caberia a Lebret a responsabilidade de introduzir o método do EH nos demais países do mundo. Porém, o ponto de questionamento entre os pesquisadores, sobre a difusão do ideário lebretiano e as ações da SAGMACS, é: por que o interesse do dominicano pelo Brasil? E por que ocorreu no Brasil a criação de um primeiro organismo vinculado ao EH fora da França?

É fato que o contexto econômico e político brasileiro, no período do pós-guerra, apresentava uma realidade favorável ao país que despontava devido ao processo de industrialização, crescimento das cidades e concentração de investimentos públicos voltados ao desenvolvimento econômico do país, que na época era governado pelo presidente Emilio Gaspar Dutra, eleito como sucessor de Getúlio Vargas em 1945, pelo Partido Social Democrata – PSD e com o apoio do PTB de Vargas131.

Coincidentemente com os aspectos positivos da economia, o contexto pós Segunda Guerra no Brasil também trazia avanços quanto à redemocratização do país, que tornou o quadro político social mais complexo do que nos países europeus, arrasados pela guerra132. Tanto o Brasil quanto os países latino-americanos não haviam assumido

       

131 Estudamos o quadro do desenvolvimento econômico e contexto político brasileiro no pós-guerra no capítulo 4 desta tese.

132 Quanto à complexidade do quadro político brasileiro, referimo-nos à composição dos partidos políticos e aos alinhamentos ideológicos à época, como, por exemplo, a existência de pensadores mais progressistas e também mais conservadores dentro da própria esquerda, podendo-se notar a existência, dentro das forças à esquerda, de liberais conservadores, democratas cristãos, e também do próprio PCB – Partido Comunista do Brasil, liderado por Luís Carlos Prestes. Da mesma

posicionamento tão marcante frente à guerra, não tendo se alinhado nem com os países do Eixo e nem com os países Aliados, o que garantiu maior segurança da população e do território nacional durante o período de batalhas133.

Neste período, a atividade industrial brasileira desenvolveu-se de maneira expressiva, em decorrência da destruição do parque industrial europeu, que fora alvos de bombardeios. Havia necessidade de produção de materiais e fornecimento de equipamentos para os países que estavam envolvidos nas batalhas. O governo brasileiro, que já debatia desde os anos 1930 o incentivo à industrialização, devido ao aumento do mercado consumidor interno, no período da guerra, percebendo as demandas externas por produtos manufaturados, soube aproveitar este momento e investir nas áreas de ponta, para que a indústria se desenvolvesse e gerasse importantes conquistas à nação brasileira. Este desenvolvimento fez o Brasil ampliar significativamente seu saldo na balança comercial, pois as exportações de produtos manufaturados para a Europa nunca haviam sido feitas em tão grande quantidade134. Graças a este contexto econômico beneficiado pela guerra, o Brasil vivia um processo de transição de um país agrário e rural para um país que começava a ser urbano.

Em nossa dissertação de mestrado (2009) apontamos que tínhamos no Brasil, neste período do pós-guerra, a combinação de bons números na economia e a reconstrução de um novo tempo com a reabertura das vias democráticas, pós-ditadura Vargas, o que

      

forma que o PCB, a União Democrática Nacional também tinha em sua origem lideranças políticas tanto progressistas, alinhadas à esquerda, como o economista Caio Prado Junior, e também conservadores à direita, como o jornalista Carlos Lacerda. Inicialmente a ideia da UDN era de reunir todos os que se opunham a Vargas e ao Estado Novo, e com a nova constituição o partido tomou rumo à direita. De certo modo, este quadro ainda ressoava a eleição de 1945, quando foi eleito o novo presidente da República e os parlamentares para a Câmara e o Senado, que se reuniriam conjuntamente como o Congresso Constituinte para elaborar e aprovar a Constituição de 1946. Nesta eleição Getúlio Vargas foi um dos grandes vencedores, não só por ter tido papel decisivo na vitória de Dutra, mas por ter contado com a legislação eleitoral a seu favor, de forma que “concorreu ao mesmo tempo ao Senado em cinco Estados e a deputado federal em nove. Elegeu-se senador pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo e deputado em sete Estados” (FAUSTO, 2004, p. 399). Vargas optou por tomar posse como Senador pelo Rio Grande do Sul, mas os votos obtidos nos demais estados garantiu ao PSD a maioria absoluta dos lugares, tanto na Câmara como no Senado. A UDN, opositora de Vargas e Dutra, era o segundo partido com maior número de representantes e o PCB surgia como o quarto partido mais votado do país, tendo sido seu candidato a presidente Yedo Fiuza, o terceiro colocado, com cerca de 10% dos votos.

133 Enquanto foi possível, o governo brasileiro, comandado por Vargas, tentou manter uma relação de neutralidade durante a Segunda Guerra, porém, em fevereiro de 1942 tomou posição favorável aos países aliados, permitindo que os Estados Unidos instalassem no Rio Grande do Norte uma base aérea. Em 1944 o Brasil enviou 25.000 soldados da Força Expedicionária para combater os Países do Eixo na Itália.

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Veremos no capítulo seguinte que este movimento de ampliação do saldo da balança comercial brasileira não se deu exclusivamente devido à exportação de produtos, mas sim, devido à dificuldade imposta pela Guerra para a importação dos mesmos, o que obrigou o Brasil a fabricar tais produtos a fim de atender à demanda pelo consumo interno do país.

gerava um clima de otimismo, mas também de preocupação entre a elite empresarial e os trabalhadores brasileiros. Também rendia uma complexidade do quadro político, institucional e econômico para além da disputa ideológica entre comunistas e capitalistas, e o alinhamento do Brasil com as novas e emergentes potências mundiais, a URSS de um lado e os EUA de outro.

A maior concentração industrial se localizava em São Paulo, que apresentava acelerados índices de crescimento populacional e urbanização. Embora o poder político central fosse sediado no Rio de Janeiro, com a pujança econômica alcançada graças às dificuldades das indústrias das economias centrais durante o período da guerra, foi na cidade de São Paulo que a elite empresarial do país se consolidou nos anos 1940. Esta mesma elite empresarial, que se mostrava extremamente entusiasmada com o crescimento econômico brasileiro, sentia também ausência de um programa de governo e um projeto de país e não reconhecia no presidente Dutra a capacidade para elaborar e conduzir um plano desses para o Brasil.

Sobre este quadro de satisfação econômica e incerteza política, Valladares (2005, p. 79) nos aponta que “naquele momento, cristãos e elites anticomunistas buscavam um projeto político para uma sociedade em plena reconstrução.” Esta situação abria campo para a constituição de ideias para além dos centros empresariais, mas que propiciassem a adoção de um discurso de conciliação social dos industriais com os trabalhadores, a fim de se afastarem as ambições socialistas presentes em alguns meios sindicais e em parte do clero católico alinhado a uma esquerda progressista. Para Lebret, tratava-se de um terreno fértil, pois seu discurso propondo uma alternativa humanista e solidária para solucionar problemas sociais, segundo Valladares, “tanto seduziu os jovens católicos brasileiros, quanto uma grande parte da elite envolvida na busca de uma via ao mesmo tempo anti-imperialista e anticomunista que permitisse impulsionar as mudanças sociais e o desenvolvimento econômico” (ibid., ibidem).

Ao contextualizar a visão de Valladares sobre o campo aberto para Lebret vir ao Brasil em 1947, é importante situar que antes mesmo de sua vinda ao país o dominicano já contava com vias de abertura às suas ideias através da “influência espiritual sobre a juventude católica, especialmente a JUC – Juventude Universitária Católica” (ibid., p. 80). Isto mostra que o vínculo entre o dominicano francês e o Brasil não se deu de forma tão simplória e despretensiosa, pois, além da JUC, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP assinava a “Revue Économie et Humanisme” editada pelo grupo de Lebret, contando com exemplares publicados desde a terceira edição da revista, no ano de 1942, à disposição dos estudantes na biblioteca.

Além de Valladares, Angelo (2010) e Roldin (2012) estudaram os motivos da vinda de Lebret para o Brasil em 1947 e trazem alguns apontamentos para além dos sugeridos por Pelletier (1996) sobre a questão financeira que envolvia o grupo e apontava a necessidade de ampliação de suas frentes de trabalho a fim de se equilibrar o orçamento do EH. Para Angelo, “desde a criação do EH e o fim da guerra, (Lebret) tinha a intenção de buscar novas frentes de atuação para além do território francês, onde fosse possível aprofundar o método de pesquisa e divulgar o pensamento de seu grupo”, apontando que “a abertura para a vinda de Lebret ao Brasil veio do diretor da ELSP” (LEBRET, ibid., p. 59).

Segundo Valladares (2005), a Escola Livre de Sociologia e Política – ELSP foi fundada em São Paulo, em 1933, pela elite empresarial paulistana, e baseava-se num modelo de universidade mais próximo daquele defendido pelos norte- americanos, centrado na pesquisa empírica e com o objetivo de formar quadros para a administração pública do aparelho do Estado. Para Angelo, a ELSP “se aproximava mais do empirismo de Lebret e menos da sociologia teórica valorizada pela USP”, afirmando ainda que “a ELSP tinha o interesse nas ideias do avançado catolicismo social que Lebret pregava” (ibid., p. 69). Desta forma “Lebret vai encontrar espaço para dar início a sua carreira no exterior” (ibid., p. 70).

Angelo mapeou a forma com que se deu a vinda de Lebret ao Brasil e aponta, em sua tese de doutorado (2010), que o primeiro contato teve início em 1941, através do frei dominicano brasileiro Romeu Dale, que frequentou o Convento de Saint Maximin na França e, mais tarde, trabalhou com Lebret em Marseille.135 “Dale também se mostrava interessado em constituir um Centro de EH no Brasil e na América Latina quando retornasse ao Brasil” (ibid., p. 59). Porém, segundo a autora, Dale retornou ao Brasil em 1942 e só retomou contatos com Lebret em 1946, “quando o frei intermediu o contato entre o diretor da ELSP, Cyro Berlinck, e Lebret” (ibid., p. 60), confirmando assim a abertura dada pela instituição paulista ao dominicano francês, conforme apontado por Valladares.

Entre a aceitação de Lebret, em junho de 1946, até a sua vinda, em abril de 1947, existe o relato em inúmeras correspondências sobre a organização da viagem, do curso e de todas as burocracias que os envolviam, inclusive o pedido

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Angelo aponta esta trama de relação entre Lebret e o frei brasileiro, Romeu Dale, através de pesquisa sobre as cartas trocadas entre ambos, que constam do Fonds Lebret, na Pasta AN45 AS102, conforme informado pela autora nas páginas 59 de sua tese e que culminou com o convite do Diretor da ELSP, Prof. Cyro Berlink, para que Lebret viesse ao Brasil pela primeira vez em 1947.

de visto para que Lebret entrasse no Brasil como professor-visitante da ELSP, onde desenvolveria atividades científicas e didáticas. (ANGELO, p. 60).

Assim, num movimento de expansão do Économie et Humanisme e de tentativa de legitimação do método junto ao meio intelectual francês, seguir para o Brasil para ministrar um curso em nível de pós-graduação junto a uma instituição de ensino superior parecia abrir para Lebret a chance de conquistar um espaço junto ao meio universitário e acadêmico, ainda que não o francês, mas que estava em voga desde o início dos trabalhos da equipe do EH.

Neste sentido, tanto Valladares quanto Angelo apontam que, desde a França, Lebret buscava uma forma de ter o método cunhado por ele junto ao Centre d’Économie et

Humanisme reconhecido no meio intelectual e acadêmico francês. Com este

reconhecimento seria possível ao Économie et Humanisme conquistar o custeio das suas pesquisas através de orçamento e verbas advindas do Centre National de la Recherche

Scientífica – CNRS136, organismo público voltado ao fomento do desenvolvimento da pesquisa científica na França, atualmente vinculado ao Ministère de l’Éducation

Nationale, de l’Enseignement Supérieur e de la Recherche.

Porém, a resistência era grande, pois, segundo Valladares (ibid., p. 81), Lebret “não pertencia ao meio acadêmico francês e nem compartilhava da tradição sociológica”; também não era “nem sociólogo e nem antropólogo de formação”. O “seu investimento nas ciências sociais remetia a uma trajetória cultural e profissional bem diversa da trajetória acadêmica francesa: ao invés da tradição durkheimiana, seguiu a prática sociológica herdada de Le Play”. E assim, para a autora, da mesma forma que na França, “aos olhos da elitista USP, o trabalho realizado pelo Économie et Humanisme, quase ignorado no Brasil, não correspondia à sociologia canônica exportada pela França.” Sendo assim, o padre Lebret vai então encontrar o seu lugar no Brasil em uma graduação em Ciências Sociais da ELSP, com duração de quatro meses, o equivalente a um semestre letivo. Foi neste período que ele aproveitou para estreitar seus contatos no Brasil, bem como aperfeiçoar seu conhecimento sobre o terceiro mundo. Além dos padres dominicanos, Lebret estreitou seus laços com importantes lideranças empresariais e intelectuais, como os engenheiros Prof. Lucas Nogueira Garcez e Prof. Luiz Cintra do Prado, ambos da Escola Politécnica da USP; o Prof. Luiz Anhaia Mello, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; o sociólogo norte-americano Frank        

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Segundo Albertini (2006), em 1954 Lebret tornou-se assistente do CNRS e assim seguiu até sua morte, em 1966.

Goldman; o empresário Olívio Gomes, o Desembargador João Batista de Arruda Sampaio, além de jovens com aspirações políticas como Wladimir Toledo Piza, André Franco Montoro, Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto e Darcy Passos137, e ainda com seus contatos no meio religioso através da Fraternidade Leiga dos Dominicanos.

Segundo Lamparelli (2007)138, a estada de Lebret foi custeada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP, órgão de representação dos interesses da elite industrial paulista, capaz de exercer significativa influência no governo federal. Este vínculo de Lebret com a FIESP, para Valladares, explicaria o “interesse de personalidades da elite industrial na busca de um novo modelo socioeconômico.” Isto porque, “tais personalidades, convencidas da utilidade do planejamento, almejavam um certo progressismo, interessadas no enfoque inovador de um catolicismo social baseado em princípios científicos”. (ibid., ibidem).

Porém, as ideias difundidas por Lebret em seu curso eram consideradas por algumas lideranças empresariais avançadas demais e muito simpáticas à planificação da economia, o que era visto como ferramenta utilizada pelos países de economia socialista, sendo, portanto, nocivas aos interesses econômicos individuais, presentes no ideário da classe empresarial paulistana, encontrando resistência inclusive em setores da igreja católica que consideravam Lebret subversivo à ordem social vigente. A escola de sociologia era

voltada para uma sociologia mais empírica e mais aplicada do que a sociologia teórica valorizada pela USP. [...] Uma grande diferença marcava as duas instituições em que um estudante nos anos 1940 poderia adquirir uma formação em ciências sociais, na cidade de São Paulo: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na qual predominava um ensino generalista e essencialmente teórico, e a ELSP, que visava à formação de profissionais da pesquisa dotados de competências administrativas. (ibid., ibidem).

       

137 É importante observar que entre os nomes citados, Lucas Nogueira Garcez foi governador do Estado de São Paulo entre os anos de 1951 e 1955; Carvalho Pinto governou o Estado entre 31/01/1959 e 31/01/1963 e assumiu o Ministério da Fazenda do governo de João Goulart entre 21/06/1963 e 19/12/1963; Franco Montoro foi deputado federal por dois mandatos antes da ascensão da ditadura militar e tornou-se o primeiro governador de São Paulo eleito pelo voto direto em 1982, com o enfraquecimento do regime militar. Destacamos ainda que o Promotor Público Darcy Passos teve três mandatos como Deputado Federal e que Wladimir Toledo Piza foi vereador e prefeito da cidade de São Paulo. Além disso, cabe menção ao Prof. Luiz Anhaia Mello, que havia ocupado o cargo de Prefeito de São Paulo no ano de 1931.

138 A informação foi dada por Celso Lamparelli em entrevista concedida em 11/06/2007 para este autor e é repetida por Lícia Valladares, citando a mesma fonte. Porém, Angelo mostra em sua tese de doutorado que na carta de Ciro Berlink para Romeu Dale, em 12 de abril de 1946, “A Escola ofereceria um contrato de um ano, fazendo as despesas de viagem ida e volta e um honorário mensal a se combinar, o que seria em torno de 48.000 a 60.000 cruzeiros por ano.”

Em carta de Romeu Dale para Lebret, em 1946, o frei dominicano brasileiro destaca que a Escola de Sociologia começava a ter influência sobre a jovem geração intelectual, expondo que o dominicano francês deveria aproveitar o convite feito pelo diretor da mesma para vir ao Brasil. Dale finaliza a carta expondo ainda que “esta será a ocasião de organizar um grupo de Economia e Humanismo no Brasil”.139

Durante os anos 1940 a ELSP contratou uma série de professores estrangeiros, alguns como visitantes e outros para compor o quadro fixo da Escola, como foi o caso de Donald Pierson (norte-americano), assim como de Herbert Baldus e Emílio Willems (alemães). (ROLDIN, 2012, p. 100).

É então essa Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, ligada à valorização das pesquisas de campo, que acolhe o Padre Lebret em 1947, para ministrar ali, durante quatro meses, um Curso de Introdução Geral à Economia Humana. (VALLADARES, ibid., p. 82).

A disciplina oferecida por Lebret na área de economia inseria-se dentro do programa de pós-graduação.

Breuil destaca que a primeira estadia de Lebret no Brasil foi determinante para o seu encaminhamento intelectual, até porque era a primeira vez que Lebret saía do campo das pesquisas europeias para confrontar diferentes problemas, como o do subdesenvolvimento. (BREUIL, 2006, apud ANGELO, ibid., p. 67).

Segundo Lamparelli (2007), a situação de Lebret no Brasil se agravou quando o presidente Dutra, juntamente com o Congresso Nacional, obtendo o aval do Supremo Tribunal Federal, cassou o registro de legalidade140 do Partido Comunista Brasileiro – o PCB141. Mesmo sem haver empatia entre Lebret e o Partidão, e vice-versa, o dominicano        

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Conforme apontamentos feitos por Angelo através da carta de Dale para Lebret datada de 28/04/1946, consultada junto ao Fonds Lebret, pasta AN45 AS102.

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A cassação do registro de legalidade do PCB ocorreu em maio de 1947, por decisão do Supremo Tribunal Federal, que decidiu cassar o registro do partido a partir de denúncias apresentadas por deputados do PTB, que temiam pela hegemonia dos Estados Unidos e o equilíbrio europeu que eram ameaçados pelo avanço dos soviéticos na ocupação dos países do leste europeu. Segundo Fausto “a decisão controvertida, tomada por apenas um voto de diferença (três a dois), baseou-se em texto da Constituição. Ele vedava a existência de qualquer partido político cujo programa ou ação contrariassem o regime democrático” (2004, p. 402).

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Segundo Pelletier (1996, p. 161), o PCB era uma jóia no jogo político brasileiro em 1947. Seu candidato a presidente, Yedo Fiuza, obteve 10% dos votos em 1945 e mais de 20% deles nas maiores cidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Para o autor : “Le 7 mai, l’interdictioin du parti marqua clairement les limites de l’experiénce démocratique.” No mesmo sentido Fausto aponta

francês criticou o governo brasileiro dizendo que um país que cassa o registro de um partido político não pode ser considerado um Estado Democrático de Direito e muito menos um país democrático. Estas palavras de Lebret levaram o governo federal, juntamente com a cúpula da igreja católica brasileira, sobretudo os mais conservadores, que já se mostravam preocupados com os posicionamentos do padre, a negociar o retorno de Lebret à França, alcançando o apoio do Vaticano, que ordenou o imediato retorno dele ao seu país de origem e a proibição de retornar ao Brasil e aos demais países da América Latina.

Se as ideias de Lebret assustavam o meio empresarial liberal e os padres conservadores, que atribuíam a ele ser avançado demais, o PCB, por sua vez, também não simpatizava com as ideias de Lebret, pois elas se opunham ao conceito de luta de classes, pregando o desenvolvimento harmônico, o que, para Luís Carlos Prestes, líder do Partidão, era impossível de ocorrer sem uma justa distribuição de renda. A seu ver, isto só seria alcançado em caso de vitória da classe trabalhadora sobre o capital, com a mesma tomando os meios sociais de produção econômica e o controle do Estado, abrindo campo para o que Marx definia como a ditadura do proletariado.

Desse modo, Lebret não encontra espaço para transitar entre os extremos políticos do