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Como podemos perceber, o urbanismo como disciplina é composto de muitos aspectos e matérias para estudos e viabilização de planos e propostas. Porém, o que pudemos verificar, embora este aspecto não seja traduzido pela historiografia consagrada sobre o urbanismo, foi que, ao longo do século XIX tivemos uma melhor organização da urbanística moderna, reunindo diferentes saberes e possibilitando assim maneiras para intervenções físicas no espaço da cidade. A “Teoria Geral da Urbanização”, escrita pelo espanhol Ildefonso Cerdá, em 186737, forjava o “surgimento e consolidação do urbanismo como um campo disciplinar autônomo [...] entendido como fruto das inúmeras tentativas de se dar resposta à crise da cidade moderna” (ANDRADE, 1992, p. 36).

É fato que esta tentativa de constituir uma “ciência urbana” ganhou maior importância no período moderno, após a revolução industrial, devido a alguns estudiosos atrelarem a existência das cidades ao funcionamento da indústria, como um fator de desdobramento ou reflexo do modo de produção capitalista. Com as mudanças ocorridas no modelo econômico de produção e a ascensão de uma nova classe social, que impunha sua hegemonia, as transformações urbanísticas ocorridas nas cidades visavam impor a imagem de uma nova era e deixar claro o poder econômico burguês – os donos dos meios sociais de produção econômica e fiadores deste novo ideário urbano – frente às demais classes sociais, que disputavam o espaço na cidade grande e moderna. Assim, a imagem e o uso da cidade se relacionavam com a cultura dominante, de forma que na virada do século XIX para o XX assistimos a inúmeras intervenções em antigas capitais.        

37 Além de Cerdá é importante também expor que em 1880 o arquiteto alemão J. Stübben publicou a primeira edição do livro “Städtebau”, sobre construção de cidades, um dos primeiros tratados de planejamento das cidades. Camillo Sitte publicou em 1889 o “Art de bâtir les villes”. Enquanto institucionalização da prática do urbanismo a Suécia instituiu lei em 1874 obrigando que toda cidade do país deveria ter seu plano de extensão.

Desta forma, podemos interpretar que, para se entender a cidade que emergia, seria preciso também conhecer os interesses da sua classe dominante.

Mesmo diante das transformações urbanas nas cidades, na virada do século XIX para o XX, empreendidas pela classe dominante, ainda é possível se perceber, nas primeiras décadas do século XX, a forte herança das Belas Artes na formação dos urbanistas, que davam maior atenção ao desenho do que à análise do espaço urbano, dos atores presentes, ao programa de transformação concebido pela burguesia e muito menos à metodologia. De forma que, para Piccinato,

Por ser o urbanista filho da arquitetura, o que explica a ênfase no desenho e, portanto, escasso interesse nas motivações econômicas e sociais. Este fará do plano ‘desenhado’ um protagonista do desenvolvimento urbano. Se a cidade é antes de tudo um patrimônio de área edificável, um plano urbanístico não pode ser mais que um instrumento apto a administrar tal patrimônio e de adicionar valor. (1977, pp. 18-19).

Neste sentido, Bardet expõe que seria “necessário não confundir as grandes realizações da Arte Urbana, que resolveu magistralmente problemas que não eram nem da mesma escala, nem da mesma complexidade, nem da mesma substância que os nossos, com as soluções do Urbanismo.” E prossegue apontando que “devemos abster-nos de apresentar o urbanismo [...] estudando apenas as formas geométricas ou a cobertura arquitetônica que a Arte Urbana sucessivamente empregou”. (1990, p. 9).

Assim, mais do que transformações físicas no espaço da cidade e alterações no modo de vida de seus habitantes, estas intervenções renderam o incremento do debate acerca dos métodos do urbanismo e as possibilidades de implementação desta ciência no meio urbano. Podemos assim observar, nas primeiras décadas do século XX, a criação de uma série de associações e institutos voltados a discutir o urbanismo e os problemas das cidades.

Na França, do início do século XX, podemos constatar a existência de algumas dessas associações, que reuniam em torno de si profissionais e técnicos que atuavam em assuntos que diziam respeito à questão urbana. Destacamos entre elas a Association

Générale des Higyénistes et des Téchiniciens Municipaux, a Société Française d’Urbanistes, o Conselho Municipal de Paris, a Section d’Hygiène Urbaine et Rurale do Musée Social, entre outras. Em 1913, a Société Française d’Urbanistes renunciou à

menção que até então se fazia aos arquitetos e retirou do seu nome o título de SFAU, passando a ser SFU. Em 1919 foi fundado o Institut d’Urbanisme de l’Université de Paris e em 1922 a Revue Urbanisme. Já em 1928 ocorreu o I Congresso Internacional de

Arquitetura Moderna – CIAM, que mostrava a tentativa dos arquitetos modernos de se reaproximarem das questões urbanas e se reafirmarem também como urbanistas.

Estas associações visavam, além de consolidar a disciplina que seria capaz de melhorar a cidade, também garantir as atribuições profissionais e reservar espaços para os profissionais que atuavam no campo disciplinar do urbanismo. Segundo Gaudin,

O mundo profissional, que progressivamente se estruturou quanto ao estudo e à implantação dos planos de ordenamento, extensão e embelezamento, parece à primeira vista feito de simples justaposições de competências prévias, as do geômetra para a qualidade dos documentos cadastrais, as do arquiteto na arte sanitarista e na composição do projeto, as do engenheiro para as redes de infraestrutura e para a higiene pública. Justaposições, mas também conflitos de intervenção e de interesses. (2014, p. 185).

Nos anos 1880, os franceses assistiram às intervenções do Barão Haussmann sobre a antiga Paris, que rendeu à capital francesa o título de capital do século XIX, e que desde os anos 1910 adotou o urbanisme como termo para definir a ciência da cidade. A partir daí “a concorrência de fato se mostra aguda no mercado do urbanismo e vai rapidamente alimentar os conflitos entre diferentes profissões.” (GAUDIN, 1926, p. 185), pois, como vimos em Lavedan, o urbanismo para os franceses se constituiria para além da arte urbana e se afirmaria de forma generalista, dialogando também com as disciplinas da geografia, sociologia, direito e economia, além da engenharia e da arquitetura. Mas,

Ao contrário de outras matérias, o urbanismo não se deixa encerrar com facilidade numa lógica científica ou profissional interna cujo conhecimento poderia ser transmitido por um ensino de tipo universitário, que bastaria para justificar o fundamento de uma proposta de organização. (LACAZE, ibid., p. 8).

Sendo o urbanismo disseminado no meio técnico francês como uma ciência generalista, capaz de dialogar e unir as diferentes disciplinas e de “reunir para uma mesma cruzada todos que, sem distinção de formação, de profissão ou de opinião, desejavam difundir as ideias de urbanismo e de progresso social” (GAUDIN, op. cit., p. 186), era de se esperar que o movimento causasse dificuldades de relacionar os diferentes profissionais, por fazer a defesa de tantos interesses distintos, de diferentes formações técnicas e acadêmicas presentes nos grupos disciplinares dos quais eram oriundos. Esta situação causou uma disputa pelo reconhecimento político do urbanismo e pelo desenvolvimento de métodos novos de planificação para as cidades.

Em meio a esta disputa pela delimitação do campo disciplinar e organização dos métodos, o urbanista francês Alfred Agache afirmou, em 1916, que o urbanismo seria ciência e arte, o que nos remete às ideias difundidas por Cerdá na Espanha, quarenta anos antes. Para Agache, o urbanismo “como ciência, persegue a aplicação dos conhecimentos sociais de hoje à economia das cidades do amanhã.” (2014, p. 64). O autor também remeterá à ideia do urbanista como o regente da cidade, delegando a ele o papel de coordenar as ações sobre o território, desde a interpretação da realidade econômica e social, a elaboração de um diagnóstico e, por fim, a proposta de intervenção e melhoria do espaço urbano. Segundo Agache38,

O urbanismo – ou ciência das cidades – visa a pesquisa e a organização de todos os elementos que entram na composição de uma aglomeração urbana. Supõe análise e síntese, ou seja, de um lado, pesquisas monográficas, a escolha e a classificação dos elementos e dos grupos de elementos que constituem a cidade; de outro lado, a formação de uma doutrina reunindo as leis que a organização e mesmo a experiência fizeram descobrir e que permitem proceder a agenciamentos urbanos respondendo às necessidades mais modernas e antecipando mesmo em relação ao futuro próximo. (ibid., p. 64).

Contudo, o urbanismo é também uma arte; comporta uma parte de intuição, uma parte de invenção. Se assim não fosse, seria possível planejar as cidades usando fórmulas já estabelecidas para todo o sempre. [...] Os conselhos ou as sugestões que sanitaristas, economistas, engenheiros e arquitetos fornecem devem ser, de certo modo, transpostos pelo urbanista. É preciso que sejam traduzidos em beleza; (op. Cit., p. 65).

Para Bruant (2001), Agache define o urbanismo como uma ciência da sociologia aplicada, o que também é apontado por Gaudin (2014, p. 47) ao expor a afirmação do urbanista francês de que o urbanismo “persegue a aplicação dos conhecimentos sociais de hoje à economia das cidades do amanhã”. Esta colocação de Agache, de que o urbanismo seria sociologia aplicada, nos remete a outro personagem francês que também atuou no campo das pesquisas sociais, no século XIX, o economista Pierre- Frederic Le Play39, que no início do século XX tinha grande influência na sociologia

       

38 O texto original foi apresentado por Alfred Agache na Conferência para a exposição La Cité Reconstituée, em junho de 1916.

39 O economista e estatístico Frédéric Le Play (1805-1882) teve grande influência na França no desenvolvimento da sociologia aplicada devido às metodologias que propôs para estudar determinados fenômenos sociais, como a família. Seus estudos influenciaram também o campo disciplinar do urbanismo e contribuíram com a formação de jovens franceses. Segundo Savoye, o pensamento leplaysiano se divide em três períodos: sobre as classes trabalhadoras, desenvolvido entre 1881 e 1888; as pesquisas sobre habitação (1890-1904); e a organização do espaço urbano (1905-1914).

francesa. Para Savoye (2001), os discípulos de Le Play se dedicaram a difundir o pensamento leplaysiano sobre a discussão da organização do espaço urbano junto ao meio intelectual francês. O último período de difusão do pensamento leplaysiano teria ocorrido no início do século XX, entre os anos de 1905 e 1914, período em que se cunhava o termo “urbanisme” e se forjava as atribuições desta disciplina na França.

Este quadro sobre a classificação e enquadramento do que seria o urbanismo só confirma as palavras de Gaudin, citadas acima, sobre a acirrada concorrência e os conflitos entre as profissões. Gaudin também afirma que “os conflitos profissionais ligados às concorrências de mercados são os mais evidentes”. Mas “as divergências são mais profundas talvez pela diferença de expectativas dos profissionais quanto à encomenda do urbanismo [...] que eles fazem das prioridades às quais deveria responder o ordenamento das cidades.” (ibid., 187).

A amplitude desses conflitos e a multiplicidade das divergências não bastam, porém, para esconder a existência de uma forte comunidade de convicções em muitos daqueles que, na primeira metade do século XX, se engajam naquilo que, a seu ver, é um verdadeiro combate: a racionalização do crescimento urbano e da habitação operária por meio de planos previsionais. (ibid., ibidem, 191).

Partindo de uma concepção do urbanismo como simples prática que combina as contribuições de ciências, técnicas e talentos variados, a análise metodológica dos sistemas de decisão envolvidos permite precisar o campo de competência profissional do domínio, confirmar a existência de ferramentas intelectuais específicas e estudar as regras do uso correto das várias ferramentas. (LACAZE, ibid., p. 21).

Buscando melhor delimitação do campo profissional dentro do urbanismo, Léon Jaussely recupera, em 1919, o papel do dossiê das cidades, fazendo uma menção aos ingleses que chamavam tal ferramenta de Civic Development Survey, “que se refere não somente à distribuição cadastral da localidade, mas também a todas as circunstâncias e condições provenientes” (2014, p. 70) da circulação, do comércio, indústria e agricultura, da recreação e dos espaços públicos, higiene, instrução e administração da cidade. Pois, segundo Paul Claval, as cidades são fundamentalmente uma organização destinada a promover a interação social.

Assim, sendo a cidade um objeto da interdisciplinaridade, a “ciência da cidade” não poderia se constituir de forma diferente, sendo então o urbanismo um trabalho multidisciplinar, o que para Lacaze seria “uma condição essencial de um tratamento profissional dos problemas urbanos” (ibid., p. 120). Neste sentido, o autor aponta ainda

que “o trabalho em equipe tem por objetivo permitir a elaboração de decisões num sistema complexo” (CLAVAL, ibid., p. 121), e, apontando para a concorrência entre os diferentes profissionais, afirma que “nenhum membro da equipe pode, portanto, contentar-se com encerrar-se nos métodos de otimização próprios do sistema de valores do qual é representante” (ibid., ibidem)40. Para o autor, seriam capazes de atuar dentro do campo do urbanismo os profissionais arquitetos e urbanistas, os engenheiros, economistas, geógrafos, sociólogos e ainda os administradores ou advogados.

Esse modo de trabalho supõe, portanto, um domínio real de seu próprio campo disciplinar, assim como a capacidade de encontrar soluções não estritamente ótimas com relação a uma gama de critérios única, mas mesmo assim aceitáveis desse ponto de vista porque permitem ir além na busca do ótimo baseado em múltiplos critérios. (ibid., p. 122).

Para o autor, na prática “o arquiteto urbanista seria antes de qualquer outro o responsável pela elaboração das propostas espaciais de organização.” (ibid., ibidem), e mais, “sua contribuição é essencial desde a fase dos primeiros estudos para que traga sua competência e sua sensibilidade à análise das lógicas formais da paisagem natural ou urbanizada preexistente”. O engenheiro traria suas “competências particulares em matéria de redes de infraestrutura e de transporte”, cabendo a ele propor soluções e cuidar da execução técnica das propostas.

Ao economista caberia “estudar, antes de mais nada, os fatores de desenvolvimento e as dificuldades resultantes dos dados locais específicos.” Já na fase das propostas estes profissionais poderiam elaborar uma “programação de realizações em função da executabilidade dos diferentes projetos.” (ibid., p. 123). Ainda segundo o mesmo autor, “o geógrafo dispõe de métodos indispensáveis para conduzir num espirito de síntese as inúmeras investigações preliminares imprescindíveis.”

        40

Para se verificar a ressonância e influência da visão dos franceses no campo do urbanismo sobre os urbanistas brasileiros, podemos apontar o curso ministrado por Antonio Bezerra Baltar, em 1957, na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia. Baltar aponta na introdução da “Conferência sobre Planejamento Urbano” que “a cena urbana que se desenrola nas cidades é observada do ponto de vista de diferentes espectadores. É objeto de estudo, por exemplo, do historiador, do etnógrafo, do sociólogo, do jurista, do geógrafo, do ecologista, do economista e financista, do demógrafo, do higienista, do arquiteto e do engenheiro, do urbanista, entre outros espectadores, cada um apreciando o espetáculo segundo o seu prisma próprio. [...] Assim, o arquiteto, o engenheiro o urbanista, os artistas, entre eles os literatos, encontram na cena urbana, observada nas perspectivas microscópica e macroscópica, problemas a estudar e a resolver tanto pelo prisma da especulação como pela aplicação prática” (BALTAR, 1957, pp. 13-14).

O administrador ou jurista deve também ser associado muito cedo às reflexões. É importante de fato preparar o lançamento dos processos, bastante longos e complexos, que condicionam a passagem às realizações. Esses membros da equipe [...] têm, por suas funções permanentes junto aos poderes institucionais, uma boa capacidade de análise da situação política local e de intermediação para facilitar as inúmeras negociações sempre necessárias. (ibid., ibidem).

E por fim, Lacaze enumera as tarefas que caberiam aos sociólogos da equipe, que, para ele, desempenham dois papéis: a responsabilidade pela aplicação correta do princípio geral de controle dos métodos das ciências humanas e também a elaboração dos estudos preliminares “colocando em evidência os desafios e as estratégias particulares aos diversos grupos de habitantes envolvidos, assim como a organização das redes de poder e de influência com as quais vai ser necessário harmonizar-se”. (ibid., ibidem). Sobre as atribuições profissionais dos urbanistas, Lacaze observa que dentro de uma equipe interdisciplinar não se estabelecem a precedência de uma formação sobre a outra e reconhece a necessidade e capacidade que um teria em fortalecer o outro sobre a visão do todo urbano. Estas observações rompem de certo modo com os apontamentos mais presentes no início do século XX, quando os diferentes profissionais estavam em busca de garantir seu espaço dentro da disciplina do urbanismo. Ainda que seja mantida a visão generalista do urbanismo como disciplina, presente desde as teorias desenvolvidas para explicar a “ciência da cidade”, Lacaze deixa claro que há espaço para as diferentes formações e defende que o urbanismo é uma atividade para equipe interdisciplinar.

Para Wirth, “o problema central do sociólogo da cidade é descobrir as formas de ação e organização social que emergem tipicamente nas fixações relativamente permanentes e compactas de grande número de indivíduos heterógenos”. (1949, p. 626). Revelando que caberia aos mesmos, atrelado ao campo do urbanismo, estudar as formas de organização da sociedade e seus desdobramentos sobre o espaço da cidade. De forma que:

O urbanismo como modelo característico de vida pode ser estudado empiricamente de acordo com três perspectivas: 1) Como estrutura física compreendendo uma base de população, uma tecnologia e uma ordem ecológica; 2) como um sistema de organização social envolvendo uma estrutura social característica, uma série de instituições sociais e um padrão típico de relações sociais, e 3) como um acervo de atitudes e ideias, e uma constelação de personalidades predendo-se em formas típicas de comportamento coletivo, sujeitas a mecansimos característicos de controle social. (ibid., p. 637).

A observação de Lacaze se aproximaria da visão de mundo urbano da qual Lebret compartilha, ao adotar como método o trabalho em equipes multidisciplinares. É importante expor que o ideário lebretiano conseguiu, desde os anos 1930, ainda no período de amadurecimento do que viria a ser o Économie et Humanisme, no cerne do engajamento de Lebret com os sindicatos de Saint-Malo, envolver diferentes disciplinas e meios profissionais em prol de um objetivo comum. Há que se dizer que para alguns autores uma das chaves que tornaria o trabalho de Lebret inovador na questão urbana seria justamente o emprego de equipes muldisciplinares.

Neste contexto, temos mais uma vez a possibilidade de atribuir a Louis-Joseph Lebret sua inserção dentro do campo disciplinar do urbanismo. Porém, se por um lado suas teorias e práticas acerca da visão do mundo urbano o colocam em meio à “ciência da cidade”, a abordagem e o engajamento de diferentes profissionais para se estudar a cidade e as condições de vida da população, no contexto dos anos 1940 e 1950, em pouco ou nada revelam o ineditismo do trabalho do dominicano francês, visto que para os franceses o urbanismo já nasce (considerando o exposto por Lavedan e Bardet, de que o emprego da palavra se daria somente em 1910) multidisciplinar e generalista. Assim, pudemos constatar, através da lista de participantes das sessões promovidas por Lebret na França, em 1943 e 194441, a formação e as profissões exercidas por alguns dos participantes. E, conforme apontaremos no capítulo seguinte desta tese, verificamos que entre os participantes há profissionais com formação de assistentes sociais, engenheiros, advogados e arquitetos que se destacam em relação aos demais, o que apontaria para o engajamento do Économie et Humanisme às equipes multidisciplinares. Há que se esclarecer, entretanto, que não é a atuação de Lebret e dos organismos que ele criou nos anos 1940, os quais contam com equipes multidisciplinares, que a nosso ver possibilitaria inserir os trabalhos empreendidos por ele dentro do campo disciplinar do urbanismo, mas sim as experiências construídas pela própria disciplina do urbanismo, sobretudo na França, anteriormente à criação do Économie et Humanisme, em 1941. Na França, desde os anos 1910 o urbanismo já era concebido como uma ciência catalizadora de diferentes saberes, que seria capaz de engajar profissionais das ciências sociais aplicadas, como o direito, a economia, geografia, serviço social e a administração;

       

41 Estas informações foram obtidas através da consulta a documentos na Pasta AN45 AS44, onde constam a lista com os nomes dos participantes das Semanas Sociais, promovidas pelo Économie et Humanisme para dar formação e disseminar a metodologia do movimento aos adeptos do grupo. A lista traz o nome dos participantes e sua origem, mas não a formação profissional de todos. Retomamos a discussão sobre as Semanas Sociais promovidas pelo EH no capítulo 2 desta tese.

das ciências humanas como a sociologia; das artes como os arquitetos e da tecnologia como os engenheiros. Já nas décadas de 1920 e 1930,

O urbanismo, então, já se apresentava como uma ciência baseada nas