No modelo proposto por Baron e Shane (2007), o conhecimento vasto e organizado, bem como a inteligência prática, compõem a capacidade do indivíduo em processar e utilizar a informação já adquirida. A importância da inteligência e da habilidade do empreendedor em
20 A adoção da certificação SISBOV/TRACES é tratada como uma oportunidade de mercado gerada pela mudança do ambiente institucional. Aqueles que aderiram à certificação a reconheceram como uma oportunidade valiosa. Esta afirmação é corroborada nos resultados da pesquisa empírica na seção 5.2.1. Todos os adotantes aderiram à certificação motivados pelo prêmio pago pela arroba do boi rastreada. Antes da adoção da certificação, todos os adotantes concordaram que o valor do prêmio Europa compensava o investimento no SISBOV.
coletar e processar as informações foi, inicialmente, enfatizado na literatura econômica por Nicolas Baudeau (1730-1792, citado por HÉBERT; LINK, 1988). Ao evidenciar a importância da informação para a atividade empreendedora, Baudeau contribuiu para que proliferassem as formas de disseminar e tornar disponível a informação (HÉBERT; LINK, 1988).
As características cognitivas dos indivíduos relacionadas ao processamento da informação são complexas e de difícil mensuração. Estudos na área da psicologia cognitiva avaliam a influência de duas dimensões da inteligência sobre a adoção da tecnologia (CZAJA,
et al., 2006; CHARNESS; BOOT, 2009; BEIER; ACKERMAN, 2005; CALLAHAN, et al., 2003): a fluída e a cristalizada (Figura 10). A inteligência fluida é determinada pelas habilidades cognitivas relacionadas com a velocidade de processamento da informação e o raciocínio, bem como com a capacidade de memorização. A inteligência cristalizada é geralmente definida como o conhecimento adquirido ao longo da vida por meio tanto da educação formal como pela experiência (BEIER; ACKERMAN, 2005)21.
Figura 10. Decomposição da inteligência e características que influenciam o reconhecimento e a exploração da oportunidade.
Fonte: elaborado pela autora.
21 A inteligência cristalizada e inteligência fluída discutidas na literatura de psicologia cognitiva estão associadas à inteligência analítica e inteligência prática, respectivamente, mencionadas na literatura da área de administração (). A dimensão referente à inteligência criativa discutida em Baron e Shane (2007) não é destacada nesta pesquisa uma vez que objeto de estudo não reflete um processo criativo oriundo do setor produtivo. Conforme mencionado anteriormente na seção 3.2, o produtor empreendedor fez adaptações e adotou tecnologias para aproveitar uma oportunidade gerada por mudanças no ambiente institucional.
A idade é um dos indicadores utilizados para analisar dimensões da inteligência. A relação entre a adoção de tecnologia e a idade é mediada tanto pela inteligência fluida quanto pela inteligência cristalizada. Embora as inteligências fluida e cristalizada estejam correlacionadas, elas apresentam diferentes relações com a idade (BEIER; ACKERMAN, 2005). Por um lado, um aumento na idade, reduz a inteligência fluida e, portanto, a probabilidade de adoção. Por outro lado, esse mesmo aumento na idade, mantém ou aumenta a inteligência cristalizada e, portanto, a probabilidade de adoção. Assim, um aumento da idade poderia levar tanto a um aumento na probabilidade de adoção (devido ao aumento da inteligência cristalizada), quanto a uma redução na probabilidade de adoção (devido à redução da inteligência fluida). A questão empírica que se coloca é a de conhecer o efeito líquido da variável idade. Se o efeito líquido estabelece uma relação positiva entre idade e adoção, há predominância da inteligência cristalizada sobre a fluida. Nesse caso, pode-se inferir que a tecnologia é mais exigente em conhecimento adquirido ao longo da vida por meio da educação e experiência. Pesquisas relacionadas com a adoção de tecnologias da informação verificaram relação inversa entre a idade e a adoção de tecnologia (CZAJA et al., 2006; CHARNESS; BOOT, 2009; HUFFMAN; MERCIER, 1991). No trabalho de Bayo-Mariones e Lera-Lopez (2007) sobre a adoção de tecnologia de informação por empresas da agroindústria espanhola, o fator idade não se mostrou relevante.
Outro fator envolvido na capacidade de utilização da informação está relacionado ao arquivo de conhecimento do indivíduo. O conhecimento adquirido é armazenado na mente humana de forma organizada. Cohen e Levinthal (1990) sugerem que uma nova informação é gravada na memória por meio de ligações ou associações com o conhecimento pré-existente. Este conhecimento é agrupado por meio de conceitos ou ―rotas mentais‖. Para criar algo novo ou identificar a oportunidade é necessário romper essas rotas e perceber similaridades antes não observadas. Por meio de processos cognitivos ativos os conceitos são combinados ou expandidos por analogias. Por exemplo, a combinação do conceito de telefone com o conceito de câmera deu origem ao telefone celular com câmera embutida. A ciência que imita a natureza por meio do estudo de suas estruturas biológicas e funções, a biomimética, está fundamentada na analogia. Por analogia à forma como sementes de plantas grudavam em roupas, criou-se o Velcro. Quanto mais organizada e desenvolvida a estrutura mental do indivíduo, maiores as chances de reconhecimento de oportunidades de um domínio específico. Assim, formas que permitam o maior acesso à informação, e que contribuem para o aumento
da base de conhecimento do indivíduo, desempenham papel fundamental neste processo (BARON, 2007).
O conhecimento é composto por duas dimensões: o conhecimento explícito e o conhecimento tácito. O primeiro envolve a informação objetiva, sistematizada, formalizada e codificada. Ela é facilmente comunicada e compartilhada, por exemplo, por meio de redes de relacionamentos e programas de capacitação e educação formal. O conhecimento tácito é altamente pessoal. Ele é construído por meio das experiências do indivíduo e é profundamente arraigado ao contexto em que o indivíduo está inserido, ou seja, a profissão, o mercado de certa tecnologia ou produto e as atividades dos grupos que participa. Por isso, ele é de difícil formalização e transferência.
3.2.1.2. Nível de escolaridade
A educação formal é uma das formas de aquisição de conhecimento. Isso ocorre por meio do acesso à informação explícita e formalizada em livros, apostilas, vídeos, etc. Ou ainda por meio da transferência da experiência dos indivíduos que transmitem o conhecimento. Esta forma de aquisição do conhecimento permite o acesso a uma variedade de informações organizadas e relacionadas a uma área do conhecimento em um nível de aprofundamento maior do que outras fontes de informação. Um dos pioneiros na teoria do capital humano, Schultz (1975), fez grande avanço ao evidenciar o efeito da educação na habilidade dos indivíduos em perceber e reagir às oportunidades decorrentes da situação de desequilíbrio de mercado. Schultz (1975, p. 843) argumentou que este era ―o primeiro passo no que parecia ser uma longa estrada‖ e que ainda haviam lacunas a serem exploradas, a exemplo da relação exata entre o conhecimento e a educação.
3.2.1.3. Experiência
Outra forma de tornar a base de conhecimento mais rica é por meio da experiência (BARON, 2007; BARON; SHANE, 2007). A experiência foi enfatizada na teoria econômica como meio para a aquisição das habilidades empreendedoras. O conhecimento adquirido por meio da experiência diária, em diferentes graus por diferentes indivíduos, é um dos fatores determinantes da atividade empreendedora. A experiência induz à reflexão, interpretações, descobertas e generalizações pelos indivíduos (HÉBERT; LINK, 1988).
A experiência é composta pela experiência de vida e experiência profissional. A experiência de vida mais diversificada amplia a base de conhecimento do indivíduo e aumenta a probabilidade do conhecimento envolvido na nova atividade estar relacionado com algum conhecimento pré-existente no arquivo de memória do indivíduo. Indivíduos com a vivência em locais distintos, assim como aqueles que viajam mais para grandes centros urbanos e envolvem-se em questões além das fronteiras de seus sistemas sociais locais estão mais expostos a novas informações (BARON; SHANE, 2007; HARTOG et al., 2009.). Doye et
al., 2000 encontraram evidências empíricas desta relação positiva. No entanto, a mudança para outras localidades pode ter um efeito contrário na acumulação de capital social. Glaeser
et al., 2002 verificaram que há uma queda no capital social quando há mobilidade, uma vez que este recurso é específico à comunidade local.
A experiência profissional na área agrícola é uma variável amplamente explorada nos estudos empíricos para explicar a adoção de novas práticas de manejo e cultivo na agricultura. No entanto, a viabilidade econômica e a efetividade das tecnologias modernas, a exemplo da prática do rastreamento na pecuária, exigem um processo de gestão que não está baseado no puro domínio de conhecimentos e práticas tradicionais de cultivo e criação (SOUZA FILHO et al., 2011). Cohen e Levinthal (1990), Baron e Shane (2007) e Hartog et
al. (2009) sugerem que a experiência profissional diversificada, mas em tema correlato ao da nova prática, também beneficia o aumento da base de conhecimento e, portanto, o reconhecimento da oportunidade. A percepção de oportunidades valiosas pelo empreendedor ocorre a partir da combinação, ampliação ou visualização das informações existentes de uma forma diferente. Para um indivíduo ser criativo é essencial ter disponível uma ampla base de conhecimento. A experiência profissional variada e em atividades que dão acesso à informação de ―ponta‖ é uma das formas de aquisição desse conhecimento (BARON; SHANE, 2007). Cohen e Levinthal (1990) argumentam que duas ideias principais estão implícitas à noção de que a habilidade de assimilar e fazer uso de uma nova informação é uma função da riqueza do conhecimento pré-existente: a) o conhecimento é cumulativo e, b) o desempenho em uma nova tarefa é maior quando o conhecimento envolvido está relacionado com algo já conhecido. Assim, a diversidade de conhecimento desempenha um importante papel nessa relação. Uma base do conhecimento mais ampla e diversificada aumenta a chance da nova informação estar relacionada com um conhecimento já aprendido.