As instruções gerais para a organização espacial das primeiras reduções do Guairá eram as seguintes:
Antes de fundar el Pueblo se considere mucho el asiento de él, que sea capaz para muchos indios, de buen temple, buenas aguas, a propósito para tener sustento, con chacras, pescas y casas.
Funden el pueblo con traza y orden de calles y dejando a cada indio el sitio bastante para la huertenzuela.
El pueblo se traza a modo de los del Perú o como más gustaren los indios, con sus calles y cuadras, dando una cuadra a cada cuatro indios, un solar a cada uno, y que cada casa tenga su huertenzuela; y la iglesia y casa de V.V.R.R. en la plaza, dando da iglesia el sitio necesario para el cementerio; y la casa pegada a la iglesia, de manera que por ella se pase a la iglesia; haciendo esto poco a poco, y a gusto de los indios, habiendo ellos primero hecho sus casas y una pequeña para V.V.R.R. y una enramada que sirva para decir misa (BUSANICHE, 1955, p.26, citado por CUSTÓDIO, 2002, p.78).
A chamada tipologia urbana missioneira se organizava a partir de dois componentes básicos organizados no entorno de grande praça central. O primeiro, a ‘cabeça’ da redução, compunha-se de um conjunto de edificações dominado pela igreja, que geralmente ocupava o ponto mais alto do sítio. O segundo desenvolvia-se a partir das três outras faces da mesma praça, ocupadas por blocos de edificações regulares com uma mesma tipologia arquitetônica.
A criação de uma avenida de acesso ao centro do povoado fazia com que o novo espaço perdesse a escala de cotidiano e passasse a ter a escala de monumental, uma entrada principal, desembocando diretamente em frente à suntuosa igreja. Este espaço público deixaria de ser, aos poucos, o lugar onde se dava a cultura guarani, para se transformar em um local das novas representações da igreja face ao projeto reducional dos missionários, constituindo-se, portanto, o local da coletividade, das festividades e da religiosidade (Figura 13).
Figura 13 – Reconstituição da Redução de São Miguel – século XVIII
Fonte: MACHADO45, 2007, p.54.
45 Trabalho apresentado nas XI Jornadas Internacionais sobre Missões Jesuíticas. Jesuítas e Missões: entre Novos e Velhos Mundos. PUCRS em setembro de 2006.
Todo o conjunto se ordena em torno da entrada do povoado, atravessando a praça e acompanhando a linha de maior extensão da igreja. O conjunto se ordena simbolicamente, pois o eixo separa o povoado em duas partes.
A leste percebemos todos os dias o nascer do sol e a reinstalação das condições propicias à vida. A oeste, podemos observar o pôr do sol e a gradual expansão das trevas da noite. Tanto pela manhã como pela tarde, o sol – fonte de vida – estará sempre iluminando o interior da igreja, pelas sua praça central, a “plaza mayor” espanhola e ao longo de um eixo que se prolonga nas aberturas laterais (KERN; JACKSON 2006, p.177).
O primeiro conjunto era constituído por uma grande estrutura, mais elevada em relação à praça, com a igreja disposta entre o cemitério, de um lado, e dos outros dois pátios com edificações periféricas de outro. No primeiro pátio, o claustro, ficava a residência dos padres e no segundo os depósitos e as oficinas. Atrás desse bloco, cercada por um muro de pedra, localizava-se a quinta dos padres (pomar, horta e jardim). Era uma estrutura fechada e organizada sobre um mesmo alinhamento frontal, com poucos e definidos acessos em relação à praça e ao restante do espaço público (CUSTÓDIO, 2002, p.99-100; MACHADO 2007, p.53).
O segundo conjunto estruturava-se a partir da praça e da via principal, ao redor das quais se organizavam como quarteirões, grandes pavilhões avarandados, ortogonalmente distribuídos, com as habitações dos índios. Diversamente do primeiro conjunto, o segundo era integrado por blocos de edificações de caráter aberto, rodeadas de galerias, avarandados ou ‘porticados’, cujos vãos conectavam os cômodos diretamente ao espaço público (CUSTÓDIO, 2002, p.99-100; MACHADO 2007, p.53) (Figuras 14 e 15).
1 – Primeiro conjunto 2 – Segundo conjunto
Figura 14 – São Miguel Arcanjo – Esquema dos componentes da tipologia urbana missioneira
Fonte: CUSTÓDIO, 2002, p.170.
1 – Igreja 2 – Praça 3 – Cemitério
4 – Cotiguaçu – espaço destinado à habitação permanente das mulheres recolhidas, viúvas ou órfãs
5 – Claustro – casa dos padres 6 – Pátio das oficinas e depósitos 7 – Casa dos índios
8 – Cabildo
9 – Tambo – hospedaria para forasteiros e comerciantes
10 – Quinta
Figura 15 – São Miguel Arcanjo – Esquema da estrutura urbana
Fonte: CUSTÓDIO, 2002, p.170.
A redução se desenvolvia de maneira contínua no território. O alinhamento do primeiro conjunto se constituía em barreira, que impedia o crescimento do espaço em direção ao quarto lado da praça (Figura 16).
Figura 16 – Risco de São Miguel
Fonte: Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, in CUSTÓDIO, 2002, p.180.
Em sua pesquisa Custódio (2002, p.103) também não encontrou menções de orientações ou diretrizes que pudessem evidenciar a origem objetiva dessa organização peculiar, a tipologia urbana missioneira. Há indícios que “da mesma forma como ocorreu nos aspectos da organização administrativa e política, as regras de configuração espacial foram sendo consolidadas no decorrer do próprio processo histórico, como resultado da ação de muitas mãos ao longo do tempo”. Questionamos, então: essa configuração missioneira não poderia ser considerada como ampla participação Guarani?
Contudo, para Custódio (2002, p.104-105), a literatura enfatiza a importância do Padre Sepp46 no campo da urbanização, devido ao seu grande conhecimento do modo de proceder dos romanos:
46
A obra de Padre Sepp é uma coletânea de cartas escritas entre 1691 a 1701 para seu irmão Gabriel Sepp, na Alemanha. Existe uma tradução em espanhol de uma carta de 1701 na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na qual Custódio (2002, p.103) buscou as informações aqui constantes.
Meu trabalho foi fugir da estupidez que facilmente sói cometer-se na construção demasiadamente apressada de vilas e cidades. [...] A paróquia ou templo e a casa dos padres missionários ocuparia o meio da praça. Esta praça seria o centro, donde partiriam as ruas paralelas, igualmente distantes de um lado e outro (SEPP, 1980, p.219-220).
Sobre o processo de implantação e a divisão fundiária, “a primeira condição com a qual deveria cumprir foi a medição dos terrenos para a construção das casas com o cordão de agrimensor. Tive que assinalar a cada grupo de casas o mesmo número de pés de comprimento e largura” (SEPP, 1980, p.219). Sobre a praça e a organização geral da estrutura urbana, determinava:
No centro devia alinhar a praça, dominada pela igreja e a casa do pároco. Daqui deviam sair todas as ruas, sempre equidistantes uma da outra. [...]
A praça principal era de quatrocentos pés de largura e quinhentos pés de comprimento. Em ambos os lados da igreja se elevam, como um anfiteatro, as casas dos índios, formando largas filas bem ajustadas. Cada grupo de casas localizado do lado oposto da igreja se dividia em doze casas, cada uma com sua própria entrada, Os outros, à esquerda e à direita da igreja, continham somente seis casas. [...].
Da praça saem as quatro ruas principais construídas em forma de cruz, que medem sessenta metros de largura e mais de mil de comprimento, e levam ao campo em todas as direções. Esta distribuição das casas e ruas embeleza o aspecto do povoado particularmente, pois de todos os pontos cardeais, quatro avenidas largas e formosas levam para dentro da vila e se encontram na metade da praça, em frente ao portal da igreja (SEPP, 1980, p.219- 220, citado por CUSTÓDIO, 2002, p.105) (grifo nosso).
Voltando a Lucio Costa (1941, p.13) um dos primeiros pontos levantados sobre a arquitetura jesuítica produzida no Brasil refere-se ao próprio conceito de ‘arte jesuítica’. O arquiteto declara:
Quando se estuda qualquer obra de arquitetura, importa ter primeiro em vista, além das imposições do meio físico e social, consideradas no seu sentido mais amplo, o ‘programa’, isto é, quais as finalidades dela e as necessidades de natureza funcional e satisfazer, em seguida, a ‘técnica’, quer dizer, os materiais e o sistema de construção adotados; depois o ‘partido’, ou seja, de que maneira, com a utilização desta técnica, foram traduzidas, em termos de arquitetura, as determinações daquele programa. Finalmente, a ‘comodulação’ e a ‘modenatura’, entendendo-se por isto as qualidades plásticas do monumento (CUSTÓDIO 2002, p.109). Conforme Custódio (2002, p.159),
[...] no processo de configuração do espaço reducional de São Miguel e da própria tipologia urbana missioneira, apenas alguns elementos da tradição cultural Guarani foram utilizados, com adaptações, no que se refere tanto aos aspectos materiais quanto à dinâmica social.
Exemplo disso eram as casas de famílias extensas, que acabaram sendo subdivididas pela ação dos jesuítas a partir das primeiras reduções.
A estrutura urbana da redução de São Miguel enquanto organização espacial era tão marcante que José Maria Cabrer, que esteve na região entre 1784 e 1789 junto com uma comissão portuguesa encarregada de efetuar o inventário dos povoados missioneiros após a Guerra Guaranítica, elaborou uma planta tipo e a reproduziu para registrar todas as reduções que inventariou nos Sete Povos47, independentemente das diferenças entre elas (CUSTÓDIO, 2002).