2 TEORETISK TILNÆRMING .1 Innledning
2.3 Virkemidler man tar i bruk
319 Vide: M. I. Santa Cruz, 2007, p. 240, n. 838; e p. 241, n. 844. Segundo J. Trouillard, a cura da alma,
em seu processo catártico, consiste em uma progressiva dissolução, isto é: em dar ao corpo o que pertence ao corpo e ao espírito o que pertence ao espírito. Cf. La purification plotinienne. Paris: Presses Universitaires de France, 1955, p. 5.
Assim, a própria possibilidade do conhecimento inteligível, no sentido forte do termo (gnôsis)320, se dá apenas para a alma que se tenha purificado. Pois: “... se o olho se dirige para a visão turvado pela maldade e não purificado [...] ele nada vê, mesmo que outra pessoa lhe mostre o que está presente e pode ser visto” (1 [I 6], 9, 26 – 29). Trata-se certamente do “olhar” interior da alma, da “visão” espiritual ou intelectual da
nóesis, como a atividade própria do nível superior da alma (cf. 1 [I 6], 9, 1 – 16). Isso
porque, para Plotino, seguindo literalmente Platão, o conhecimento se dá e só é possível pelo semelhante. O dessemelhante, como vimos, não pode conhecer o que não tem com ele nenhum parentesco e relação, assim como o olho não veria o sol, se não fosse semelhante à luz (cf. 49 [V 3], 17, 37 – 38)321. Assim, as purificações são também, no
limite, virtudes propedêuticas necessárias para o exercício do conhecimento:
Pois, após ter-se o vidente feito congênere e semelhante ao visto, ele deve lançar-se à contemplação. Pois nenhum olho veria o sol, se não tivesse nascido soliforme, e a alma não veria o belo sem ter-se tornado bela. Portanto, que primeiro se torne todo deiforme e todo belo, se alguém pretende contemplar deus e o belo (1 [I 6], 9, 29 – 34).
Esse percurso das purificações, Plotino compara, também alegoricamente, ao trabalho do artesão na confecção de sua estátua, que necessita de um árduo trabalho de polimento e lapidação do mármore até que ele retire todo o excesso e o mármore apresente uma bela imagem:
Como verias o tipo de beleza que uma alma boa possui? Recolhe-te em ti mesmo e vê; e se ainda não te vires belo, como o escultor de uma estátua que deve tornar-se bela apara isso e corrige aquilo, pule aqui e limpa ali, até que exiba um belo semblante na estátua, assim apara também tu todo o supérfluo, alinha todo o tortuoso, limpa e faz reluzente todo o opaco e não cesse de moldar a estátua de ti mesmo, até que resplandeça em ti o esplendor deiforme da virtude, até que vejas “a temperança assentada em sacra sede” (1 [I 6], 9, 5 – 16).
Pois, para Plotino, voltar à nossa natureza original, como infusão e desvelamento da beleza da alma, corresponde ao desvelamento das verdadeiras ciências, na medida em que, para ele, segundo sua interpretação de Platão, a verdade já se encontra latente
320 Vide, por exemplo: (49 [V 3], 4, 6 – 7). 321 Cf. acima, p. 33, n. 55.
no interior da própria alma humana322. Pois, se nossa essência é possuidora de grande beleza divina, isso significa que é possuidora de grande sabedoria, tanto mais se purifique:
E se a purificação nos põe em conhecimento das coisas mais exímias, também as ciências, as que são realmente ciências, aparecem presentes dentro da alma. Porque não é precisamente correndo fora como a alma contempla a temperança e a justiça, mas que as vê por si mesma dentro de si mesma na intuição de si mesma e do que era anteriormente, vendo-as como estátuas erigidas dentro dela após tê-las deixado bem limpas, pois estavam cheias de ferrugem pelo tempo (2 [IV 7], 10, 41 – 47).
Essa visão superior da alma se dá, portanto, na medida em que a alma se desembarace completamente da mensuração, da magnitude e quantificação exterior da matéria. Se a materialização da alma corresponde à identificação com o corpóreo e externo, como uma “queda” nos males e paralisação de suas potências psíquicas superiores, essa “queda” consiste em um impedimento para que a alma possa se unir a si mesma, já que possui algo alheio e externo mesclado a si com o qual se une e se identifica. E, portanto, sem que possa ascender à visão superior, em sua natureza mais essencial e profunda, a alma permanece presa na indeterminação, multiplicidade, passividade e dissimilitude da região externa e inferior; impossibilitada, portanto, do “verdadeiro conhecimento” unificado, direto e positivo do princípio. Entretanto, a alma que se purifique desse domínio e contaminação externa é capaz de voltar-se para si mesma, para além (ou para aquém) de toda materialidade e contaminação inferior, para a contemplação inteligível superior, para a “visão” de sua natureza primitiva e original e de sua origem divina:
Se te tornaste isso, e viste isso, e se puro te consocias contigo mesmo sem ter impedimento algum a esse tipo de unificação e sem ter em teu interior algo alheio mesclado a ti, mas sendo tu inteiro luz verdadeira apenas, não medida por dimensão, não contornada por um contorno, nem dilatada em dimensão através da ilimitabilidade, mas imensurável totalmente, como maior que todo metro e mais que toda quantidade: se vê que tu te tornaste isso, já tornado visão, confiando em ti e já aqui acimalçado, sem mais careceres de guia, fixa
322 Segundo Plotino, Platão afirma que as Ciências de lá (do inteligível) não são distintas do sujeito em
que reside (cf. 31 [V 8], 4, 50 – 56). Pois, se o conhecimento verdadeiro se dá no Intelecto, o temos de duas maneiras: ou por essa espécie de caracteres inscritos na alma ao modo de leis (trata-se do conhecimento discursivo), ou porque podemos inclusive vê-lo e percebê-lo presente (cf. 49 [V 3], 4, 1 – 25).
o olhar e vê: pois esse é o único olho que vê a súpera beleza (1 [I 6], 9, 17 – 25).
Assim, para Plotino, como afirma no tratado 2 [IV 7] – Sobre a imortalidade da
alma, só é possível conhecer realmente a natureza de algo buscando atender seu estado
de pureza, já que “... o acréscimo sempre resulta um obstáculo para o conhecimento da coisa a que foi acrescentado” (cf. 2 [IV 7], 10, 28 – 30). E, por isso, sendo a sabedoria e a virtude verdadeiras coisas divinas, se a maioria dos homens fossem tais, ou seja, sábios e virtuosos: “ninguém seria tão incrédulo que não creria que esta coisa sua que é a alma é totalmente imortal323. Mas de fato, ao ver a alma da grande maioria tão multiplamente estragada, não se dão conta nem de que se trata de um ser divino nem de que se trata de um ser imortal” (cf. 2 [IV 7], 10, 17 – 28). Portanto, para Plotino, o “verdadeiro conhecimento”, no sentido do conhecimento inteligível, depende diretamente da prática e da realização das virtudes. Como deixa claro no tratado 20 [I 3] – Sobre a dialética, ao afirmar que não pode existir um sábio ou dialético sem virtudes, mas que, ou elas são anteriores ou se desenvolvem simultaneamente (cf. 20 [I 3], 6, 15 – 18).