• No results found

4. FORSVARETS KVINNESATSNING: TILTAK VI FINNER SPOR AV I LINJA

1.1 K VINNEUNDERSØKELSEN 2001

Figura 12 - Programa Dilma – 02 de setembro de 2010 – Tempo: 7’40” – 8’40”

92 O que também reforça o símbolo da brasilidade instaurada pelo próprio governo: sou brasileiro e não

Apresentadora: Hoje o governo brasileiro tem orgulho do povo. E o povo brasileiro tem orgulho do governo. Mudança assim o Brasil nunca tinha visto.

Locutor – Orgulho também é o sentimento que move o semiárido. A região mais pobre do Brasil, antes tão esquecida, agora recebe projetos como o da integração do rio São Francisco, uma obra que vai levar água para 12 milhões de pessoas e, desde já, gera milhares de empregos e muita, muita emoção no sertão.

Empregado da obra: Com essa obra aqui, a gente vai ter água pros animais, vai ter água pra beber, água pra tomar banho e também poder plantar alguma coisa. Eu quero parabenizar o nosso presidente, né? E quero dizer que Deus continue abençoando ele, dando força, porque é um orgulho. É um orgulho. É um orgulho pra nós aqui. Senhor presidente, que Deus te abençoe e lhe dê graça pro senhor continuar trabalhando porque o teu povo precisa disso, essa obra.

Neste segmento de um minuto, há uma cooperação entre as personagens na construção da imagem do político, passando por três pontos de efeito de sentido calcados nos sentimentos: o orgulho, a emoção e a fé.

A apresentadora instaura verbalmente/oralmente o orgulho como ponto de convergência entre sua fala, a fala do locutor e a fala da personagem (empregado da obra), o que faz, de início, emergir os efeitos de sentido ligados ao “orgulho de ser brasileiro”, mas, rapidamente, desloca-se em favor da promoção da emoção e da fé.

A imagem que acompanha a intervenção oral do locutor “Orgulho também é o sentimento que move o semiárido” já desloca os efeitos instaurados anteriormente, porque não se alia ao dizer do locutor, mas localiza o “semiárido” orgulhoso a partir da estátua de Padre Cícero situada em Juazeiro do Norte, no Ceará. A simbologia em torno da figura do Padre Cícero no Nordeste reatualiza o imaginário histórico do nordestino/sertanejo devoto e religioso, cristalizando a identidade do sujeito do sertão, faz emergir efeitos de sentido ligados à fé católica e, portanto, dá início a um processo que traz para o primeiro plano o sentimento ligado à fé e leva ao apagamento dos efeitos ligados ao orgulho, verbalizado pelo locutor. A imagem, desse modo, sobrepõe-se ao verbo na produção de efeitos de sentido e redefine a orientação do paradigma de leitura – antes o orgulho, agora a fé – que recai sobre a continuação e o desdobramento da sequência do enunciado. O verbo vai, posteriormente, ao encontro dos efeitos da imagem e reforça esse paradigma de leitura quando da intervenção oral do locutor, que intensifica a emergência dos efeitos de sentido na passagem “gera (milhares de empregos e) muita, muita emoção no sertão”, antecipando a expressão gestual da emoção pelo choro do trabalhador que testemunha.

Do plano geral ao plano particular, a sequência enunciativa constrói, em princípio, a identidade de todo um povo e vai, ao longo da transmissão, dar lugar à fala de um nordestino que tem o papel de dar o testemunho da verdade do dizer: é a partir da intervenção oral e do gestual do empregado da obra – reconhecido pela imagem do indivíduo que porta luvas e chapéu93 de proteção – que se observa o ápice dos efeitos de

sentido ligados à religiosidade do sertanejo na sequência enunciativa. A construção do sujeito se dá do geral para o particular ao mesmo tempo em que os efeitos de sentido da fé e da emoção vão do mínimo ao máximo, intensificando-se no choro da personagem que presta o testemunho.

93 O chapéu de proteção também identifica o trabalhador da obra enquanto nordestino/sertanejo à

diferença do capacete de proteção utilizado em outras regiões do país, já que as abas do equipamento servem de proteção ao sol árduo típico da região nordestina.

Figura 14 - destaque da Figura 12 – emoção do sertanejo.

“E quero dizer que Deus continue abençoando ele, dando força, porque é um orgulho. É um orgulho. É um orgulho pra nós aqui. Senhor presidente, que Deus te abençoe e lhe dê graça pro senhor continuar trabalhando porque o teu povo precisa disso, essa obra.”

O homem que testemunha a chegada da obra de integração do Rio São Francisco no nordeste se apresenta em vestes de operário e o enquadramento da cena deixa ver no plano de fundo o que se mostra como parte da obra e parte dos empregados ligados a ela – o que reforça/legitima a identidade do trabalhador assim como a realidade da efetivação da obra: a verdade se mostra e se diz. E é a um homem já abençoado que o trabalhador endereça seu desejo de fé: o que leva aos efeitos de sentido de um já dito/já visto sobre a cristandade/religiosidade do homem político presidente, o então presidente Lula. A expressão de continuar abençoando estabelece uma relação interdiscursiva e a construção de uma memória discursiva que revela uma relação do presidente com o Deus que o abençoa.

Ao proferir a expressão “É um orgulho.”, o sujeito que testemunha expressa no rosto a emoção pelas lágrimas e realiza o gesto de retirar o chapéu e baixar a cabeça: mais uma vez, observa-se que o verbal não está em conformidade com o que se vê na imagem: eles não parecem funcionar juntos. Os efeitos de sentido do orgulho são apagados pela expressão corporal do sujeito que se comove e deslocados para os efeitos

que os gestos do corpo produzem 1) a felicidade pela superação de uma dificuldade a partir das lágrimas e 2) a gratidão, o respeito e a demonstração de humildade ao tirar o chapéu. Gestos que podem estar endereçados, ao mesmo tempo, tanto ao presidente como a Deus, no sentido de que a emoção pelo choro se relaciona à atuação governamental que traz/trará benefícios ao nordeste assim como se relaciona com a atuação divina frente às dificuldades da vida do povo sertanejo; do mesmo modo, o gesto de retirada do chapéu é utilizado tanto em uma situação de agradecimento e saudação quanto na situação de respeito a Deus – os homens retiram o chapéu e baixam a cabeça ao entrar na igreja, por exemplo, demonstrando respeito e humildade frente à imagem de Jesus no altar.

Na última parte da intervenção oral do empregado da obra, a expressão da fé se intensifica ainda mais e eleva a figura do homem político presidente a um patamar tão alto quanto o da figura de Jesus Cristo: − “Senhor presidente, que Deus te abençoe e lhe dê graça pro senhor continuar trabalhando porque o teu povo precisa disso, essa obra.” A expressão o teu povo e essa obra remetem, em igual medida, ao povo e à obra de Jesus Cristo (o Deus encarnado) e ao povo sob a tutela de Lula (o sujeito que dá corpo à função de presidente) que se beneficia de uma obra como a que está em questão na sequência enunciativa. No limite, a intercessão divina recai sobre um sujeito igualmente sacralizado, como Jesus Cristo assim o foi, promovendo efeitos de sentido de divinização do sujeito político empossado presidente, o que reforça tanto a fé cristã/católica do povo nordestino (que também se identifica como povo brasileiro) como uma espécie de fé sagrada para com o sujeito político.