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N Y LIKESTILLINGS - OG MANGFOLDSKOORDINATOR : N OEN REFLEKSJONER

4. FORSVARETS KVINNESATSNING: TILTAK VI FINNER SPOR AV I LINJA

5.2 N Y LIKESTILLINGS - OG MANGFOLDSKOORDINATOR : N OEN REFLEKSJONER

Figura 8 - Programa Lula 13 dezembro 1989 – Tempo: 1o53’10” – 1o55’10”

Locutor: Rio de Janeiro. Pastores, ministros e diáconos evangélicos, padres e bispos católicos reuniram-se para dar apoio a Lula.

Bispo Dom Paulo: Nesses últimos dias, tem sido divulgado por todo o país muita coisa que fala a respeito do candidato Lula da Silva que não é verdade.

Frei Leonardo Boff: Eu conheço a fé de Lula, a sua abertura às religiões, o respeito que ele tem para todas as manifestações religiosas.

Pastor Mozart: Para sermos fieis ao protestantismo, hoje, devemos apoiar a candidatura popular de Luís Inácio Lula da Silva.

Sociólogo Jether Ramalho: Chegamos à conclusão de que a vida, a prática e o programa de Luís Inácio Lula da Silva é aquele que melhor representa esses ideais do Reino de Cristo.

Pastor Carlos Cunha: Em nome de minha fé, convido todos os cristãos e crentes em Jesus a votarem no programa do Partido da Frente Popular de Lula.

Bispo Dom Mauro: É outro projeto de paz, é um projeto de renovações profundas na sociedade, fazendo justiça à mulher, ao homem que trabalha e dando vida às crianças brasileiras.

Diácono Matias: Digno é o obreiro do seu salário. Eu e minha casa votaremos em Lula pela dignidade do trabalhador.

Carlos Alberto: Tenho certeza que a sua proposta de governo é coerente com a proposta do Reino de Deus, ou seja, uma proposta de justiça, de amor e de esperança.

Diácono Leonardo: Como cristão e leitor da Bíblia, eu apoio a candidatura Lula pelo fato de que ele vai garantir a liberdade religiosa. Benedita da Silva: Não usaremos o nome de Deus em vão, mas contaremos, sobretudo, com a sua fé, com a sua vontade, com a sua esperança de um Brasil novo para um futuro melhor. Fique conosco nesta campanha votando em Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República.

O enunciado acima é veiculado dias depois da transmissão, pelo programa de Collor, do depoimento de uma ex-namorada de Lula, que o acusava de tê-la abandonado grávida e lhe sugerido um aborto, nos anos 1970.

A polêmica incitada pela temática do aborto desliza entre dois campos discursivos: o jurídico e o religioso. No campo jurídico, ele está associado à conduta criminal contra a vida humana – como os homicídios –, e no campo religioso, ele se associa ao desrespeito à vontade soberana de Deus.

Dentre os dois domínios de condições de emergência do discurso, o que poderia justificar a emergência da abordagem religiosa para tratar da temática polêmica seria, em primeiro lugar, a pequena porcentagem de brasileiros declarados “sem religião” na

década de 1980 – 1,6%89 –, o que indicava uma grande maioria da população brasileira

que se filiava a alguma religião, portanto, professava alguma crença religiosa; e em segundo lugar, a circunstância da campanha de Fernando Collor, que já trazia o mote religioso como elemento da construção de sua persona política e abria uma perspectiva de batalha discursiva lançando mão do mesmo elemento de formação dessa categoria de

persona.

Ao contrário da estratégia do adversário, no programa de Lula não há exibição de qualquer símbolo religioso. Ao invés dos símbolos sagrados, a materialidade imagética do enunciado é expressa a partir do corpo representativo de cada líder religioso. Líderes católicos e evangélicos de diferentes instituições religiosas apresentam-se em corpo, despidos das vestes que os situam como representantes desta ou daquela modalidade de crença religiosa.

Sem os símbolos de sua fé, a imagem, em si, da reunião dos representantes não se diferencia de qualquer outra imagem de encontro de grupos de militância política: a função de diferenciação se dá pelo verbo proferido pelo locutor: Pastores, ministros e diáconos evangélicos, padres e bispos católicos reuniram-se para dar apoio a Lula. É a partir do verbo que se instaura uma fé religiosa plural que vai revestir o discurso de militância política e vai agregar à persona do candidato Lula um novo elemento: a cristandade – elemento, até os momentos finais de campanha, ausente de sua estratégia de construção de personalidade do político ideal.

É também o verbo que legitima o dizer e a imagem do sujeito que inocenta Lula das acusações contra ele. Na tela da TV, o verbo que dá a ver a inscrição “Dom Paulo Ayres Matos – bispo / igreja Metodista de Recife – PE” legitima a verdade do dizer “Nesses últimos dias, tem sido divulgado por todo o país muita coisa que fala a respeito do candidato Lula da Silva que não é verdade”. Sob os efeitos de fé legitimada por um líder religioso, absolve-se juridicamente a figura do candidato Lula maculada pela virtualidade da responsabilidade sobre uma prática hedionda: a posição favorável ao aborto.

O processo de legitimação do dizer pelo verbo inscrito na tela se segue nos demais dizeres/depoimentos dos representantes religiosos, deslocando e opacificando a temática do aborto em favor da instauração de uma identidade religiosa para Lula. Em nome da fé de cada líder religioso, constrói-se para o candidato a “porta” para um

governo digno do Reino dos Céus. Instaurada essa ligação entre a proposta de governo do candidato e os preceitos do Deus bíblico, desloca-se a fé do candidato para a fé do telespectador/eleitor, fundindo-a com a decisão política sobre o voto. Assim, reveste-se o discurso político com o discurso religioso, que amalgama a fé à figura do candidato e atinge a fé do telespectador/eleitor, opacificando a polêmica e trazendo à tona uma identidade ecumênica.

Nesta campanha, é possível observar uma estratégia discursiva que busca construir uma visibilidade para a fé dos candidatos. Essa visibilidade é construída, de um lado, pelo próprio corpo do homem político, como se vê no programa 1, quando a construção do enunciado faz ver, pela conjunção da imagem (que mostra o corpo) e do verbo, o corpo do mártir, assim como Jesus o foi. De outro lado, a visibilidade é construída pelo corpo institucional, da(s) Igreja(s), que faz ver a pertença do homem político à fé religiosa, como no caso do programa 3, em que é possível observar a construção de um corpo ecumênico fortalecido que afirma a fé de Lula, que fala por ele e lhe institui a fé.

O leitor poderá acompanhar, agora, na sequência do trabalho, a presença de um hiato na construção e circulação do tema da fé no discurso político: nas campanhas de 1994 e 1998, não foram encontradas referências a este tema em nenhum dos programas analisados. A justificativa para essa não ocorrência pode estar em algumas condições históricas e conjunturais que podem não ter favorecido a) a produção e circulação de discursos sobre o tema da fé, b) a captação de programas nos quais aparece o tema. As condições históricas que favorecem o apagamento do tema da fé entre 1994 e 1998 estão, em primeiro lugar, no fato de que se tratou de uma campanha que foi decidida em primeiro turno. Com base nas ocorrências que verificamos em nosso trabalho, o segundo turno parece oferecer maiores condições para a intensificação das estratégias que levam à emoção do telespectador-eleitor, pois se trata de um momento em que é preciso intensificar a aliança com o eleitor, a confiança no homem político, a verdade do dizer do candidato; em segundo lugar, tem-se o panorama político da época, que estabeleceu uma corrida de estratégias discursivas dos candidatos nos programas que salientavam posições a favor/contra o Plano Real, menina dos olhos do candidato eleito Fernando Henrique Cardoso – ou seja, para desqualificar o candidato do PSDB, era preciso desqualificar o plano econômico; em terceiro lugar, conforme veremos mais adiante, a campanha de 1994 foi transmitida sob a pressão de uma lei que proibia a utilização de imagens externas e inviabilizava determinadas produções levadas a cabo

pela tecnologia da televisão. No campo das condições conjunturais, destacamos o número reduzido de material que conseguimos com o Instituto de Pesquisas Técnicas e Científicas (IPTEC) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que pode ter compilado um material no qual não é possível encontrar tais indícios. O fato é que, nas nossas análises, pudemos observar que o tema da fé não se atualiza nestas campanhas e volta a funcionar na campanha de 2002, conforme veremos a seguir.