• No results found

6.4 Del fire - Hva forteller materialet om problemstillingen?

6.4.1 Viewpoints og sosial kompetanse

Ao longo de sua fala, Noeli faz várias menções à rotina que tinha com suas filhas e também sobre o seu envolvimento com a criação e o acompanhamento das fases de desenvolvimento delas. Ela preocupava-se tanto com os aspectos corriqueiros do dia a dia como organizar a alimentação, higiene, vestuário e providenciar a estrutura básica para o funcionamento da casa, como ainda com as questões relativas à educação propriamente dita das meninas, envolvendo transmissão de valores, de noções de cumprimento às regras e princípios de socialização e convivência. Aliás, sobre este segundo aspecto, Noeli deixa um espaço significativo em seu discurso para argumentar a respeito:

tu tem mil e uma coisas pra fazer em casa (.) aí tu tem que batalhar (.) então tu tem que ensinar eles também a ter a responsabilidade de saber o limite a saber até onde vão (.) saber o que pode fazer o que não pode (.) uma coisa que eu sempre cobrava muito das gurias era aquela história de ser honesto de não mentir sabe (.) de ah mãe eu fiz isso e isso e isso (.) eu posso até brigar contigo filha mas eu vou sempre te aconselhar para o melhor porque pais e mães também erram né //E: Uh-hum// mas a gente sempre erra tent- com os filhos (.) a gente sempre erra tentando acertar né (.) eu sempre disse pras minhas gurias (.) gurias vocês não mentem pra mim porque isso é uma coisa que a gente traz do berço (.) vocês não pegam nada do que não é de vocês (.) se vocês quiserem vocês vão pedir que se a mãe puder (.) a mãe dá né (.) mas nunca roubam nada de ninguém nunca pegam nada de ninguém (.) sobre drogas sempre falei muito muito aberto sobre drogas (P. 23, L. 17- 28).

Esta abordagem, por assim dizer, ‘integral’ de Noeli, demonstra, em certa medida, que a

forma como a sua família foi se organizando estruturalmente contradiz os papeis sociais tradicionalmente estabelecidos para cada gênero. Da mulher e mãe é esperado que com seu instinto materno, uma espécie de característica supostamente inata que orientaria a prática diária materna, atue na esfera privada; e do homem e pai espera-se que tenha ação no espaço público, que cumpra as obrigações no plano financeiro, exerça a função de protetor da família e represente a figura de autoridade do lar (COLLING, 2004; NEGREIROS; FÉRES-CARNEIRO, 2004).

Se poderia pensar na hipótese de que em plena década de 90 não haveria mais espaço para a perpetuação dessa divisão por gênero, e sim que eles já estivessem buscando outra coisa para si e suas crianças, alcançando uma dinâmica na qual não há papeis principais nem coadjuvantes, e sim participações conjuntas numa típica parentalidade contemporânea (BELTRAME, BOTTOLI, 2010). Outra possibilidade, mais plausível, é que não houvesse ainda entre o casal uma divisão tão equânime entre as tarefas de cada um no cuidado dos filhos, mas que Noeli tivesse o anseio de que Sérgio fosse mais cooperativo.

No domínio da organização social, a família surgiu como uma realidade positiva e o que torna o casamento indispensável é a divisão do trabalho entre os sexos, fazendo com que as preocupações de ordem econômica ocupem o primeiro plano nos projetos matrimoniais. A mulher, por institnto ou por tradição ancestral, cuida de seus filhos, os alimenta e os cria, enquanto os homens se encarregam da caça e da guerra (LÉVI-STRAUSS, 1983). Sobre a divisão de papeis de gênero no casamento, Lévi-Strauss (1983, p. 85) afirma:

[...] esta divisão aparentemente natural das tarefas nem sempre foi nítida: os homens não dão à luz, mas nas sociedades em que se pratica a cuvada4, eles devem conduzir-se como se o fizessem. E há uma grande diferença entre um pai Nambikwara que vela ternamente o seu bebê, que o limpa quando ele se suja, e o nobre europeu, a quem, há não muito tempo, levavam cerimoniosamenteos filhos, saídos por alguns instantes dos aposentos das mulheres onde ficavam confinados até estarem em idade de aprender a equitação e a esgrima.

A divisão sexual do trabalho estabelece uma dependência entre o homem e a mulher, obrigando-os a colaborar mutuamente. Lévi-Strauss (1983, p. 85) complementa:

sociedade alguma se manteria no tempo se as mulheres não dessem à luz crianças e se não se beneficiassem de uma proteção masculina durante a gravidez e enquanto amamentam e criam sua progenitura; enfim se não existissem regras precisas para reproduzir os contornos da estrutura social geração após geração.

Noeli ao fazer uso, mais uma vez em seu discurso, da palavra “sozinha” ela expõe

claramente esta situação:

4 Em algumas sociedades, a participação do homem na reprodução e no parto se centra em um interesse ritual que gira em torno das funções fisiológicas do corpo feminino, uma prática que em Antropologia se denomina cuvada. A cuvada é um termo que se refere à observância por parte do homem de uma serie de restrições alimentares e de outras práticas e, em alguns casos, de reclusão durante o período do parto e pós-parto da esposa. (MOORE, 1999).

eu fazia tudo sozinha (.) eu sempre fui muito de fazer tudo sozinha (.) eu fiz tanto que hoje eu me canso quando eu vejo eu tô fazendo né (.)//E: Uh-hum// eu cheguei a um ponto que eu cansei (.) ajudar a cuidar? O Sérgio? hahaha jura né? (.) tinha que @cuidar dele também né@ [...] meu Deus eu fazia tudo isso sozinha né (.) ele não me ajudava a fazer nada=nada nada= nada= nada (.) nunca me ajudou das gurias ele tinha que as vezes pegar as gurias no colo né (.) mas trocar fralda dar mamadeira essas coisas (.) nunca fizeram nunca ele fez (P. 27, L. 32 – P. 28, L. 6).

Estas observações levam a pensar sobre algumas possibilidades acerca das razões deste formato em que Sérgio parece envolver-se apenas parcialmente com o cuidado das filhas. Qual seria a real opinião de Noeli sobre o papel de cada um, homem e mulher, enquanto responsáveis por uma criança? Será que Noeli, por diferentes motivos, conscientes ou não, também não acharia, como uma parte da sociedade, que os homens são inábeis para o desempenho do cuidado infantil e, portanto, estão autorizados culturalmente a não participar? Qual seria exatamente o significado da palavra ‘cuidado’, àquele associado à prestação de serviços pessoais a outros? Por que Noeli, em certa medida, exerceu uma contradição ao afirmar que Sérgio “foi muito paizão assim de brincar, sabe, de se jogar no chão, de se atirar, nunca foi de trocar, de dar banho essas coisas, mas de brincar brincadeira ele sempre foi”?

A situação de que Sérgio não se dispunha a auxiliar Noeli, parece ter tido uma exceção que foi quando, em 1995, Noeli começou a apresentar fortes dores de cabeça as quais foram diagnosticadas como meningite. Ela conta que durante o período em que ficou hospitalizada, em isolamento, sem poder ver as filhas, Sérgio viu-se na condição de ter que assumir o cuidado de Dayse e das filhas gêmeas que estavam com cinco anos nesta época.

Não há informações que indiquem se Sérgio responsabilizou-se por tudo sozinho ou se contou com o apoio de mais alguém para dar conta de trabalhar e ainda atender as meninas. Uma das possibilidades é que ele, ou mesmo Noeli preocupada com que Sérgio não conseguisse cumprir todas as demandas, tenha solicitado que Cenira ou Berenice viessem ajudá-lo.

É oportuno observar que Noeli dedica um intervalo considerável de tempo para introduzir uma longa narrativa com muitas argumentações em que se refere novamente à criação de suas

filhas como um ‘projeto’ de sua autoria, para o qual talvez ela não se sentisse tão plenamente

preparada, mas que ao analisar a ‘execução’ e o ‘produto final’ do mesmo, ela avalia que o resultado foi positivo:

um dia se tu entrar no face tu vai ver que a Dayse me mandou (.) mãe isso eu achei a tua cara o título (.) não sei se tu já leu é mães más //E: não// é muito legal então diz assim que eu não dormia que eu passava a noite acordada pra procurar saber o que que elas iam

fazer no outro dia (.) que elas tinham que limpar a casa que elas tinham que fazer isso que elas tinham que fazer aquilo (.) então vai dizendo um monte de coisas e aí no final diz assim que tudo isso por culpa dela né (.) então a gente quer que o dia que nossos filhos crescerem sejam que nem nós (.) que eles sintam a mesma coisa que a gente sentiu pela mãe (.) que nós sejamos tão culpadas que nem ela foi com nós //E: Uh-hum// e nós queremos ter filhos que nem ela teve (.) então tem coisas assim que a gente às vezes nem vê e é bom a gente ouvir isso (.) porque quando tu tá cobrando dos teus filhos (.) tu não sabe se o que tu tá fazendo tu tá pelo certo (.) mas às vezes pode não ser certo (.) porque é difícil então aquela coisa assim [...]// E: Uh-hum// mas não me arrependo nem um pouquinho de ter prendido as minhas filhas (.) e hoje a coisa mais gratificante é elas chegarem e dizerem bah mãe obrigada por ter sido do jeito que tu foi (.) tu era chata mas graças a deus tu sendo chata (.) a gente sempre tinha que respeitar porque quando eu conversava com elas elas chegavam a chorar então isso assim foi uma coisa que eu sem querer deu certo (.) porque nem sempre quando tu tá fazendo tu acha que vai dar certo né (.) a gente não tem bola de cristal a gente tem que (.) mas eu graças a Deus assim ó (.) Deus foi justo comigo nesse ponto sabe (P. 24, L. 7 – P. 25, L. 23).

Dado esse panorama, fica evidente a importância conferida por Noeli à criação das filhas e o quanto seu papel de mãe ocupa um lugar de destaque no seu interesse de apresentação.