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A obrigatoriedade de Noeli e de seus irmãos irem trabalhar na roça desde cedo é mencionada logo no início da fala da entrevistada, constituindo-se praticamente na primeira narração logo após ela informar que tinha nascido no interior e que lá morou até a sua adolescência. Uma das hipóteses para que ela tenha feito referência a isto de forma tão imediata é que ela quisesse já causar um impacto na pesquisadora, colocando-se numa posição de vítima, para, aos poucos, ir demonstrando como lidou com esta situação no futuro.

[...] a gente trabalhava na lavoura a partir do momento que tu começasse a caminhar tu já ia junto pra lavoura trabalhar (.) fazer o que tu podia fazer tentando ajudar né de igual pra igual então (.) não com aquela responsab- tinha=tinha que ir e tinha que trabalhar (.) cada um fazia o que podia dentro do seu limite de criança né (.) e eu fiquei até os 16 anos no interior trabalhando na lavoura (.) eu fazia trabalho de homem trabalho pesado de lavrar com boi com arado (.) de botar saco em cima dos cavalos pra carregar milho (.) soja e tudo que a gente plantava né (.) e roçava todas aquelas coisas assim que tinha pra fazer eu fazia né (.) eu sabia fazer [...] (P. 1, L. 14- 21).

Um ponto inicial a ser considerado é o de que, conforme citado anteriormente, em virtude dos parcos recursos da família, Zafiro não tivesse outra alternativa senão a de colocar em funcionamento na lavoura toda a força de trabalho que ele conseguisse, independente da idade e do porte físico. A contratação de funcionários possivelmente inviabilizaria qualquer montante de lucro. Além disso, a ocupação da mão de obra de toda família, mesmo das crianças, incluindo cada membro no dia a dia puxado da lida no campo, não era considerado, na época, uma contravenção, sendo muito comum esta prática nas economias de pequenas propriedades familiares.

Noeli conta que começou a acompanhar os pais nas atividades da roça desde muito cedo, como ela diz: “desde o momento que tu começasse a caminhar”. A outra informação fornecida por Noeli refere-se ao marco temporal ao que ela atribui como sendo o início de suas atividades laborais - “desde que eu me lembro por gente eu sempre trabalhei”. Com relação à memória, faz- se necessária distinção dos três tipos de memória infantil: genérica, episódica e autobiográfica. A memória genérica tem início aos 2 anos de idade e produz um roteiro genérico acerca de um

evento repetido como almoçar na casa da avó ou ir de ônibus para a creche, por exemplo. A memória episódica refere-se a um evento em particular, num tempo e local específicos e, por esta memória ser temporária, ela perdura por apenas algumas semanas. Já a memória autobiográfica diz respeito a memórias de experiências características que formam a história de vida de uma pessoa, ela surge entre 3 e 4 anos de idade, quando as crianças desenvolvem a noção de self (STERNBERG, 2010; PAPALIA; FELDMAN, 2013).

Noeli afirma que os irmãos também eram participantes das tarefas, entretanto ela se sentia mais exigida do que eles. Ela acusa as irmãs de estarem sempre sentindo (ou fingindo) alguma dor, o que ela entendia como sendo uma desculpa para não trabalhar e com relação aos irmãos, apesar de magros, ela entendia que eram naturalmente mais fortes do que ela por serem homens. Ela mesma tenta uma explicação para o fato de ser mais requisitada, afirmando:

[...] eu às vezes eu pensava que era filha adotiva porque que as gurias as outras [...] nenhuma trabalhou assim pesado de roçar de lavrar com aquele boi (.) às vezes o meu irmão ia lavrar junto [...] eu era gorda (.) mas eu não tinha força nem sempre gordura é força né (.) eu era mais alta eu era mais gorda @mais bonita mais rosada@ sabe (.) então eles achavam que eu era mais forte também (.) mas eu não era (P. 10, L. 19- 25).

Não são feitas menções a desavenças com os irmãos, mas não seria descabido cogitar que Noeli pudesse apresentar um relacionamento problemático com seus irmãos devido à disputa de divisão de responsabilidades no trabalho, ao invés de fomentar um bom relacionamento com eles como forma de se unirem e suportarem as exigências do pai em relação à lida na lavoura. Ainda que as primeiras brigas entre irmãos ocorram por direitos de propriedade - geralmente propriedade de um brinquedo -, a rivalidade entre irmãos não é o principal padrão entre estes no começo da vida. Sentimentos como afeição, interesse e companheirismo costumam ser prevalentes, sendo os irmãos mais velhos os que tomam a iniciativa de gerar tanto um clima amistoso quanto hostil e os irmãos mais novos tendem a imitá-los (PAPALIA; FELDMAN, 2013).

Convém ressaltar que o interesse de apresentação de Noeli começa a ficar cada vez mais nítido na medida em que ela volta a este tema das atividades na roça em três momentos, utilizando uma narrativa com muitos detalhes. Ela enfatiza que desempenhava as tarefas sozinha, talvez numa alusão a que ninguém intercedia em seu favor, como, por exemplo, sua mãe, que, na ótica de Noeli, poderia ser alguém com legitimidade para agir em sua defesa e proteção. É como

naquelas circunstâncias. O uso reiterado da palavra “sozinha” poderia também querer sublinhar a sua capacidade de suportar as árduas condições que lhe eram impostas por Zafiro e as quais ela narra com tanta dramaticidade que é possível para a entrevistadora visualizar o quadro transmitido:

[...] nós tava terminando de colher eu levei sozinha pra casa (.) eles tavam trilhando soja e eu puxando pra casa [...] nós não tinha cavalo (.)puxava com a mula né (.) era mula porque lá fora era muito morro né(1) eu puxei 30 sacos eu botei pra cima da mula (.) levava de dois em dois [...] aí eu puxei 30 sacos sozinha (.) 15 viagens de manhã (1)botava sozinha pra cima (.) chegava e botava dentro da sala (.) desamarrava o saco despejava lá e voltava E: //Uh-hum//sabe o que que é o saco é de 60 quilos (1) são quatro latas de querosene (.) então ia duas latas de um lado e duas do outro (.) aquelas latas grande assim ((abre os braços e afasta as mãos)) foi o que sobrou né [...] (1) eu já tava com o corpo todo machucado é que o saco machucava né (P. 14, L. 12- 27).

[...] então era uns balaião assim botava um de cada lado né (.) enchia de milho e eu vinha sozinha né (.) eu botava uma tábua assim em baixo porque se tirava um virava o outro [...] eu tirava um cesto daqueles sozinha e jogava pra dentro do paiol e aquele ficava escorando e depois eu tirava o outro (.) eu botava em cima da mula sozinha que era torcido né (.) eu botava de pé e jogava o outro por cima (.) por isso que hoje eu tô cheia de dor (P. 11, L. 12- 20).

[...] ai às vezes tava os dois lavrando junto com a junta de boi né (.) ele com uma e eu com outra (.) então quando eu conseguia engatar aquele arado=arado eu não sei até hoje quanto que pesa mas era muito pesado (.) eu não conseguia levantar né (.) porque uma lâmina de ferro (.) não sei se tu conhece e mais aqueles braços que pega aqui né (.) que era tudo de madeira lá fora tinha uns que é feito de ferro um pouquinho mas o que nós tinha lá era feito de madeira e tinha o arado que era então depois que tu=tu conseguia engatar aquele arado na terra ou engatava num toco ou numa raiz e tinha que puxar o coisa de volta pra trazer o arado pra desengatar e engatar de novo (P. 10, L. 27- 34).

Algumas hipóteses podem ser levantadas a partir desta vivência de Noeli. Uma seria a de que, por estar envolvida com esta rotina, Noeli tenha tido suprimido de seu desenvolvimento psicossocial infantil, os momentos destinados exclusivamente ao “brincar”, aquela etapa em que dos três aos seis anos, na segunda infância, a criança, através das atividades lúdicas, tem o desabrochar de sua capacidade simbólica. Brincar é tão fundamental para o desenvolvimento das crianças que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (1989) reconheceu-o como um direito de toda a criança e é sabido que elas necessitam de muito tempo para brincadeiras exploratórias livres (PAPALIA; FELDMAN, 2013).

Uma consideração que também é viável de apreciação neste contexto diz respeito à escolarização de Noeli. A escola oferece oportunidades de aquisição de informações, de domínio de novas habilidades e aperfeiçoamento das antigas, bem como a participação de atividades

esportivas, artísticas entre outras. Além de ser uma experiência organizadora central na vida de uma criança ou adolescente, o ambiente escolar permite que se explorem escolhas vocacionais e que se expandam os horizontes intelectuais e sociais através da convivência e interação com colegas e amigos (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009).

Ela não fala em nenhum momento da entrevista sobre alguma questão relacionada à sua ida ou presença na escola durante a infância ou nos primeiros anos de sua adolescência, proporcionando, com isso, que se possam fazer algumas suposições. Uma é a de que não estivesse na rotina de sua família, nem o transporte nem a obrigatoriedade de que Noeli ou seus irmãos frequentassem com regularidade o colégio, pois diante dos compromissos de produtividade da terra, é possível que a preferência de Zafiro fosse a de manter os filhos com ele na lida na roça. Outra opção é a de que Noeli tivesse algum tipo de participação ou vínculo com uma instituição de ensino, mas o seu aproveitamento fosse relativamente prejudicado por não poder dedicar-se exclusivamente às atividades escolares. Com baixo rendimento é natural que o interesse pela atividade possa ficar igualmente diminuído, resultando num afastamento temporário ou mesmo abandono definitivo da escola.

Uma hipótese originária também desta vivência de responsabilidades com tarefas na lavoura é a de que Noeli viesse a desenvolver um alto senso de disciplina, a qual refere-se aos métodos de moldar o caráter e ensinar autocontrole e comportamento aceitável, podendo ser uma ferramenta muito útil para a socialização, de acordo com Papalia e Feldman (2013). Não só a disciplina para a execução de atividades profissionais, como também o entusiasmo em poder realizá-las são mencionadas muitas vezes pela entrevistada e serão abordadas posteriormente nesta reconstrução.