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4.1 Results and Discussions of Learners’ Written Responses

4.1.1 First viewing session

Depois da separação, minha mãe ficou com as três filhas para sustentar, sem casa, emprego ou parente na cidade (Manaus). Analfabeta e sem condições financeiras, teve que realizar trabalhos domésticos para manter as filhas e pagar o

aluguel. Por causa das dificuldades, resolveu entregar a filha mais velha (Rosimar) para morar com o avô materno em Coari/AM, ficando apenas com as duas filhas mais novas, eu e Silvanes. Como eu era a mais velha, fiquei com a obrigação de cuidar de tudo em casa e da minha irmã três anos mais nova.

Lembro-me perfeitamente do lugar onde morávamos, uma casa grande de madeira, cujos cômodos são alugados para diversas pessoas (chamávamos de estância). Era um quarto muito pequeno, com banheiro comum para todos os moradores. Situado no bairro da Compensa II, zona oeste, região localizada próximo ao Rio Negro, na cidade de Manaus, neste local tinha muitas crianças e famílias pobres, como a minha, e todos participavam da vida um do outro. Mudávamos constantemente, mas apenas de casa, o bairro sempre era o mesmo.

Tínhamos apenas algumas roupas, e dormíamos no chão debaixo de um mosquiteiro, mas minha mãe estava cheia de esperança com a nova vida. Com o tempo, ela conseguiu entregar almoço para os feirantes, pois morávamos perto de uma feira, e com esse dinheiro ela foi conseguindo nos manter, tirou seus documentos e iniciou a busca por trabalho no Distrito Industrial de Manaus.

A mulher era muito requisitada para trabalhar nas indústrias de montagens, por causa da sua destreza manual, submissão e sensibilidade ao lidar com os componentes. Essas características favoreciam o modelo japonês, implantado nas fábricas, porém, elas também precisavam ter boa saúde e, às vezes, saber fazer as quatro operações. Praticamente eram essas as exigências para serem admitidas (BARBOSA, 2007, p. 20).

Acredito que, nesse momento, eu já deveria ter entre três e cinco anos de idade, e consigo lembrar-me de alguns relatos feitos por minha mãe sobre a vida, suas experiências e, entre elas, lembro-me perfeitamente quando ela falava: “Tu pode ser preta, feia e pobre mais tem que ter estudo, com ele tu entra em qualquer lugar e consegue ser respeitada”.

Lembro-me também das suas panelas. Ah! estas tinham que estar sempre brilhando! E sabe quem era responsável por arear? Eu! Peguei muita panela na cara para aprender a lavar direito. E ainda tinha o pote9! Esse eu não me esqueço! Era o local onde ficava a água para beber. Certo dia, minha mãe me mandou lavá-lo, e

como era muito grande, comparado com minha altura, eu não consegui lavá-lo direito.

Nesse dia, ela esfregou meu rosto no pote, e só parou quando percebeu que eu estava sangrando. Ainda tenho a cicatriz, acima da sobrancelha. Lembro-me também que eu e minha irmã ficávamos trancadas em casa o dia todo, enquanto Terezinha trabalhava. Às vezes, ela deixava alguma comida pronta, outras vezes, eu tinha que fazer, cuidar da minha irmã e da limpeza do quarto onde morávamos.

Como eu era muito pequena, necessitava de um banco, para alcançar o fogão, e tinha que fazer, principalmente, o mingau da Silvanes, porém, este era de massa de macaxeira e quando começava a ferver as bolhas pulava em minha barriga, por isso tenho várias cicatrizes de queimaduras nessa região.

Quando ela chegava do trabalho, as coisas tinham que estar sempre prontas ou eu apanhava muito, na verdade, eu sempre apanhava por tudo, os vizinhos já estavam acostumados a me ver invadindo suas casas para pedir ajuda. Tanto é que tenho várias cicatrizes no corpo e no rosto, das surras que eu levava, toda vez que ela me batia, eu ficava acamada, às vezes não conseguia andar, por causa dos hematomas, ficava muito machucada mesmo, principalmente na alma.

Não me lembro de carinhos, de afeto, ou brincadeiras, contudo, lembro-me de trabalho, este substituiu as brincadeiras e o estudo, assim como o espancamento, sofrido praticamente todos os dias, substituía o carinho materno.

Hoje vejo que era a única forma conhecida por minha mãe para educar e talvez me mostrar um caminho diferente do percorrido por ela. Lembro-me também que minha mãe sempre falava de um irmão paterno que ela tinha e que também morava em Coari.

Ela sempre dizia que ele era muito inteligente, estudioso, trabalhava nos melhores lugares da cidade do interior onde morava. Mesmo não tendo muito contato com a família, era perceptível o orgulho que ela sentia ao falar do meio- irmão, e eu pensava: Um dia ela vai falar assim de mim, vou ser igual ao meu tio. Então, conhecer esse tio era um dos meus sonhos, ele era o pai que sempre sonhei em ter e um modelo a ser seguido.

Mas continuei cuidando da minha irmã e aguardando a chegada de mais um irmão. Agora teria que cuidar de mais uma criança, e minha mãe já estava trabalhando no Distrito Industrial de Manaus. Meu irmão chegou, mas Terezinha

havia brigado com o namorado e resolve vingar-se dele entregando a criança, na hora em que nasceu, para adoção; não quis nem ver a criança.

Porém, logo depois, ela conheceu outro namorado, engravidou novamente, e nove meses depois outro menino veio ao mundo. Recebeu o nome de David, e como ela sempre trabalhou, eu cuidei da criança, praticamente desde a hora em que nasceu, até o dia em que ela foi embora e o entregou para ser criado pela madrinha.

Terezinha é analfabeta, contudo, sabia assinar o nome com muita dificuldade, mesmo assim, estava dento dos critérios para a contratação, pois, nessa época não era tão exigido o grau de instrução, apenas deveria executar com destreza o seu trabalho. Essa habilidade lhe garantia uma Carteira de Trabalho assinada, direitos trabalhistas e reconhecimento de “cidadania”.

Porém, minha mãe não ganhava o suficiente para pagar uma pessoa que ficasse com os filhos, então, nesse período, ela passou a trabalhar no turno da noite e eu ficava sozinha em casa com meus irmãos. Tinha que cuidar durante a noite e de dia, pois ela precisava dormir.

Lembro-me de uma vez em que um ladrão entrou no quarto em que morávamos e roubou tudo o que tínhamos, enquanto eu dormia com meus irmãos. Acordei com minha mãe chegando do trabalho e perguntando pelas coisas. Nossa, que susto!

Na mesma hora, Terezinha passou a mão em uma faca e correu atrás de mim, pois ela dizia que eu era irresponsável, que tinha culpa do roubo. Então, saí correndo, pedindo socorro para os vizinhos, e eles, com muito custo, conseguiram acalmá-la. Ela dizia que ia me matar, mas felizmente consegui escapar, muito machucada, porque apanhei bastante.

Como nossa casa possuía apenas um cômodo, ou seja, um quarto alugado em uma Estância, eu sempre presenciava a intimidade da minha mãe e seus namorados, assim como todos eles me assediavam, me perseguiam durante a noite, ou na ausência dela. Algumas vezes, cheguei a contar-lhe, mais não adiantava, ela não acreditava.

Minha mãe também gostava de festas, bebidas e cigarros e nos fins de semana ela chegava bêbada, junto com seu namorado, brigavam na rua, em casa e eu e meus irmãos presenciávamos. Ela sempre sofria violência física e já estávamos acostumados com aquela realidade.

Terezinha é uma mulher muito forte, trabalhadora, mas a vida não foi muito generosa para com ela. Acredito que o sofrimento a fez uma mulher muito dura, pois tinha uma vida de desencontros, de luta pela sobrevivência. Buscava sempre viver melhor, queria condições dignas, contudo, infelizmente, seu salário não lhe garantia sucesso e, às vezes, não tínhamos o que comer, vivíamos com muito pouco, sempre com o salário dela, que mal dava para pagar o aluguel.

Porém, a pobreza, juntamente com a fé, designava a aceitação de sua condição, fazendo um mix de força e conformismo, expressados assim: “Foi Deus

que quis assim, ele vai dar o jeito, ele sempre olha por nós. Os pobres devem esperar em Deus”.

Quando não tínhamos perspectiva de obter alimentos para o dia seguinte, ela sempre falava: “Não devemos nos preocupar com o dia de amanhã, Deus dará o jeito, isso está na Bíblia”.

Terezinha também me apresentou este Deus que cuida e que protege, mas pune, caso a escolha seja errada, ou não esteja dentro dos seus planos, ou seja, ela dizia que às vezes queremos mais do que merecemos. Ela também esperava em Deus um homem bom para dividir a vida tão complicada, desagregadora, queria alguém para ajudá-la a sobreviver, e enfrentar a luta cotidiana.

O estigma de ser uma mulher com filhos e sem marido era forte e além de tudo Terezinha também não tinha o apoio da família. Na verdade, também não tinha família. Talvez por isso o marido fosse o apoio necessário. Mas suas escolhas sempre a faziam sofrer muito. E sempre um namorado novo chegava à nossa casa.

Depois de algum tempo, ela conheceu outro namorado, que logo passou a morar conosco, porém também não tinha estudo e trabalho formal, vivia de pequenos “bicos”, mesmo assim, ele queria “assumi-la”, e passou a morar conosco. E ela logo aceitou, pois não era fácil encontrar alguém que se interessasse por uma mulher com três filhos.

Mas as coisas não eram bem assim, porque o homem, além de bater muito em minha mãe, ele transformou minha vida num inferno, pois na madrugada ele sempre vinha, e me passava a mão. Eu tentava me esconder, mas não conseguia.

Os outros namorados da minha mãe também faziam a mesma coisa, então, eu acabava pensando que tinha culpa, e fazia de tudo para não ficar sozinha com ele, tinha muito medo da falar, pensava na reação da minha mãe, mas, certo dia, acabei contando.

Ela, porém, não acreditou e disse que era para eu ficar longe dele. Eu sabia que não tinha o direito de estragar a vida da minha mãe, por isso tentava de todas as maneiras escapar daquele homem tão nojento, e minhas noites eram muito difíceis, eu tinha muito nojo de tudo isso, mas o que eu poderia fazer, diante daquela situação? E a vida seguia sem mais novidades.

Minha mãe engravidou novamente e teve uma menina. Eu já estava ali, pronta para cuidar de mais uma criança e tinha mais um motivo para apanhar, caso não desse conta de tudo, da melhor forma possível. Eu dizia que queria ir para a escola e ela me respondia: “Eu nunca estudei e estou viva. Eu não tenho tempo para dormir na porta da escola, é muito difícil conseguir uma vaga”.

E eu tinha que me conformar com alguns livros velhos que apareciam na minha casa, gostava de olhar as figuras e tentar ler alguma coisa. Lembro-me de uma vez em que estávamos, eu e meu irmão David, em frente da vila em que morávamos. Ele deveria ter aproximadamente dois anos de idade, era um dia após a noite de São João e ainda tinha uma fogueira com brasas, na rua, então, eu me distraí vendo um livro chamado Caminho Suave, foi quando ouvi os gritos do meu irmão, ele estava caminhando sobre as brasas.

Minha mãe veio louca de raiva. Eu saí correndo, entrei nas casas dos vizinhos, pedindo socorro, mas não teve jeito, eu apanhei muito, tanto que, no outro dia, não conseguia andar. Ela só parou de me bater quando percebeu que tinha me furado com um espeto de churrasco. Às vezes, pensava que ela se arrependia da violência cometida, mas não conseguia controlar a raiva.

Terezinha e seu companheiro sempre brigavam, chegavam a agressões físicas. Certa vez, ele cortou os dedos da mão dela com uma garrafa. Às vezes, um agredia o outro com faca, eram sempre brigas feias. Recordo-me de uma vez que minha mãe quase foi cortada com um facão, e isso para mim era um terror, tinha muito medo, chorava muito.

Esse homem também enganava a minha mãe, roubava dinheiro dela e gastava com outras mulheres. Ele passava tempo sumido, minha mãe fazia de tudo pra ele voltar, e eu sempre pedia a Deus para que ele desaparecesse, mas ele voltava e começava tudo novamente.

Com aproximadamente seis anos de idade, com três irmãos para cuidar, e uma realidade doméstica de muito sofrimento, trabalho, falta de alimentos, abuso sexual, espancamento e infância roubada, eu ainda tinha sonhos. Entre eles, queria

estudar, sentia que era o certo a ser feito, visto que nossa vida estava sempre em declínio. Mas que tempo eu teria para dedicar aos estudos, visto que trabalhava dia e noite?

No início da década de 1980, minha mãe estava desempregada, agora não era mais uma trabalhadora formal, com direitos garantidos em lei, porém, não podia se dar ao luxo de escolher trabalho, e a necessidade a obrigou a vender frutas e verduras na feira do bairro onde morávamos.

Minha irmã mais nova tinha meses de vida e, além de cuidar das crianças, tinha também a função de fazer a comida e levar até a feira para minha mãe. Certa vez, saí de casa para levar o almoço, uma mão com a panela e o prato, e, no outro braço, minha irmã mais nova. Então, tropecei na rua e caímos no chão. A comida estragou, eu cortei o joelho e a criança rasgou o rosto. Nossa, apanhei tanto!

Figura 3: Criança cuidadora

Fonte: Valter Calheiros (2012).

Nesse mesmo ano, Terezinha, já cansada da vida na cidade, de anos de luta para não deixar faltar alimentos para os filhos, e fazendo malabarismo para pagar aluguel, somava desilusões e fracassos e, sem perspectivas na cidade,

chega o dia da sua grande decisão! Ela resolveu morar no interior do Estado, um lugar bem distante, chamado Copear/AM. Para chegar nesse local, eram dias de viagem, e lá estavam os familiares do seu atual marido.

Terezinha inicia o percurso de volta para o interior. Como não conhecia o local, optou por não levar todos os filhos, e foi então que decidiu me deixar para trabalhar como doméstica na casa de uma vizinha e meu irmão David com a madrinha dele. Ela voltaria alguns anos depois, com muita história de sofrimento para contar, mais filhos e mais pobre ainda.

Ficar, para mim, foi a melhor notícia que recebi na vida! Significava me salvar dos assédios, dos espancamentos, e ter a possibilidade de estudar. Ou seja, eu estava nascendo novamente, em outra década, cheia de esperanças e direito à escola. Talvez não fosse tão ruim, ficar sem mãe, ou não teria diferença nenhuma.

Então, ela seguiu viagem com minha irmã Silvanes, e com a filha mais nova, de aproximadamente 7 meses de idade. E fiquei com uma vizinha, sentindo grande alívio, pois agora estava livre, não apanharia mais, porém continuaria trabalhando. Eu acreditei que seria minha única chance de estudar, e estava livre dos assédios.

Fiquei com saudade da minha mãe e irmãos, mas pensava que um dia teria condições para ajudá-los. E assim continuei minha vida de adulto em miniatura, mas agora sem mãe, sozinha no mundo, naquele mundo tão restrito para mim, que nunca tinha me apresentado alternativa de vida.

Acredito que minha mãe estava tentando fugir da pobreza que a cercava e, mesmo trabalhando diariamente, ela não conseguia mudar aquele quadro de necessidades econômicas. Mas minha família não era uma exceção de pobreza, no Amazonas e principalmente no Brasil, que vinha de décadas de opressão e altos índices de desigualdade social. Essa pobreza também obrigava o rompimento dos poucos vínculos que tinham sido construídos até aquele momento.