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para outros pesquisadores.

Capítulo IV: NA CIDADE “ERA COBRA ENGOLINDO COBRA”.

Na composição dos capítulos anteriores, questionamos aspectos de uma produção acadêmica datada do final dos anos de 1970 e da década de 80 que, por ser baseada em parâmetros de um marxismo economicista, pouco contribui para a visibilidade do seringueiro que migrou para a cidade de Rio Branco. A produção acadêmica da UFAC sobre os períodos citados, não conseguiu ver no seringueiro que migrou quase nada, além de sua potencialidade fora do aproveitamento econômico.

Pontuamos nos capítulos anteriores, como famílias de seringueiros constituíram bairros da periferia, como alguns deles fizeram-se sujeitos sociais coletivos inspirados na Teologia da Libertação; como outros produziram artes, e para concluir os capítulos da tese, discutimos aqui, como seringueiros e seringueiras experimentaram na cidade de Rio Branco, os contrastes sociais, culturais e de valores, constituídos no espaço urbano da capital do Acre.

Nessa perspectiva, a formulação deste capítulo tem por objetivo discutir, como seringueiros, posseiros, colonos e outros migrantes da floresta viveram, materializaram modos de viver na cidade de Rio Branco, vivendo os contrastes entre os modos de vida constituídos na floresta e os valores da chamada cultura urbana; problematizando experiências vividas264 no núcleo familiar; a crise de identidade; o estranhamento aos ritmos de vida da cidade; a mobilidade social cidade/floresta/cidade e interbairros; a relação afetiva que mantiveram com os seus na floresta, a vivência dos modos do seringal na cidade e os imaginários que construíram sobre a cidade de Rio Branco.

264 Sabemos dos riscos que corremos ao usarmos o conceito de experiência social, como categoria explicativa, na análise de nossos sujeitos sociais. Sabemos que se por um lado à experiência vivida pode nos ajudar a evitar cair na armadilha de escrever uma história sem sujeito social; por outro, corre-se o risco de isolar a ação social da complexidade mais ampla do real. A saída talvez seja, não supervalorizar a experiência vivida, reconhecendo também a importância das estruturas sociais e o peso que exerce no acontecer da ação humana. Temos clareza que apenas a experiência vivida, por si mesma, não dá conta da complexidade do real, mas por estar carregada de historicidade, torna-se importante considerá-la na análise histórica. A questão é apoiamo-nos na experiência para dar maior visibilidade aos sujeitos sociais, conferindo-lhes a importância devida. Acreditamos que pela problematização de experiências vividas por mulheres e homens que podemos compreender aspectos centrais de como o sistema dominante funciona e se reproduz.

A análise fundamental consiste em pensar como pessoas comuns, que migraram da floresta para a cidade de Rio Branco, nas três últimas décadas, viveram os contrastes sociais, culturais e de valores no encontro de culturas. A pretensão é construir uma narrativa analisando como famílias de seringueiros construíram novas percepções e modos de vida na cidade de Rio Branco.

Antes, porém, de começarmos a pensar como seringueiros e outros sujeitos sociais migrantes da floresta vivenciaram os conflitos de valores na cidade Rio Branco, consideramos de valia, trazer para a discussão mais um texto acadêmico produzido sobre a realidade acreana nas décadas de 70 e 80, para enfatizar, mais uma vez, o quanto ás análises contaminadas por um viés estruturalista tornaram invisíveis vários sujeitos sociais. Fazemos isso para evidenciar que além dos textos citados em capítulos anteriores, outros foram produzidos, reproduzindo visões que nada ou quase nada contribuem com a visibilidade de homens e mulheres que constituem a história acreana.

Trata-se da dissertação de mestrado “Os ‘imperadores do Acre’: uma análise da recente expansão capitalista na Amazônia”, defendida por Marcílio Ribeiro de Sant’Ana, em 1988, no Programa de pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília.

Em uma leitura rápida dessa dissertação percebemos, a partir dos conceitos utilizados pelo autor, pela leitura da introdução, do resumo e da conclusão, que se trata de uma análise sobre as transformações ocorridas no Acre, nas duas décadas citadas, que reproduz e reforça uma visão de história estrutural onde os sujeitos sociais praticamente inexistem. Algumas das categorias de análises priorizadas pelo autor já dizem muito: “capital monopolista”, “capital internacional”, “expansão capitalista”, “capital em movimento”, “capital latifundiário”, “modo de produção dominante”, “subordinação da força de trabalho ao capital”, “proletariado e lumpesinato urbano”. Nas palavras do autor, a sua obra tem os seguintes objetivos: “...analisar as condições econômicas e sócio-políticas globais que respondem pela supremacia de frações capitalistas no processo de ocupação” e como referencial teórico:

“adota-se uma abordagem integradora, em que se interpenetram e interfluenciam as mudanças na natureza e dinâmica do capital e as oscilações das classes sociais em movimento...o estudo procura reconstituir, paralelamente ao movimento tendencial da economia à concentração/centralização de capitais e expansão dos conglomerados...”. 265

265 Sant’Ana, Marcílio Ribeiro de. “Os ‘imperadores do Acre’: uma analise da recente expansão capitalista na Amazônia”, Brasília, 1988, p. 7.

Em uma produção acadêmica como essa, os sujeitos sociais não aparecem, pois não são visados. Usando categorias de análises como as citadas, não podemos esperar que os modos de vida das pessoas apareçam, que as experiências vividas ganhem historicidade, que os conflitos de valores sejam compreendidos, expressando as contradições sociais. Por isso, a decisão de fazermos neste capítulo, mais um contraponto às análises estruturalistas, nos esforçando para tornar visíveis experiências de vida de pessoas comuns, que migraram para a cidade de Rio Branco, no período estudado por Sant’Ana. Mas nem tudo está perdido. Felizmente algumas dissertações de mestrado produzidas no âmbito da Universidade Federal do Acre, no final da década de 90 e início deste século, fazem abordagens que fogem um pouco às análises estruturalistas, como as de Sant’Ana, contribuindo com a visibilidade de sujeitos sociais.

Portanto, a problemática principal discutida neste capítulo, visa tentar compreender como egressos da floresta vivenciaram/vivenciam na cidade de Rio Branco, nas três últimas décadas, conflitos sociais e culturais atentos também para compreender percepções de como construíram novos valores nos embates da e na cidade. A questão geral que discutimos neste capítulo: Como pessoas e grupos sociais egressos dos seringais experimentaram, na cidade de Rio Branco, os contrastes sociais e culturais? Como constituíram novos valores e novas identidades? Como experimentaram o estranhamento, as mudanças na estrutura familiar? Como viveram as diferentes temporalidades? Enfim, como reinventaram a sobrevivência na cidade de Rio Branco? São questões surgidas durante o processo de pesquisa e agora em processo de sistematização.

Na pesquisa que realizamos, incluindo textos acadêmicos, fica evidenciado que egressos da floresta, vivenciaram uma pluralidade de experiências de conflitos sociais e de valores no solo urbano da cidade de Rio Branco.

Para Thompson é pela análise das experiências vividas pelas pessoas que se torna possível compreender como a “...vida familiar e social é estruturada” no contexto de “sistemas densos”. Segundo ele, é nas relações de “parentescos”, na análise das “...regras visíveis e invisíveis da regulação social”, ficando atento às “formas simbólicas de dominação e de resistência”,266 e percebendo a pressão que eles exercem sobre o conjunto, que se pode perceber a historicidades dos sujeitos sociais e o contexto em que estão inseridos.

Ao historicizarmos alguns aspectos de experiências vividas por famílias de seringueiros na cidade de Rio Branco, encontramos em Thompson, um suporte importante, pela valorização que ele confere a experiência social.

Entendemos que a ação das pessoas não está descolada de uma realidade social mais ampla, de processos sociais mais complexos. Mas não concordamos com a escrita da história que privilegia apenas a análise das estruturas sociais, de “um processo

sem sujeitos”. Quando nos posicionando dessa forma não estamos priorizando o

empirismo e subestimando a análise estrutural, mas como pensava Thompson, não existe estrutura social sem sujeito.

Williams também confere grande importância à experiência humana, ou

“prática humana”, como preferiu denominá-la, por entendê-la como uma categoria

analítica fundamental na compreensão de como o poder hegemônico funciona. A experiência humana esta carregada de historicidade, não expressando apenas questões imediatas, mas trazendo no seu bojo elementos residuais e emergentes, ou seja, do passado e do futuro. Nenhuma análise da ordem social dominante ou cultura dominante esgota toda prática humana.

Williams sugere que o estudo de experiências, significados e valores vividos e formando no passado, podem conter elementos de uma relação alternativa ou mesmo oposta em relação à cultura dominante. Chama atenção para a perspectiva de que experiências vividas por pessoas no passado, podem não apresentar nada de novo, no entanto, se analisadas cuidadosamente, evidenciam características ativas no processo cultural do presente. São resíduos formados no passado, mas que podem ser apreendidos como efetivos/ativos no presente.267 Ou como diz Homi K. Bhabha: Williams localiza nas margens da experiência, práticas resíduas e emergentes que podem ser transformadas se forem localizadas historicamente. 268 No decorrer do texto vamos discutir uma questão suscitada a partir de reflexão de Williams: as novas experiências de seringueiros na cidade de Rio Branco, fortalecem a cultura dominante ou se tornou alternativa a ela?

A pesquisa e a nossa própria experiência de nativo da floresta, nos faz acreditar que o seringueiro que chegou à cidade de Rio Branco, tinha uma sensibilidade muito grande em relação à experiência vivida, pois na floresta, fundamentalmente toda sua vida foi orientada pela experimentação, pela observação atenta, pelo refazer a

267 Op. Cit. Williams, 1979, p. 124-129.

mesma atividade mais de uma vez com o objetivo de aperfeiçoá-la. O seringueiro formulou saberes, fundamentalmente a partir da experiência vivida. Aprendeu a “cortar seringa”, primeiro a partir da experiência indígena, depois, os mais novos aprenderam

com os pais ou conhecidos. O que significa dizer que o seringueiro teve na experiência cotidiana, o parâmetro fundamental de suas ações. Williams dizia que “...a nossa maneira de ver as coisas é literalmente a nossa maneira de viver”.269 Mas como o seringueiro lidou na cidade tendo como referência as experiências vividas na floresta? É o que vamos tentar trabalhar pouco mais à frente.

Partindo do pressuposto de que é na cultura que os sentimentos ganham materialidade, onde os sentimentos são vividos, lócus onde se realizam as ações humanas, as relações sociais e familiares, em forma de comportamentos, atitudes e conflitos de valores, não temos como não considerar em nossa análise um conceito como esse.

Nestas perspectivas, a cultura seringueira pode ser apreendida na cidade de Rio Branco de muitas maneiras. Podemos vê-la materializada, visualizada, sonorizada, nos conflitos de valores familiares; nos comportamentos ainda fortemente marcados por uma moral constituída na floresta; nas reações aos valores da cidade; na relação com os vizinhos, nas formas de se vestir, de andar, de fazer a casa, dos quintais, em síntese, nas formas de se comportar e agir. Pode ser apreendida de forma objetiva e também subjetiva em várias configurações que a cidade apresenta.

A reinvenção do cotidiano.

Acompanhamos como famílias de seringueiros experimentaram os contrastes sociais e culturais na cidade de Rio Branco, analisando como algumas delas viveram os conflitos de valores no núcleo familiar. Para tanto nos valemos dos conceitos de valores, definido por Thompson: “Os valores não são ‘pensados’, nem ‘chamados’; são vividos e surgem dentro do mesmo vínculo com a vida material e as relações materiais em que surgem as nossas idéias”.270 Os registros consultados evidenciam profundas alterações na estrutura familiar de pessoas que migraram da floresta para a cidade de Rio Branco, o mesmo não ocorrendo com as que permaneceram na Zona Rural acreana. Nota-se que as relações familiares tradicionais vividas nos seringais sofreram, na dinâmica social do ritmo da

269 Apud, Hall, 2003, p. 135. 270 Thompson, Op. Cit., p. 194.

cidade, significativas transformações. São vários os exemplos de desarticulação ou alteração nos modos de vida, gerando no núcleo familiar conflitos sociais e de valores, muitas vezes irreversíveis.

Nas pesquisas realizadas pela antropóloga Laís Maretti Cardia, com pessoas egressas dos seringais que estavam morando no Bairro Cidade Nova, no final da década de 90; pelo geógrafo Domingos José de Almeida Neto, que estudou o comportamento de várias familiares de seringueiros que constituíram, na década de 70, os bairros periféricos João Eduardo e Triângulo Novo; e pelo, também geógrafo, Valtemir Evangelista de Souza, que narrou aspectos da vida de moradores dos bairros Papôco, Santa Terezinha, Tancredo Neves e João Eduardo, encontramos contribuições significativas à composição deste texto. Esses professores e pesquisadores da UFAC entrevistaram moradores egressos dos seringais que rememoraram suas experiências passadas.

Nas análises, bem como nos depoimentos contidos em seus textos e nas entrevistas que realizamos nos bairros é possível perceber como famílias viveram os conflitos de valores. Encontramos muitos relatos de experiências de pessoas oriundas dos seringais, dando conta do estranhamento inicial ao chegarem à cidade, como viveram processos de tensões e dificuldades em conviver com os códigos da vida urbana, mas também como se fizeram sujeitos sociais urbanos.

Laís Maretti na sua pesquisa entrevistou no período citado várias pessoas egressas dos seringais que estavam morando no bairro Cidade Nova. No seu estudo percebe-se que houve várias alterações nas relações familiares depois da migração. É o que se pode perceber na entrevista de Pedro:

“Vim de Xapuri em 77 por causa dos homens que chegaram lá e foi empurrando todo mundo para fora...Naquela época eu tinha muita coisa: estradas de seringa, roçado, tudo...Minha família trabalhava comigo. Meus filhos e minha mulher. Ela ficava mais em casa. Às vezes ajudava no meu serviço, quando tinha precisão, o serviço apertava. Naquele tempo as coisas eram diferentes, os filhos ouviam a gente, tinham um pai que olhavam por eles, não saiam de perto das vistas da gente. A gente sabia de tudo, tomava conta. Hoje parece que não têm nem pai, nem ninguém, tudo é da cabeça deles e eles é que resolvem o que vão fazer. No meu tempo a gente tinha