• No results found

Vietnam

In document Menneskerettigheter 2003 (sider 106-0)

13. Menneskerettighetsdialoger

13.3 Vietnam

Segundo Nogueira (2013a, p. 25), Randall Collins, inspirado sobretudo em Durkheim, articula uma concepção sobre motivação humana que indica que “o que motiva os seres humanos é fundamentalmente a busca do que ele chama de energia emocional: uma sensação de segurança, autoconfiança e autoestima derivada do sentimento de participação e pertencimento a uma dada coletividade”. Ou seja, na explicação de Nogueira sobre o conceito de Collins, a segurança seria uma das características da energia emocional, que seria completada pela autoconfiança e pela autoestima. E, para Collins, a motivação dos indivíduos em suas interações seria a busca de energia emocional, obtida por meio da participação recompensadora numa coletividade. O reconhecimento social, como uma recompensa emocional numa interação social, seria então um processo energizante que tornaria o indivíduo mais seguro para interações subsequentes. Entra aí então o conceito de “cadeia” de interações rituais. Os “microencontros” de que fala Collins (1987), que seriam responsáveis pela formação da macroestrutura, seriam as interações sociais. Ao participar de um microencontro, ou ao se envolver em uma interação, dependendo da dinâmica da interação, ela será mais ou menos emocionalmente energizante. Se o indivíduo obtém energia emocional numa interação, ele se torna consequentemente mais seguro para uma outra interação, sobretudo para as de natureza semelhante. Mais seguro, mais autoconfiante, com maior autoestima, as suas chances de obter energia emocional nas próximas interações aumentariam. Caso ele seja, de fato, recompensado com mais um incremento de energia emocional, ele poderá se tornar mais “energizado” e consequentemente ainda mais seguro para sua próxima interação, e assim por diante.

O que parece ser a diferença fundamental entre o foco na questão da busca por segurança ontológica e o foco na busca por energia emocional é que, neste último caso, a atenção recai principalmente (mas não exclusivamente) sobre a dinâmica da interação, mais do que sobre a necessidade do indivíduo em validar suas percepções, sua versão da realidade etc., ainda que a satisfação dessa necessidade seja algo recompensador emocionalmente.

Se nos concentrarmos sobre o indivíduo, visto como uma entidade contínua através de uma série de interações, temos então uma teoria explicativa da personalidade individual. Podemos notar, aliás, que o indivíduo não é a microunidade final. Uma “personalidade”, na verdade, é uma

macroconstrução de um tamanho intermediário: a verdadeira microunidade é o encontro, e nós abstraímos um indivíduo quando traçamos ele ou ela através de uma série de encontros. O que chamamos de uma “personalidade” é simplesmente uma reificação, ou talvez alguém poderia dizer um repositório, de modos de pensar, sentir e agir que são os resultados de uma série de rituais de interação. (COLLINS, 1987, p. 200, tradução nossa5).

A partir dessa perspectiva, em vez do pesquisador descrever, durante a análise de um caso individual, quais foram as influências pelas quais um indivíduo passou durante a sua trajetória e que teriam sido importantes para a produção de certa disposição (como, grosso modo, proporia Lahire), e em vez do pesquisador explicar a receptividade ou a rejeição a cada influência com base exclusivamente no que aquela influência ofereceria para aumentar ou diminuir a segurança ontológica do indivíduo, o pesquisador deverá então analisar a dinâmica dos encontros, a dinâmica das interações que compõem a trajetória desse indivíduo para explicar como elas teriam servido como fonte de mais ou menos energia emocional. A diferença é sutil, já que uma interação que promove segurança ontológica é, geralmente, uma interação que fornece energia emocional, porém, a importância principal do olhar do pesquisador não recairia sobre como o indivíduo percebe e se sente em cada interação, mas sim sobre o que cada interação oferece ao indivíduo em termos de energia emocional. Se a interação for energizante, a autoconfiança, a autoestima e a segurança estariam pressupostas, e o resultado seria um indivíduo mais energizado, mais “rico” em energia emocional e, portanto, modificado para suas próximas interações, numa cadeia de interações.

Defendo que o denominador comum de escolha de conversação é mais emocional do que cognitivo. [...] Vejamos isso de novo a partir do ponto de vista de uma cadeia de interações. Cada conversa nessa cadeia é uma negociação, que resulta na inclusão ou exclusão do indivíduo em algum tipo de adesão ao grupo local. Um resultado que as pessoas estocam disso, como já disse, é capital cultural6: coisas para falar em conversas futuras; outro é um acréscimo ou decréscimo na energia emocional. (COLLINS, 1987, p. 199).

Como se vê, na perspectiva de Collins, o reconhecimento pelo olhar do outro é fundamental, porém, apenas porque isso vai aumentar o capital cultural do indivíduo e sua energia emocional, tornando-o mais seguro e, consequentemente, mais “empoderado” para suas próximas interações, nas quais poderá, então, obter ainda mais energia. “Pessoas que dominam

5 Todas as citações de Collins (1987; 1993) são traduções nossas a partir dos textos em inglês.

6Collins variará entre o uso dos termos “capital cultural” e “símbolos coletivos”, ambos, no entanto, com o significado de “bens simbólicos que podem ser investidos em outras interações e estão sujeitos a restrições de um mercado, incluindo a deflação do valor da moeda uma vez que ela se torna mais abundante”. Seu “uso do conceito de ‘capital cultural’ ou ‘símbolos coletivos’ é um pouco mais amplo do que o de Bourdieu e inclui todos os itens da cultura cobrados por rituais de interação. (COLLINS, 1993, p. 228-229).

suas conversas adquirem mais energia, mais autoconfiança, e uma maior tendência a tomar a iniciativa em conversas posteriores e colocar em uso seu capital cultural.” Porém, Collins indica que não seria necessário “dominar” a conversa para obter incremento de energia; apenas ser aceito no grupo já seria o suficiente para isso. No entanto, ser dominado numa interação ou excluído faria com que a pessoa perdesse energia. (COLLINS, 1987, p. 199). O que estaria sempre em jogo nas interações sociais, portanto, seria, para Collins, sobretudo a energia emocional, ainda que o reconhecimento social seja uma fonte privilegiada dessa energia. “O comportamento humano pode ser caracterizado como tropismo de energia emocional. Fontes sociais de EE energizam diretamente o comportamento; a situação mais forte de energização exerce a atração mais forte.” (COLLINS, 1993, p. 223).

Collins não desconsidera outros “interesses” dos indivíduos, como o já citado capital cultural (símbolos coletivos), dinheiro, bens de consumo etc. No entanto, mesmo a intensidade da busca pela obtenção desses “bens” ou a escolha do que buscar estaria relacionada à busca de energia emocional. O nível de valorização e o acúmulo de dinheiro ou de livros por um indivíduo, por exemplo, se relacionaria ao valor de cada uma dessas coisas no mercado de interações no qual esse indivíduo “negocia”. A inserção recompensadora no mercado, por sua vez, exigiria a posse de símbolos coletivos de pertencimento, o que levaria o indivíduo a tender para mercados nos quais poderia negociar mais satisfatoriamente, ou seja, mercados de interação nos quais o que ele previamente possui seja mais valorizado.

De acordo com a perspectiva de Collins, os indivíduos agiriam, portanto, essencialmente, motivados pelo desejo de manter ou ampliar sua energia emocional, sua sensação de autoconfiança e autoestima. Esse desejo só poderia ser alcançado por meio dos outros indivíduos. Ele seria gerado, justamente, pelo reconhecimento externo do pertencimento do indivíduo a uma dada coletividade: um grupo de status, uma classe social, um grupo de amigos, uma família, etc. Para alcançar esse reconhecimento, os indivíduos utilizariam, no interior das interações sociais, símbolos de pertencimento grupal, elementos que eles adquiriram em interações passadas e que atestam sua vinculação à coletividade em questão. (NOGUEIRA, 2013a, p. 27).

No entanto, mesmo que não possua os símbolos coletivos (ou capital cultural) necessários para obter energia emocional em uma dada interação, em uma dada coletividade, isso não excluiria necessariamente o indivíduo da participação naquele mercado. Se numa certa interação em que o indivíduo se encontra descapitalizado ele tiver seu potencial de capitalização ressaltado pelo(s) participante(s) da interação (ou for visto como um convertido em potencial), ele poderá se sentir emocionalmente recompensado, energizado, passando então a buscar (geralmente com apoios sociais) a obtenção desses símbolos coletivos de pertencimento para

se sentir ainda mais integrado e, consequentemente, ainda mais recompensado emocionalmente, já que ele se sentirá mais seguro das suas possibilidades de satisfazer os requisitos necessários para sua maior integração.7

Um indivíduo que se apresenta “carente” de energia emocional, “pobre” de símbolos coletivos, e, portanto, inseguro, poderá ser visto por uma coletividade, por um “mercado”, como um integrante em potencial justamente devido ao que lhe falta (um indivíduo seguro, com muita energia emocional estocada, em muitas ocasiões seria muito mais difícil de ser atraído, de ser convertido a uma certa coletividade, do que aquele a quem quase tudo reflete um ganho). A interação entre os membros dessa coletividade e esse indivíduo “carente” e “inseguro” poderia, então, ocorrer de modo energizante para ele se ele “se sentir bem” na dinâmica dessa interação com indivíduos vistos como superiores, que têm algo a lhe oferecer mesmo que ele, supostamente, não tenha nada a oferecer em troca. A dinâmica do “altruísmo” permite vislumbrar isso.

In document Menneskerettigheter 2003 (sider 106-0)