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PRIMEIRACRÍTICA:DICOTOMIASDAAGÊNCIA

A oposição entre tipos dicotômicos de agência que sobredeterminam uma à outra é muito comum em todas as ciências sociais. Exemplos destas dicotomias são as díades agência/estrutura; individual/coletivo; ação/instituição; social/técnico; competência/objeto; interesse/moral; micro/macro e assim por diante. A natureza das oposições é diferente, mas todas elas levam a uma pré-caracterização da agência, o que é o primeiro alvo de crítica de todos os autores citados. Estas dicotomias pré- determinam quem vai ser o sujeito e quem vai ser o objeto da ação: um faz sobre o outro, o que é feito. Assim, o grande problema do uso destas dicotomias, segundo os

autores, é que elas já carregam em si uma explicação, uma causalidade (Latour, 2005: 55).

Os autores Luc Boltanski e Laurent Thevenot usam a oposição entre moral e auto- interesse para questionar a dualidade entre ação individual e fato coletivo. Eles argumentam que uma explicação baseada em fatores sociais pode também reconhecer pessoas, já que a questão por trás desta oposição, segundo eles, é a excessiva importância atribuída à internalização de determinações coletivas em formas ‘quase inconscientes’ em cada ser humano e uma concepção limitada de moral como uma disposição benevolente que compensa o auto-interesse (1991[1996:27]). Consequentemente, o modelo de explicação por eles proposto parte da premissa de que é possível entender como as determinações coletivas são internalizadas - ao invés de supô-las quase inconscientes (Boltanski e Thevenot, 1991 [2006 : 27]). Surge então um modelo de dupla referência para a ação humana, para que existam acordos: a ligação entre os objetos ‘externos’ e as competências individuais se dá em termos de coordenação (Thevenot, 2002:2).

Ainda suplantando a dicotomia individual/coletivo, Latour e Callon (1981) afirmam que existem micro-atores e macro-atores, mas que seu tamanho não é definido a priori, pois sua dimensão e força não são pré-requisitos e sim resultantes de uma longa luta (1981:280). Introduzem o conceito de atores-rede (chamados também de actantes ou sociotecnologias): “A difference in relative size is obtained when a micro-actor can, in addition to enlisting bodies, also enlist the greatest number of durable materials.”(1981:284). O tamanho e o poder do ator-rede não depende do que o forma, ou de uma característica inicial, como social ou técnico, humano ou animal, ou qualquer das dicotomias que mencionamos acima. Independentemente de qual seja seu suporte e finalidade, a força de agência do ator-rede depende dos gradientes de resistividade proporcionados pela variação na solidez e durabilidade dos diferentes materiais aos quais se associa.

SEGUNDACRÍTICA:ACONSTRUÇÃODAREALIDADE

Quando a realidade faz par com qualquer outra palavra para formar uma dicotomia, ela já não se encaixa nestas linhas teóricas que brevemente exponho aqui. A realidade, na nova sociologia pragmática, simplesmente é. O real e o socialmente construído são a mesma coisa. Quanto mais construído, mais real. Isso as diferencia substancialmente do

construtivismo social que vincula a construção social à ilusão ou à reificação, como se o trabalho humano, simbólico ou material, tornasse o mundo menos real ou criasse camadas paralelas de realidade e cognição (Latour, no prelo). A realidade, para os pragmáticos, é uma premissa: presume-se que o efeito – e não a causa - das ações individuais ou coletivas no mundo seja a realidade (Latour, 1987:99).

Essencialmente em acordo com o efeito-realidade, para Michel Callon (2007), um discurso, uma afirmação ou uma descrição da realidade participam ativamente dela. O discurso, segundo ele, é performativo, e, portanto, contribui para a construção da realidade que ele descreve, chamando a atenção para a funcionalidade pragmática do discurso e para a distinção funcional entre afirmações singulares e generalizantes (Callon, 2007:8,11). Da mesma forma, Laurent Thevenot argumenta que o ato de dar formas, categorias e medidas às informações é investir em tecnologias de visibilidade que performam a realidade (1984).

TERCEIRA CRÍTICA: AGÊNCIA COMO SOCIOTECNOLOGIA

Quanto à agência, se não podem ser determinados o seu tamanho, sua força ou a natureza de sua atuação na realidade; se ela precisa ter como efeito a realidade; se nela é preciso incluir o discurso e outros objetos; e se ela designa fluidamente o agir individual e coletivo, é ponto pacífico que deva ser performativa. Mas, o que é a performatividade? No caso de Latour e dos atores-rede, a performatividade pode ser entendida se considerarmos seu estudo sobre os cientistas e a construção de fatos científicos (1987): os cientistas, seus argumentos, instrumentos de visibilidade, referenciais teóricos e seus laboratórios, são considerados aliados que, quando articulados a favor da estabilização de uma controvérsia, enfrentam e vencem 'testes de realidade' para se tornarem fatos científicos. Em outras palavras, a mobilização de aliados – considerando aqui pessoas, objetos, instrumentos e discursos – para reduzir incertezas e chegar a uma certeza é um processo de investiduras seguidas que pode ser interrompido a qualquer momento. A redução de incertezas acontece quando as operações de negociação, luta de significados, conflitos e todo trabalho e custo de estabilização deixam de ser percebidos ou levados em conta e passam a agir associadamente como uma força única e universal. Torna-se uma caixa-preta (Latour, 1981:299). Mas considerando que quase tudo no mundo se situa entre os distantes extremos da total incerteza e de um fato 'caixa-preta', Latour

sugere que o foco dos estudos sociais recaia na capacidade de associação de pessoas, coisas, objetos e textos, já que ninguém sabe quantas pessoas trabalham simultaneamente – ou quantos e quais elementos são mobilizados - em um indivíduo, nem o quanto há de individualidade numa 'nuvem de pontos de dados estatísticos' (Latour, 2005:54).

A esses elementos com capacidade associativa e mobilizatória ele chama de actantes. O actante é uma palavra técnica emprestada da literatura que permite que uma mesma ação tenha várias figurações, todas elas reais. Isso garante, para Latour, a abertura necessária para comparar 'o que faz os atores fazerem coisas' (2005:55). A parte interessante da proposta de Latour é que o actante deixa em aberto a relação causal e o seu poder como agência. Por outro lado, as causas, nesta abordagem, deixam de ser preditivas para proporcionarem apenas ocasiões, circunstâncias ou precedentes (2005:59). Do ponto de vista da pesquisa científica tradicional, isso é um contra-senso, pois inviabiliza metodologicamente as generalizações. Por outro lado, permite trabalhar com as generalizações existentes sem desconstruí-las - pois afinal elas são reais – e deixar o espaço aberto para compreender, mesmo que situadamente, como operam. Este é o ponto que liga a proposta de Latour com a de Thevenot, e com a recente posição de Callon. Para Thevenot, os regimes pragmáticos incluem, performativamente, o movimento do ator, a forma que o ambiente responde a ele e a forma como ele leva em conta estas respostas (Thevenot, 2001). A peculiaridade de sua abordagem é o elemento moral que esboçamos anteriormente, a capacidade moral de associar as situações particulares a noções de bem mais gerais. Para Thevenot, a ciência social contemporânea transformou o julgamento coletivo de bom e ruim e bem e mal em ´normas sociais´, em regras de regularidade, e deixou de notar que o ´bem comum´ é um constructo referencial necessário para a atividade humana tanto quanto a reflexividade do contato com o ambiente, e ambos norteiam as formas como se atua em cada situação particular (2001:6). O termo geral “isso é bom”, associado ao específico “esta é a situação” determina a existência de um regime pragmático de vínculo com a realidade. Para Latour, a afirmação textual é um instrumento codificado que carrega consigo muitos aliados, ou seja, referências que o qualificam e apóiam. Neste sentido, é um objeto que media ativamente a solidificação e estabilização de fatos, podendo ser chamado de sociotecnologia. As preocupações de Thevenot oferecem uma perspectiva

analítica diferente, direcionando o eixo de análise não somente para um mundo povoado de fatos e artefatos, como nos mostra Bruno Latour, mas de formas de coordenação entre qualidades diferentes de fatos e artefatos. Os modos de coordenação são analisados quando diferentes actantes são mobilizados para se chegar a um acordo. A instrumentalidade do bem comum é a de um objeto que, ao ser mobilizado, determina valores e prioridades numa situação particular. Observando isto, o bem comum também pode ser considerado uma sociotécnica de acesso à realidade.

Colocando a última linha de crítica às acepções comuns de agência, Michel Callon (2007), defende que qualquer discurso age sobre seu objeto, mais especificamente, que os enunciados, teorias, modelos e fórmulas desenvolvidos por economistas constroem e modificam a economia. As sociotecnologias de descrição do mundo, segundo ele, produzem traços que podem se tornar ponto de passagem obrigatório para que uma realidade se materialize (2007:41).