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8. Konklusjon og Videre Forskning

8.2 Videre forskning

No capitulo 4 de Berenice detetive, o gordo, a turma e o frade encontram-se, à meia- noite, do lado de fora do cemitério São Paulo. Pretendem desenterrar o corpo da escritora e obter uma amostra de suas vísceras para posterior autópsia no laboratório do Hugo Ciência. Mas há uma dificuldade:

―àCo oà a osàe t a ?à―àpe gu touàGodof edoà―àOàpo t oàest àfe hado. O frade, que vestia a imensa batina (hábito) e o capuz, segurando uma pá, falou: ―àPula osàoà u o.

―àÉà uitoàalto.

Sem responder, o frade despiu-se da batina, trepou no muro e, lá de cima, segurando por uma das mangas, baixou a batina até a calçada.

―àDeàu àe àu à oàpega doà aàpo taàeàeuàpu o.

Todos subiram, puxados pelo frade; pular dentro do cemitério foi fácil, cada um se pendurou no muro e largou o corpo.

(MARINHO, 2002a, p. 22)

Quando, pouco depois, surge o zelador do cemitério com um revólver na mão, frade João atira a batina sobre ele e o amarra com suas mangas.

Tal expediente, o de utilizar como arma objetos relacionados com sua atividade religiosa, já ocorrera em Sangue Fresco, publicado pela primeira vez em 1982:

Frade João, num zás-t s,à deuà u à t o paçoà aà fuçaà deà “hipà O Co o s,à ueà oà atirou a trinta metros dali, curvou-se, pegou o pau da enorme cruz, levantou a meia-altura, deu uma volta em círculo, a cruz pegou impulso, a ponta da cruz, zunindo, rasgou a barriga de quarenta e nove capangas, arrancou os intestinos deles para fora, era só intestino reto, grosso e delgado, movendo que nem lombriga pelo chão.

(MARINHO, 2006a, p.124)

A cena remete à Gargantua, de Rabelais, onde frei Jean des Entommeures, entre outras façanhas, empunha e desfere contra seus inimigos o braço da cruz (RABELAIS, 1986, p. 202). Essa célebre ascendência é anunciada pela personagem de João Carlos Marinho, em sua primeira aparição. Reproduzimos, a seguir, a abertura do capítulo 33, de Sangue Fresco, quando isso ocorre:

Às onze e meia, Edmundo, Bolachão, Berenice e Pituca avistaram uma clareira, casas, uma capela, galinhas, cachorros, cabras, jacamins, e um frade grande, bonito, galhardo, forte, corado, musculoso, barbudo, de batina marrom, sandálias e capuz; dava tremendas machadadas em uma enorme cruz de madeira que estava no chão.

O frade limpou o suor e veio a eles:

―à Ol .à Deusà osà p oteja.à Be -vindos. Estou vendo que trazem um doente de malária, vou mandar medicá-lo.

Chamou dois frades barbudos, vestidos do mesmo jeito, que levaram Hugo para a enfermaria, deitaram na cama e deram remédio.

―à “o osà apu hi hosà ―à falouà oà f adeà fo teà ―à Meuà o eà à f adeà Jo o,à souà descendente do Frère Jean des Entommeures, não sei se vocês ouviram falar. Tem uma reserva indígena aqui perto, nós damos assistência. Sou paraibano, vocês, pelo sotaque, já vi que são paulistas.

(MARINHO, 2006a, p. 120)

Na sequência da cena, frade João leva as crianças ao refeitório, onde se reúnem a dez outros capuchinhos à mesa do almoço, e como melhor não teria feito a citada personagem francesa do século XVI, come sozinho trinta frangos, antes de enfrentar com a cruz deà adei aà“hipàO Co o sàeàseusà a didos,à o oàj à i os.à

Para ampliarmos um pouco mais a compreensão do processo de construção de Frade João, voltemos nossa atenção outra vez ao livro de 1982, que marca a sua estreia nas

á e tu asàdaàTu aàdoàGo do .

Como já comentado, Sangue Fresco é ambientado na Amazônia, para onde a turma doàgo doà àle adaàpeloà il oà“hipàO Co o s,àdo oàdaàFlesh Blood Corporation, que mantém no meio da selva um campo de concentração onde aprisiona as crianças para extrair-lhes o sangue. A invasão de terras indígenas e a ocupação da Amazônia por estrangeiros ressoam também nesse livro, mesmo que de modo periférico.

Ainda que a performance de frade João ao empunhar a cruz como uma clava também nos faça lembrar, além das explícitas referências intertextuais que acima mencionamos, do papel da igreja católica em nosso continente quando da época dos descobrimentos, algo na li haàdaà a adaàdaàespadaàeàdaà uz ,à oà àdisso,àa ui,à ueàseàt ata.àF adeàJo oà ep ese ta,à na obra de Marinho, a atuante esquerda da igreja católica que opôs importante resistência à ditadura militar e que possuía certos valores socialistas.

áàe gajadaà fi haàpoli ial àdeàf adeàJo o,àe àBerenice detetive, também nos auxilia a perceber tal personagem:

―à Pu aà ―à disseà oà douto à Jos à ―à ág ess oà o à f atu asà aà doisà i e alogistasà americanos que estavam procurando manganês, rachou o crânio de um Adventista

dos Últimos Dias, que foi pregar o fim do mundo para os índios, atirou no Amazonas um diretor da Funai, botou fogo numa plantação de maconha que uns sujeitos estavam fazendo perto da zona indígena, queimando-os vivos, e agora, dinamitou o canteiro de obras de uma usina elétrica. Foi indiciado em todos os casos, mas o juiz da comarca mora no Rio de Janeiro e só vai fazer audiência e despachar uma vez cada dois meses, o promotor e o delegado são amigos íntimos do frade, vivem caçando e pescando com ele, almoçam todo domingo na missão. Entretanto, dinamitar uma usina é caso federal, a Polícia Federal mandou prender o frade, mas ele fugiu para o exterior, talvez pelas florestas do Peru. Os capuchinhos foram expulsos da missão. A Funai assumiu a zona indígena, os índios estão revoltados, exigem o frade de volta, entraram em greve de fome, a situação está muito tensa.

(MARINHO, 2002a, p. 124)

Repetem-se, nas atuações de frade João, cenas à mesa, à maneira de Rabelais, como vimos desde Sangue Fresco. As refeições são invariavelmente socializadas e, pela comida farta, pelo vinho copioso e quantidade de comensais, tratam-se sempre de banquetes. Escreve Yara Frateschi Vieira, a propósito da obra de Rabelais:

A imagem do banquete, enquanto representativa do ideal de abundância universal, é intimamente associada a essas festividades populares, expressando o sonho de uma idade dourada em que todos pudessem comer sem restrições e sem discriminações.

(VIEIRA, 1986, p. 13)

Não nos parece ter outro sentido a inclusão de cenas de fartas refeições, associadas ao frade João, na obra de João Carlos Marinho.

Assim, o procedimento intertextual de que o autor brasileiro se vale para retomar a personagem e cenas de Rabelais, portanto, não é o da paródia, pois não existe oposição ideológica entre as duas personagens, mas o da paráfrase, já que a personagem de Marinho acompanha a orientação semântica da personagem rabelaisiana.

Quase amorosamente, a caracterização do frade João vai buscar na obra de Rabelais os atributos que este investiu em Frei Jean: generosidade, grandeza, simplicidade, coragem, gluto i e,àhipe li aà apa idadeà igue ta,àaleg iaàdeà i e ,à a a adage .à Nu aàhou eà ho e àt oà o t sà e àt oàe g açado à ‘áBELáI“,à ,àp.à ,à osàa isaàoà a ado àdeà