7 Avsluttende drøfting
7.4 Avsluttende kommentarer
7.4.2 Videre forskning
Para Rousseau, a maior preocupação do homem natural é sua conservação, cujo cuidado se expressa no amor de si19 (sentimento da própria existência), que faz com que ele se volte para si próprio.
O amor de si é uma paixão conferida ao homem natural que busca o zelo pela conservação da vida, conforme Rousseau esclarece em Emilio:
A fonte de nossas paixões, a origem e o princípio de todas as outras, a única que nasce com o homem e nunca o abandona enquanto ele vive é o amor de si; paixão primitiva, inata, anterior a todas as outras e de que todas as outras não passam, em certo sentido de modificações. (ROUSSEAU, 2004, p. 288).
A conservação do homem natural depende exclusivamente dele próprio. Por isso, esse amor de si lhe é inato e original, fruto da própria natureza humana que se manifesta no cuidado de sua preservação e, por conseguinte, de sua existência.
É importante salientar que, para Rousseau, a paixão de conservação ou amor de si é algo benéfico e salutar ao homem natural, diferente da percepção hobbesiana, que entendia o homem natural como um indivíduo egoísta e, por isso, ele deve ser visto como amoral. O elemento definidor de Rousseau ao não estabelecer um estado de guerra é que o homem natural vive sozinho e por não haver a necessidade de dependência de um para com o outro. Esse motivo é determinante para afirmar a necessidade individual de conservação do homem natural.
19 O amor de si é a única paixão natural no homem, ela é em si útil e boa e não pode ser confundida com o amor próprio, pois são duas paixões diferentes e distintas pela sua natureza e pelo seu efeito. “O amor de si é um sentimento natural que leva todo e qualquer animal a cuidar de sua própria preservação e que, guiado no homem pela razão e modificado pela compaixão, cria humanidade e virtude” (DENT, 1996, p. 37).
Rousseau faz uma distinção entre a concepção de amor-de-si com o que ele chama de amor-próprio, conceito este que tem seu tom na filosofia hobbesiana. Para o pensador genebrino:
O amor-de-si mesmo é um sentimento natural que leva todo animal a velar pela própria conservação (...). O amor-próprio não passa de um sentimento relativo, fictício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si mesmo do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que mutuamente se causam e que constitui a verdadeira fonte da honra. (O.C, III, 1964, p. 219).
Por essa diferenciação, fica evidente que a concepção antropológica de Rousseau é totalmente diferente daquela apresentada por Hobbes. Tais evidências irão se mostrar posteriormente em suas concepções políticas. Hobbes delineia uma concepção política absolutista e Rousseau um ideal de democracia direta.
Além do sentimento do amor de si, o homem natural também está dotado de uma outra paixão que lhe é natural, denominada por Rousseau de piedade20. A piedade é, para o pensador genebrino a capacidade que o leva a ter compaixão e identificar-se sensivelmente com seu semelhante, distanciando-se de tudo o que não lhe faz bem. Em sociedade, esse sentimento natural será a fonte do sentimento altruísta:
Decorrem somente esta qualidade (a piedade) as virtudes sociais (...). Com efeito, que são a generosidade, a clemência, a humanidade senão a piedade aplicada aos fracos, aos culpados ou à espécie humana em geral? Até a benquerença e a amizade são, bem entendidas, produções de uma piedade constante fixadas num objetivo especial. (O.C, III, 1964, p. 155).
As qualidades apresentadas pelo sentimento de piedade são fundamentais para o ideal de pacto social apresentada por Rousseau, pois é a partir delas que se constituirão as características fundamentais para a democracia.
Os sentimentos da piedade e do amor de si são ambos inatos, contudo distintos. O amor de si leva o homem a preocupar-se apenas consigo mesmo, a piedade, a identificar-se com o outro que sofre, evitando que, egoisticamente uns destruam os outros. Portanto, a piedade é expansiva e capaz de conduzir o homem para fora de si, e o amor de si visa exclusivamente à sua auto-conservação.
20 Sobre o amor de si, a piedade e o amor-próprio se recomenda ler: SILVA, Genildo Ferreira. Moral e sentimentos em J. J. Rousseau. In: ALMEIDA MARQUES, J. O. de (Org.). Reflexões de Rousseau. São Paulo: Humanitas, 2007. p. 47- 68.
Para Rousseau, a piedade tem uma valoração dupla. Primeiro, porque é capaz de fazer com que o homem conserve a si próprio. Segundo, porque é capaz de fazer com que o homem natural socorra seu semelhante:
A piedade representa um sentimento natural que, moderando em cada indivíduo a ação do amor de si mesmo, concorre para a conservação mútua de toda espécie. Ela nos faz, sem reflexão, socorrer aqueles que vemos sofrer; ela, no estado de natureza, ocupa o lugar das leis, dos costumes e da virtude. (O.C, III, 1964, p. 156).
Essa característica, chamada por Rousseau de piedade, que é própria do homem natural, distingue-o dos outros seres e tem por finalidade a conservação da espécie. É por ela que o homem se sensibiliza com o sofrimento do seu semelhante. Por isso, Rousseau toma por conclusão que o homem natural não é egoísta e nem propenso à guerra.
A piedade propicia certa forma de relação; a partir dela, o homem reconhece a existência do outro homem. Amor de si e piedade são paixões que propiciam a socialização do homem, ou seja, são dois sentimentos naturais que colaboram para que o homem reconheça no outro o início de um relacionamento. Assim, a possibilidade da sociabilidade em Rousseau é possível dentro de uma realidade positiva, dependendo da forma com que ela é construída, ou seja, num sistema político no qual não haja, de forma alguma, dependências entre sujeitos que compactuam entre si. Essa é uma das garantias que se encontram no pensamento político de Rousseau que dá legitimidade para se defender que seu ideal de política está embasado numa democracia direta.