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7. Avslutning 1 Konklusjon

7.3 Vidare forsking

Diante disso, restava, ainda na esteira discursiva das práticas psi, elementos ordenadores de um sofisticado vocabulário e uma erudita hermenêutica capaz de iluminar a singularidade de P via discurso do inconsciente psicanalítico. Nessa matriz discursiva, em relação ao ocorrido, sua produção se evidencia enquanto forma específica elucidação de uma vida através um saber possível germinado por um olhar psicanalítico sobre a dinâmica do saber inconsciente e sua efetuação através da escrita sobre o episódio disruptivo. Somam-se a essa hermenêutica e seu constructo teórico os desdobramentos em relação aos rumos do tratamento oferecido ao usuário em questão. É nessa performance discursiva escrita e encenada num misto de trauma-trama-drama que nasce um sujeito em sua história batizado pelo saber do inconsciente.

Nesse caminho, chamou-nos a atenção um artigo psicanalítico publicado em revista especializada sobre o caso de P. Não é incomum os praticantes da psicanálise exercitarem o seu saber realizando análise de casos não atendidos diretamente, o que, nos parâmetros psicanalíticos, é permitido e valorizado para a transmissão desse saber. Assim o fizeram Freud e Lacan, por exemplo, dentre outros.

De maneira similar, ressaltamos que o uso do saber psicanalítico na descrição dessa passagem-caso se faz pela escrita de uma psicanalista e se interessou pelo caso. Contudo, a mesma não atendeu P, sequer o conheceu, apenas se relacionando com o caso que era atendido por outrem:

Abordarei a questão da passagem ao ato através de um caso de psicose atendido em uma instituição de Saúde Mental.

[...]

O caso fora amplamente noticiado pela imprensa local, por tratar-se de um homicídio seguido de automutilação. O paciente fora encaminhado para internação psiquiátrica após ter confessado assassinar e comer sua mãe e depois mutilar-se cortando o pênis e a mão direita. (Bichara, 2010, p. 81)

Em linhas gerais, sabe-se que a psicanálise, enquanto saber do inconsciente, nasce através da prática clínica, onde Freud tenta (e consegue!) formular a posteriori o relato de sua experiência na escuta de seus pacientes, construindo um vasto arcabouço conceitual. Futuramente, esse arcabouço consolidará a psicanálise como o saber do inconsciente, seja enquanto clínica, teoria ou técnica.

Sem maiores explanações teóricas, visto que essa pesquisa não tem propósitos psicanalíticos, cabem algumas problematizações no plano de produção das práticas clínicas do campo da Saúde Mental: como alguém se autoriza, enquanto psicanalista, à escrita da abordagem de um caso conduzido por outras pessoas, por uma equipe de saúde mental, sem ao menos incluí-las numa perspectiva de construção alinhada coletivamente? Com quais critérios? Sob quais princípios?

Adiante:

...mas agora, apaziguado, pensa em „refazer sua vida‟. Tranquilo, passa o dia deitado, lendo a bíblia, frequenta as atividades propostas pela instituição. Não tem prisão decretada, o corpo ou os vestígios da mãe não foram encontrados. (Bichara, 2010, p. 83)

Outras inquietações: Como a perspectiva psicanalítica se conectou a esse campo da Saúde Mental apresentando tamanha apropriação do tratamento de P, inclusive em relação ao seu projeto de vida, seu comportamento na internação e sobre o transcorrer do processo penal?

Mais ainda:

Por tratar-se de um caso atendido em uma instituição de saúde mental, a orientação lacaniana foi importante em sua construção por permitir incluir a dimensão do sujeito no doente infrator. Ele permanece nesse local não por determinação judicial, mas pela preocupação desta equipe, multidisciplinar, com sua proteção e possibilidade de tratamento. Coloca-se a aposta de na instituição, com a intervenção da orientação lacaniana, possa construir um sintoma que permita a moderação do gozo. (Bichara, 2010, p. 84)

Como ocorreu o processo de produção de informação na construção do caso a partir da matriz discursiva psicanalítica? Quais linhas de implicações emanam no/do texto? Como elas se efetuariam? Por quê? Para quê? Para quem? Enfim, perguntas sem respostas.

Com isso, os desassossegos em relação à escritora psicanalista e sua produção textual acendem nosso interesse quanto aos usos do saber/poder psicanálise na manutenção das linhas de produção das subjetividades em cena (da psicanalista escritora e do texto, por exemplo) enquanto superfícies talhadas pelo discurso textual, nesse caso, psicanalítico. Nasce um sujeito no “doente infrator” como efeito da produção textual. P se transforma em fábrica de significação sobre si, singularidade banhada pela curiosidade do saber psicanalítico localizado no texto-divã.

Muito além de adentrar os meandros psicanalíticos para realizar uma densa análise dos conceitos utilizados pelo texto, conforme já mencionado anteriormente, nos chamou a atenção a maneira como se agenciam certos mecanismos para produção de sentidos em certos contextos para validação interpretativa dos processos da vida, prescrição das condutas e propostas de tratamento em processos de normatividade.

Embora a psicanálise, muitas vezes, enseje constituir-se como um saber sobre o inconsciente subtraído da psiquiatria, ao mesmo tempo, em certas modalidades de seu uso, ela pode flertar com as velhas tecnologias empreendidas há muito tempo por algumas religiões, conforme nos dizem Deluze e Parnet:

Lá onde ela se impôs, foi porque ela dava à máquina binária uma nova matéria e uma nova extensão, dependendo do que se espera de um aparelho de poder. Lá onde ela nunca se impôs, foi porque havia outros meios. A psicanálise é uma empresa bem fria (cultura das pulsões de morte e da castração, do sujo “segredinho”) para esmagar todos os enunciados de um paciente, para reter deles um duplo enxangue, e rejeitar fora da trama tudo o que o paciente tinha a dizer sobre seus desejos, suas experiências e seus agenciamentos, suas políticas, seus amores e seus ódios. Já havia tanta gente, tantos padres, tantos representantes que falavam em nome de nossa consciência, foi preciso essa nova raça de padres e de representantes falando em nome do inconsciente. (1998, p. 31)