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6. Forsvar mot revisjon 1 Resultat

6.2.2 Andre forhold

Sem maiores delongas, a psiquiatria pede passagem através de uma produção acadêmica:

O matricídio, o canibalismo e a automutilação grave e intencional, especialmente de órgãos genitais em homens, são ocorrências consideradas extremamente raras, não sendo encontrado na literatura relato como esse que se segue.

[...]

Em geral, os modos de automutilação demasiadamente graves e bizarros associam- se principalmente a quadros psicóticos, em especial em esquizofrênicos. São também descritos nas psicoses tóxicas desencadeadas por uso de alucinógenos, na intoxicação por álcool e nos transtornos de identidade sexual e de personalidade. (Teixeira, Meneguette & Dalgalarrondo, p. 186, 2012)

Foi diagnosticado inicialmente como se tratando de um Transtorno Psicótico Agudo (F 23) e interrogado Psicose induzida por drogas, F 19.5, segundo os critérios diagnósticos da 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID). Posteriormente, o diagnóstico de psicose induzida foi descartado com as informações oferecidas pelo irmão do paciente. Informava que o paciente fazia uso de drogas, principalmente de maconha, mas esse uso era em pequena quantidade e já há mais de dois meses não a consumia. (Teixeira, Meneguette & Dalgalarrondo, p. 187, 2012)

Como a estrutura familiar está gravemente comprometida, a possibilidade de um seguimento em nível ambulatorial é bastante questionável. (Teixeira, Meneguette & Dalgalarrondo, p.188, 2012)

[...]

Sendo assim, a importância deste relato está em pontuar os sinais psicopatológicos que deverão ser levados em conta perante um paciente psicótico com potencial para um grave episódio de violência, contra si mesmo e contra outros. Mesmo com alguns estudos realizados, nota-se que a falta de dados preditivos perpetua a sensação de insegurança e medo, perante pacientes psicóticos intensamente delirantes, sendo esses importantes fontes de estigma em relação ao sujeito com um grave transtorno mental. (Teixeira, Meneguette & Dalgalarrondo, p. 188, 2012)

A psiquiatria, em suas bases científicas, constitui-se enquanto prática discursiva formadora de certos domínios de saber, que, por sua vez, produzem verdades ao sabor de seus ritos e critérios (Foucault, 2002). A partir dela se configuram algumas noções de validação do existir humano em seu agir e habitar o mundo, delimitando um universo relacional padronizado e adaptado numa codificação da vida atravessada pelo determinismo interpretativo calcado em sua discursividade disparadora de efeitos de verdade (o saber), em

conformidade com a geração de modos e formas de ação na relação da vida humana em sua inscrição social (o poder).

O dispositivo (Foucault, 1999b) psiquiátrico se encarrega na fabricação da “verdade científica” sobre o objeto demarcando tempos, lugares; estabelece ordenação dos fatos numa ritualização do saber agregada a emanação do poder em seu plano de produção capilar. Ele também opera em ações de captura da multiplicidade do plano relacional agenciada nos encontros que delineiam as cenas em jogo, determinando sentidos, intervenções, condutas.

Foucault (2004, p. 10) coloca que “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual queremos nos apoderar”. Dessa maneira, as passagens psiquiátricas descritas não somente ilustram um acontecimento, mas incidem sua ação discursiva num campo de significação fechado, homogeneizante, intencionando previsibilidade de forma objetiva sobre condutas de comportamento e das diretrizes para o tratamento. Brevemente, um movimento produtivo do saber/poder psiquiátrico: o inédito, o padrão, o diagnóstico, o prognóstico, o parecer.

A proposta dessa pesquisa está longe de realizar um denso estudo sobre a história da psiquiatria e seus modus operandi, tampouco de chancelar a validação desta disciplina em nosso meio cultural. Procuramos, aqui, apenas trazer uma breve dimensão de como, através de um fato inusitado e complexo no campo da saúde mental, ocorre um desbloqueio discursivo no qual as vontades de saberes/poderes e os saberes/poderes nas vontades compõem territórios existenciais com obstáculos e capturas para os planos de produções dos processos de subjetivação no cuidado em saúde mental.

Sem sombra de dúvida, nesse processo, a psiquiatria, mas também podemos chamar aqui de o discurso psiquiátrico, sintoniza seu movimento como um polo de fabricação de sujeitos objetivados por processos de subjetivação. Diferente dos meios de comunicação citados anteriormente, o poder psiquiátrico muitas vezes se afirma na tentativa conferir um “ponto final” ao comportamento humano mecanizando-o pelas práticas discursivas psiquiátricas em suas linhas duras, produzindo efeitos de previsibilidade frente ao imponderável vir-a-ser (mesmo que por vezes amplie seu menu diagnóstico em diversificadas individuações).

Curiosamente, as passagens citadas foram retiradas de um jornal periódico de psiquiatria, o que, de algum modo, noticia sua especialidade disciplinar e enseja contribuir com material clínico circunscrito num molde de conhecimento restrito à cultura da prática médica psiquiátrica “baseada em evidência”. No entanto, ainda que o sujeito em questão

esteja acometido por grave adoecimento mental, não somente pela intensidade do ocorrido, mas pela perspectiva indefinida nos rumos do cuidado oferecido no campo da Saúde Mental, qual aproximação e interlocução entre essa produção científica com a equipe responsável pelo cuidado houve até então? Com a família do usuário? Com o próprio usuário? Por fim, haveria alguma contribuição possível desse artigo de jornal psiquiátrico ampliar a potência da rede de cuidados de P na produção social de uma realidade menos estigmatizante “em relação ao sujeito com um grave transtorno mental”, conforme consta citado em seu parágrafo final?