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Victims vs. beneficiaries in Sierra Leone

4 SIERRA LEONES REPARATION PROGRAM

4.1 Victims vs. beneficiaries in Sierra Leone

Vimos, anteriormente, que a confusão afectiva, suscitada pelos motivos e valores vitais, conduzia inevitavelmente à hesitação.

Na realidade, a decisão não pode ser realizada através de uma mera análise essencialista que esclareceria rigorosamente o bem a seguir e a escolha a tomar.

A existência encarnada implica uma afectividade confusa e em tensão, em que o horizonte de possibilidades e motivos, de desejos e valores é impossível de inserir numa totalidade presente cuja existência possibilitaria uma análise conducente a uma hierarquia de valores que indicaria, tranquilamente, a escolha a realizar.

Ao contrário, as necessidades, os desejos (quer se apresentem isoladamente ou em constelações), são sempre problemáticos, imprecisos, estando sempre abertos a novas motivações que impedem a existência de uma totalidade fechada. Como refere Ricoeur: (...) mas por princípio o campo de motivação é ilimitado e comporta sempre um horizonte indeterminado cuja determinação progressiva suscita sem fim novos horizontes determinados; não há soma de existência (VI, 1950-1988, pág. 134).

Na hesitação, o querer é imperfeito, angustiado, falho. Mas a hesitação é, também, positivamente, um querer enredado e que se orienta.

Na verdade, encontramos já aí a estrutura intencional da consciência, embora esta intencionalidade flutue ainda na diversidade de objectivos e projectos.

Nesta indeterminação, também o eu se sente hesitante entre várias possibilidades. Refere Ricoeur: (...) Ora, na hesitação a inconsistência do sentido projectado afecta o eu (...) eu não sei o que serei; cada projecto eventual propõe um eu incerto (Idem, pág.

Embora já arrancado à massa anónima da multidão, o eu não é ainda categoricamente eu. É dessa massa informe da subjectividade, em que se vive a indeterminação dos motivos,25 que emerge o eu. Por isso, afirma Ricoeur: (...) Na hesitação, eu sou na

verdade, um ensaio de projecto em relação com um ensaio de motivos {Idem, pág. 135). A história da decisão (cuja temporalidade, simultaneamente sorrida e conduzida, permite a união do voluntário e do involuntário, pela integração do involuntário corporal no seio da decisão), dramatiza-se ainda mais pelas exigências da acção (que impõe, muitas vezes, uma improvisação e parcialidade adversas às análises do entendimento), pela incomensurabilidade dos valores que suscita, pelos conflitos provenientes da vivência em sociedade, pela história social de cada consciência individual, pelos conflitos entre meios e fins, etc.

Esta indeterminação, nenhuma física mental poderá explicar, nenhuma objectivação da consciência poderá representar, sem degradar o campo original da afectividade, tal como ele é vivido por cada consciência encarnada. É nesta confusão primeira , marcada por uma temporalidade cuja dimensão não é apenas física, processo cosmológico que nada inventa, que surge o acto terminal da decisão.

Ricoeur considera, aliás, que a escolha é, em certo sentido, a atenção que pára.

Isto significa, também, que o nosso domínio sobre essa sucessão temporal inelutável, consiste fundamentalmente em conduzir o olhar, fazendo parar o debate e inventando a decisão.

Assim, o tempo, o fluxo incessante e inexorável em que se realiza a história da decisão, tempo físico que não depende de mim e se esgota inevitavelmente, liga-se, através da

atenção, à subjectividade, e a sucessão passa a ser vivida de modo activo, isto é, entra no domínio da liberdade.

Tal como a existência, a sucessão apresenta essa bipolaridade fundamental, (...) ela é

sofrida e conduzida {Idem, pág. 144).

O olhar livre da atenção distingue-se da fascinação, pois, nesta, o olhar é traído pela atracção do objecto e aliena-se. Daí que só a omissão da atenção faça cair na fatalidade da paixão. A essência da atenção, refere Ricoeur, é, pois, esse movimento temporal do

olhar que se volta para... e assim faz surgir o objecto tal e qual ele é em si mesmo {Idem, pág. 148)

A teoria da atenção ultrapassa, assim, o domínio da percepção, e alarga-se ao conjunto do cogito, possibilitando a escolha, ao fazer emergir, da indeterminação dos motivos, o motivo último que pára o debate.

Assim, o que faz com que um pensamento e uma deliberação seja nossa, não é necessariamente uma meditação racional aparentada ao raciocínio matemático, não é, também necessariamente, aquela que mais clara e distintamente se fundamenta, mas aquela que, pela atenção, é acolhida e interiorizada como nossa.

Sem negar, contudo, a intervenção da racionalidade e da afectividade na decisão, Ricoeur considera que a liberdade permanece sempre esse olhar, esse silêncio onde

ressoam todas as vozes. Na realidade, se a decisão não pode anular a intervenção do

julgamento prático que esclarece os motivos e orienta a escolha, é obra da liberdade, (...)

fazer com que um julgamento seja o último {Idem, pág. 162).

É a partir da paragem da atenção sobre uma constelação de motivos e da indeterminação de esboços múltiplos, que surge a escolha, e dela brota o nascimento do projecto.

A escolha surge, assim, como continuidade e descontinuidade, paragem e surgimento do novo.

Paragem da hesitação, da confusão afectiva, da indeterminação e do exame que ela suscitava e, simultaneamente, aparecimento do projecto, da acção a realizar no futuro e do avanço da minha existência. Face à duração que a precede, como refere Ricoeur, a escolha (...) completa-a e simultaneamente rompe-a {Idem, pág. 156).

Assistimos, pois, à superação das correntes intelectualistas (que privilegiam a intervenção da razão na decisão, e a universalização da escolha), e das correntes voluntaristas (que sublinham a intervenção do risco, da audácia, da afectividade na decisão e, simultaneamente, a sua individualização).

Para Ricoeur, o risco, a audácia é a paragem da motivação, isto é, é pela escolha do último julgamento prático que a atenção faz parar a hesitação e surgir a opção.

É, pois, no acto, que se desfaz a discordância teórica das duas leituras anteriores, e é nele também, que se reconcilia o voluntário e o involuntário, a existência sofrida e desejada.

A liberdade deve ser, portanto, entendida, simultaneamente, como poder de escolha e como acto de escolher.