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Vibroseis Method

Chapter 1: INTRODUCTION

2.3 Vibroseis Method

2.1. A delimitação do mal-entendido

A análise de nosso corpus confirma a existência de uma estreita relação entre o mal-entendido e alguns fenômenos comunicacionais adjacentes, que reivindicam delimitações mais expressivas de suas características próprias, para que não venham a ser tomados uns pelos outros, nem por uma ocorrência de mal-entendido.

Percebemos que alguns relatos ilustraram a ocorrência de enganos, situações de impolidez ou de gafes em concomitância com casos de mal-entendidos, ou de forma isolada. Na tentativa de melhor ilustrar esses conceitos, que parecem funcionar de modo paralelo ou tangencial ao mal-entendido, ou seja, co-ocorrendo com o fenômeno, promovendo-o, ou ainda sendo por ele promovidos, propomos a construção do esquema seguinte: ESQUEMA 3: Mal- entendido impolidez ruído gafe Ironia ato falho enga- no mal- ent. delibe rado

A representação gráfica em forma de margarida tem o intuito de ilustrar a relação de contato estabelecida entre o mal-entendido e alguns fenômenos comunicacionais adjacentes. Colocamos o mal-entendido na posição nuclear do miolo e acomodamos em suas pétalas os fenômenos periféricos da impolidez, da gafe, do engano, da ironia, do ato falho, do mal-entendido deliberado e do ruído. Esta estrutura gráfica pretende evidenciar a delimitação desses conceitos periféricos como manifestações distintas e esclarecer suas vinculações com o fenômeno central.

As áreas de interseção formadas entre o mal-entendido e os fenômenos que o margeiam simbolizam os aspectos em comum entre os mesmos. Para melhor explorar essas características comuns, recorremos, mais uma vez, à definição de Hérédia (1987) para o mal-entendido. A autora define-o como uma ‘ilusão de compreensão’ temporária ou permanente entre dois ou mais falantes. A partir desta conceituação, afirmamos embasados nos resultados obtidos em nossas análises, que essas áreas sinalizadas como interseções, em alguns fenômenos periféricos ilustrados, também abrigam uma parcela ‘ilusória’ daquilo que foi expressado ou compreendido: como por exemplo, nos casos da gafe (para aquele que a realiza), do engano e da ironia não assimilada.

Hérédia (1987, p.50) diz ainda que nos casos de mal-entendidos cada falante dá a uma palavra, a um enunciado ou a uma situação um sentido que lhe é próprio, mas que diverge daquele empregado por seu interlocutor. De uma forma menos evidente, a impolidez, os ruídos e os atos falhos constroem seus pontos de interseção com o fenômeno nuclear porque também suscitam a existência de ‘divergências’. No caso do mal-entendido deliberado, como toda réplica, ele simula características semelhantes às de um mal-entendido real, esboçando conseqüentemente áreas de interseção.

Sugerimos a leitura gráfica, começando pelo fenômeno adjacente que foi mais recorrente em concomitância com o mal-entendido, tanto nas amostras de corpus em Contexto Livre Diversificado (CLD) quanto naquelas em Contexto Profissional Hoteleiro (CPH). Sendo assim, a interpretação do gráfico deve ter início na pétala mais escura, que representa a impolidez. A partir daí realiza-se um movimento no sentido horário, ilustrado pela diminuição gradativa do tom azul, que expressa de forma decrescente, o índice de recorrência destes fenômenos comunicacionais nas amostras CLD e CPH. A representação do ato falho dá início aos tons mais claros que refletem a quase inexistência dele e dos fenômenos seguintes entre os relatados do corpus.

Se estabelecemos que esses conceitos constroem uma interseção no ponto central, justificando sua relação causal, ou de conseqüência, ou ainda de co-ocorrência com o mal-entendido, admitimos que o esquema 3 permitiria a inserção de outras pétalas conceituais. Poderíamos ainda reorganizar a ordem de apresentação dos fenômenos periféricos, privilegiando suas características em comum, como expõe o esquema seguinte onde há interseção entre as pétalas adjacentes e não apenas destas com o núcleo central:

ESQUEMA 4: Mal- entendido gafe ato falho impolidez

A co-ocorrência de gafes com casos de impolidez proporcionaria a construção de um ponto de interseção entre esses fenômenos, da mesma forma que a realização de um ato falho que provocasse uma gafe promoveria uma área em comum. Esta reflexão apresenta um novo critério para a ordenação das pétalas no esquema 4 e evidencia a pertinência das relações estabelecidas dos fenômenos discursivos expostos entre eles mesmos e deles com o fenômeno do mal-entendido.

2.2. A comparação dos resultados obtidos nas amostras

A aplicação da divisão tipológica sugerida por Bazanella e Damiano (1999) de mal-entendidos fonéticos, lexicais, semânticos, sintáticos e pragmáticos revelou a possibilidade da conjunção desses casos em alguns exemplos de mal-entendidos analisados em nosso corpus. Para a análise dos resultados os quatro primeiros tipos foram reunidos nos casos lingüísticos e contabilizamos os casos pragmáticos separadamente. Sobretudo as ocorrências lexicais e pragmáticas apresentaram a atuação de componentes semânticos. Nossos resultados corroboraram Dascal (2006) quando o autor afirma existirem formas específicas de interação das diferentes ‘camadas de significância’ do enunciado, tanto para a promoção do entendimento quanto do mal- entendido.

Os resultados das análises mostraram que em Contexto Livre e Diversificado (CLD) os casos de mal-entendidos interculturais pragmáticos com a co-ocorrência de impolidez foram mais freqüentes. A amostra recolhida em contexto profissional hoteleiro (CPH) apresentou um equilíbrio na ocorrência de mal-entendidos lingüísticos e pragmáticos, havendo ainda uma terceira fatia de relatos, na mesma proporção que os demais, que se restringiu ao preenchimento do perfil identitário do hóspede francês. Vejamos o gráfico seguinte:

0 5 10 15 20 25 30 CLD CPH Mal-entendidos pragmáticos Mal-entendidos lingüísticos Perfil identitário do hóspede francês

A amostra CPH em comparação a amostra CLD apresentou resultados mais equilibrados na ocorrência de mal-entendidos pragmáticos e lingüísticos. Interpretamos esse dado como uma conseqüente resposta à maior ‘limitação’ e repetição dos enquadramentos das cenas vividas nas interações do ‘profissional com o cliente’ em ambiente de trabalho. Da mesma forma que uma ‘relativa’ recorrência aos mesmos esquemas de conhecimento, imposta pela atuação profissional destes falantes, ajuda como elemento referencial nas trocas comunicativas. Não esqueçamos, no entanto, que durante uma interação intercultural, o locutor estará sujeito a desenvolver seu cálculo interpretativo recorrendo aos esquemas de conhecimento que construiu através de sua vivência sociocultural, assim como poderá ser requisitado a interpretar os esquemas referidos, explícita ou implicitamente, por seu interlocutor de uma cultura diferente.

A re-ocorrência de mal-entendidos vivenciados e detectados pelos falantes em contexto profissional mostrou que os ‘rituais de realização de tarefas’ no ambiente de trabalho contribuem para o reconhecimento de divergências lingüísticas e comportamentais que podem funcionar como causas do mal-entendido. Vimos que em ambiente livre e diversificado abre-se um leque de possibilidades interativas infinitamente maior, o que expõe os falantes à constante realização de novos enquadres e a uma recorrência mais dinâmica a seus esquemas conhecimento.

Os resultados obtidos na definição do perfil identitário do hóspede francês descrito por funcionários brasileiros estão expostos no gráfico seguinte:

GRÁFICO2 0 20 40 60 80 100

Formalidade Objetividade Exigência Polidez

Hóspede francês Hóspede brasileiro

Pedimos durante as entrevistas realizadas que funcionários de hotelaria definissem o perfil identitário do hóspede francês em comparação ao hóspede brasileiro, através da comparação de algumas características. Entre as variáveis destacadas, selecionamos as mais expressivas para a análise. O índice de resposta para a formalidade foi de 94% para os franceses e 6% para os brasileiros e para a objetividade foi de 88% para os franceses e 12% para os brasileiros. Os entrevistados classificaram os hóspedes franceses e brasileiros com níveis de exigência bem aproximados, com 48% das respostas para os hóspedes franceses e 52% para os hóspedes brasileiros. Esta foi a variável mais marcada para os hóspedes brasileiros e a única que apresentou leve predominância sobre o índice atribuído aos franceses. Quanto à polidez, relacionada sobretudo ao agradecimento por serviços prestados, os franceses receberam 68% das atribuições em detrimento do índice de 32% dado aos brasileiros. Esses resultados expressam o perfil identitário do hóspede francês em relação ao hóspede brasileiro

como extremamente mais formal e objetivo, mais polido e quase tão exigente quanto o hóspede brasileiro.

Alguns relatos analisados na amostra CLD (1º rel._16ª entrev./ 4º rel._19ª entrev./ 5º rel._19ª entrev.) e na amostra ACI (2º rel._ 2ª entrev.) atribuíram explicitamente um perfil comunicativo ‘mais objetivo’ aos falantes franceses em comparação aos falantes brasileiros. Os altos números da variável ‘objetividade’ conferida aos hóspedes franceses na amostra CPH sugerem um ethos mais objetivo entre os falantes da cultura francesa, pelo menos nas circunstâncias (dar informações/tecer comentário pessoal) e na contextualização (área hoteleira) observadas por nossos entrevistados.

A amostra ACI reuniu apreciações contrastivas entre as culturas brasileira e francesa que funcionaram como indicadores de diferenças lingüísticas, comportamentais e de organização social. Essas temáticas que acentuam divergências entre as duas culturas são fatores mais suscetíveis a promoção de mal-entendidos. Destacamos, aqui, as que versam sobre: a ‘inclusão dos idosos na família’ (1ºrel., 9º rel._1ª entrev.); ‘o corpo, a vaidade, a beleza’(4ºrel., 5ºrel., 10º rel._1ª entrev.); ‘o tratamento com as crianças e jovens’(3ºrel._1ª entrev./ 2ºrel._6ª entrev.), ‘o espaço físico da casa’ (3ºrel._7ª entrev./ 7ºrel._14ª entrev.), ‘o café da manhã, o queijo, o pão, os comentários à mesa’ (4ºrel._6ª entrev./ 1ºrel._7ª entrev./ 2ºrel._9ª entrev./ 5ºrel._14ª entrev.)’, ‘a cidadania, a honestidade’ (3ºrel._6ª entrev./ 2ºrel._7ª entrev./ 3ºrel._8ª entrev.), ‘o banho’ (6ºrel._1ª entrev./ 1ºrel._3ª entrev./ 1ºrel._6ª entrev.), ‘o banheiro misto’ (1ºrel._10ª entrev/ 4ºrel._14ª entrev.) e ‘o riso’ (1º rel._1ª entrev.). Os olhares da cultura brasileira sobre a francesa e da cultura francesa sobre a brasileira promovem o conhecimento social, ajudando na interpretação da comunicação verbal e não verbal estabelecida entre seus

falantes. Essas apreciações contrastivas revelam normas sociais implícitas das culturas em questão. A conscientização da carga afetiva empregada numa cultura em determinadas ocorrências de mal-entendidos contribui para a compreensão do quanto esses incidentes são interpretados como ameaçadores por esta mesma sociedade.