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5.2 Vibrational analysis of benzene

Manero

A representação fílmica da ditadura em Tony Manero, de Larraín, assim como Machuca, oferece-nos a oportunidade de apreciar a complexidade das elaborações de memória na sociedade pós-traumática chilena. O argumento desenvolvido no filme diz respeito aos vários tipos de violência presentes no regime. Há uma denúncia direta da violência privada da vida de Raúl e indireta da violência de Estado. Mesmo que os métodos de repressão, as prisões e os incessantes interrogatórios não apareçam diretamente na película, as imagens e os sons que remetem a esses acontecimentos dão o contorno verossímil daquilo que aconteceu na época.

O filme foi produzido em estilo documental, que recorda o cinema político do período de Salvado Allende, com movimentos de câmeras instáveis e aspecto de pouca iluminação. A fotografia prioriza as perspectivas subjetivas, com mais closes no protagonista e

com os fundos e os cenários desfocados. A ideia, segundo Larraín, era criar a concepção de uma estética com tom melancólico, reforçando esse efeito não apenas nos planos das imagens, mas também imprimindo um ritmo lento à narrativa, com poucos diálogos dos personagens.

Tony Manero serve como uma metáfora da perda de identidade do indivíduo e da sociedade, que, após a ditadura, começa a importar modelos econômicos e culturais dos Estados Unidos. Além disso, ao deixar em planos adjacentes as representações do regime, vemos o passado como um território incerto e uma sociedade igualmente violenta. Como comenta o historiador Tzvi Tal sobre o filme:

El film es una alegoría a los cambios impuestos a la cultura popular que había florecido en la era del ascenso de las masas y el gobierno de Allende. El régimen militar anuló dicha cultura popular, instaurando el mercado de productos de entretenimiento dominados por la norteamericanización de los contenidos y géneros. Esa orientación siguió vigente durante la globalización y la transición a la democracia, manifestándose en rasgos estéticos y culturales que no son exclusivos de los Estados Unidos, pero que encuentran en él un representante ejemplar. Esta reconstrucción de la moral y la ética es resistida en los textos culturales chilenos contemporáneos por una tendencia a enfocar en personajes perversos que simbolizan la identificación con la estructuración simbólica del mundo neoliberal.242

Essa homogeneização da cultura norte-americana pode ser percebida na sequência na qual Raúl, ao se inscrever para participar do concurso de TV que escolherá o dublê de Tony Manero, encontra um grande número de candidatos com a mesma expectativa de se tornarem o sósia do personagem de John Travolta. Esse momento gera grande frustação em Peralta, em sua luta incessante pelo direito à individualidade para conseguir ser o Tony Manero chileno, uma vez que isso parece ser anulado com o aparecimento de outras pessoas dispostas a trilhar o mesmo caminho e conquistar o mesmo sonho.

Para conseguir o que tanto queria e reafirmar sua individualidade e soberania frente aos seus pares, o protagonista comete atos perversos. O diretor constrói, paralelamente, duas linhas narrativas que dialogaram durante todo o filme: a violência do indivíduo e a violência do sistema da Junta Militar. A obra, portanto, não se configura apenas como uma metáfora de um psicopata individualizado, mas também escancara parte da sociedade que mergulha nessa nova cultura, ao mesmo tempo em que havia exílio, torturas e notícias de pessoas desaparecidas.

Como interpretou o historiador chileno Eduardo Devés-Valdés, a ditadura chilena apostou na homogeneidade intelectual e política, no servilismo e na negação do pensamento livre. Investiu na importação de modelos culturais e na falta de transparência tanto como no

negligenciar a história, a memória e na completa anulação dos movimentos sociais.243 O filme de Larraín, nesse sentido, possui efeito reparador ao testemunhar e dividir a responsabilidade das atrocidades do golpe com parte da sociedade civil, expondo o prejuízo da violência, da vigilância e do estado de alerta constantes.

No artigo “O Preço de uma Reconciliação Extorquida”, Jeanne Marie Gagnebin244 elabora uma análise a respeito das formas de se esquecer. Para ela, a imposição do esquecimento, como uma forma de ignorar um fato, acaba por impor uma única forma de lembrar e, assim, essa memória vai lutar para retornar. Porém, isso não significa que os fatos não devam ser esclarecidos. Pelo contrário, provoca uma lembrança constante e incita a repetição de novas formas de exclusão e atrocidades em quaisquer regimes políticos. Maria Rita Kehl, em “Tortura e Sintoma Social” (2008)245, compartilha da mesma ideia: deixar os sintomas sociais não tratados pode promover uma ampliação da “barbárie”. Além disso, engendraria um inconsciente coletivamente sustentado.

Para fazer essa análise, Kehl discute as consequências causadas pela falta de punição dos torturadores da ditadura militar no Brasil. Aqui, os opositores do regime militar que “[...] vivem em um universo paralelo, à parte não em função da radicalidade da dor e da despersonalização que experimentaram, mas também porque as práticas infames dos torturadores nunca foram reconhecidas e reparadas publicamente”.246

Desse modo, aqueles que foram vitimizados com a violência ou aqueles que se transformaram em assassinos, torturadores, ficam com uma “sensação de irrealidade”, segundo Kehl, uma vez que são marcados pela indiferença pelos que não se predispõem a testemunhar o trauma. A promoção da Anistia recalcou a responsabilidade não apenas do corpo institucional, como também retirou a responsabilidade daqueles que se tornaram cúmplices ao se calarem frente às atrocidades cometidas, que não somente aceitaram a existência da tortura como acham que esta seria um mal necessário. Ela somente existe porque nós a admitimos. Verifica-se, portanto, que há uma crise ética contemporânea e uma banalização da violência, ou seja, a naturalização da tortura pode ser um sintoma de projeção da frustração ou o resultado de um apelo social.

Tony Manero constrói uma memória sobre a ditadura que trata a violência para além do conjunto das questões políticas. Como provoca Devés:

243 DEVÉS, 197, p. 21. 244 GAGNEBIN, 2008. 245 KEHL, 2008. 246 KEHL, 2008, p. 54.

La experiencia de la dictadura y la memoria de la dictadura han llevado a valorizar la democracia. Pero muchas veces esta valorización se focalizó sólo en lo político. Tradicionalmente, en el medio intelectual, hemos sido poco capaces de proyectar esto más allá, en primer lugar, porque a la clase política e intelectual el problema de la violencia como conjunto, le preocupa menos que la violencia política, que ha sufrido de modo más directo y que le permite contarse una historia de heroísmo.

[...]

La violencia de la delincuencia, la violencia del crimen organizado, la violencia intrafamiliar, la violencia del secuestro, la violencia del sicariato, la violencia del narcotráfico son asuntos poco sufridos por la intelectualidad y poco heroicos y se trata, por tanto, de una violencia que no somos capaces de articular con la violencia política.247

A proposta do autor é salientar e assumir a memória da ditadura articulada a outras formas de violência e morte que repercutem no presente. Como salienta, o problema da violência nos países latino-americanos é de enorme grandeza. Na América Latina, segundo dados fornecidos pelo próprio autor, calcula-se 150 mil mortes violentas por ano248, o que significa um nível de violência equivalente ao de uma guerra civil, com uma taxa de homicídios três vezes superior à média mundial.

Uma população submetida a estes níveis de violência, ressalta o historiador, não pode conservar uma memória da ditadura como um período excepcional de violência e dor, porque tanto o passado como o presente estão cobertos de morte, violência e dor muito parecidos. As memórias sobre a ditadura se diluem em uma representação de mortes violentas; por outro lado, há uma memória que justifica a violência como necessária para manutenção de um tempo de ordem. E desse tipo de memória decorre vários problemas sintomáticos, como Devés questiona:

Y entonces aparece la mentalidad filo-fascista: ¿para qué queremos democracia, si ésta no es capaz de darnos seguridad? Esta mentalidad filo-fascista se hace la peor enemiga de un pensamiento democrático y progresista, pues tiende a privilegiar la seguridad por sobre la libertad, porque se siente incapaz de gestionar su propia libertad y su propia democracia. Llamo mentalidad filo-fascista aquella que imagina el autoritarismo como solución de los problemas y que atribuye las causas a algún sector, socio-étnico, que puede servir de chivo expiatorio.249

Podemos dizer que embora o filme de Larraín seja cheio de incertezas, contendo mais perguntas do que respostas, ele é próprio de alguém que não acredita em narrar o passado, mas sim uma experiência que ainda está em curso no presente. A película é entrecortada por mudanças de rumo e de ritmo que soam como estratégias para rechaçar a linearidade dessas ditas memórias acerca do discurso da violência em prol da manutenção

247 DEVÉS, 2010.

248 Assim afirmou o subsecretario de Seguridad Multidimensional de la Organización de Estados Americanos (OEA), Alexander Addor Neto apud RAMÍREZ, 2007.

da ordem. O filme consegue produzir uma atmosfera que manifesta oposição política não apenas ao regime, mas também à nova etapa social e política do presente.