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5.1 Calibration

5.1.1 Calibration of several small molecules

A segunda obra escolhida para análise, Tony Manero, de Pablo Larraín, foi produzida em 2008 e coproduzida no Brasil e no Chile. O longa-metragem recebeu diversos prêmios, entre eles o de melhor filme no Festival de Cinema de Santiago do Chile, em 2009. Assim como Machuca, também foi exibido e concorreu a prêmios no prestigiado Festival de Cannes. A composição do espaço fílmico ambienta-se durante a ditadura militar chilena, em 1978, mas, neste, o regime de Pinochet aparece mais em segundo plano e não é tão estruturante dentro da narrativa como em Machuca.

O seu enfoque gira em torno da obsessão do personagem principal, Raúl Peralta, em se tornar Tony Manero, personagem do filme americano Os Embalos de Sábado à Noite, interpretado por John Travolta, em 1977. Raúl é um homem na faixa dos cinquenta anos que mora em uma simples pensão, onde dança todas as noites em um palco improvisado as coreografias de seu ídolo John Travolta.

Para aperfeiçoar sua transformação, o personagem tinge seu cabelo de preto para parecer mais jovem, manda costurar o figurino idêntico ao do filme e vai ao cinema quase todas as tardes para assistir o longa. Enquanto a película é exibida, Raúl Peralta decora e repete todos os gestos do personagem, essa prática faz parte do seu treinamento para um concurso de TV a fim de selecionar o “Tony Manero chileno”.

Esse concurso torna-se a meta de vida de Raúl. O protagonista encontra a oportunidade para provar a si mesmo e para todos que é o personagem norte-americano e, por isso, julga-se melhor do que os outros. Para alcançar o objetivo, ele não mede esforços, sua meta transforma-se em obsessão, levando-o a cometer uma série de crimes.

Sua primeira atrocidade é empreendida contra uma vizinha viúva que se sustenta pela pensão da Força Aérea. Ao avistar de sua janela a senhora sendo assaltada, Raúl a ajuda a se livrar dos contraventores, mas, em seguida, ao conhecer a casa da viúva, olha ao seu redor, examinando para ver se encontra algum objeto de valor que possa servir para a reforma do piso da pensão. Senta-se ao lado da senhora, e começam a assistir à televisão. Em certo

momento, a mulher afirma: “el coronel Pinochet tiene ojos azules”, aludindo à sua desatenção tanto sobre violência externa do Estado como a violência íntima da vida de Raúl, que rouba sua televisão a cores, agredindo-a violentamente até a morte.

Após o roubo, Peralta troca a televisão em um ferro velho por tijolos de vidro para concluir a reforma do piso de sua casa de espetáculos, onde faz suas apresentações. No caminho até o ferro velho, percebemos alguns sons de latidos e sirenes que provocam um cenário de conflito, obrigando-o a se esconder durante alguns minutos. Esses ruídos e a forma como o enfoque da câmera é direcionado criam uma atmosfera de tensão e a sensação de estar sendo constantemente vigiado. Essa montagem se repete com frequência em outras cenas, na maioria das vezes, nos momentos nos quais o protagonista pratica alguma contravenção que rompe com as determinações do sistema legal da Junta Militar. Todas essas ações são cometidas por Raúl, sem que ele demonstre qualquer tipo de emoção ou arrependimento e, a partir daí, comete crimes semelhantes, tornando-se um assassino em série.

As pessoas que se relacionam com o personagem são os inquilinos da pensão onde mora: ele namora Cony, moradora do mesmo domicílio, e sente atração por sua filha Pauli. Convive também com a dona da pensão e com Gregório Salina, namorado de Pauli. As pessoas do seu círculo o respeitam e o idolatram, embora o motivo dessa veneração fique em suspense. Todos à sua volta tentam lhe ajudar na realização de seu número de dança com perfeição, apesar de Raúl não demonstrar ter afeto por ninguém. Ele está tomado por um vazio tanto cultural como emocional em sua vida, que o afasta de todas as suas relações pessoais. Diante de tudo isso, o protagonista trata as pessoas com indiferença, elas servem como meio para atingir seus interesses e são expostas à brutalização quando necessário.

O desejo de ser Tony Manero não é o de ser o personagem por completo. Ele pensa no Tony do glamour e da dança, sem se preocupar com os problemas sociais que o personagem original vivia no filme Embalos do Sábado à Noite. Raúl é fascinado apenas pela juventude e pelo sucesso com as mulheres que o “verdadeiro Tony” possuía.

À primeira vista, pode até parecer que não há nada em comum entre Tony Manero, o original, e Tony Manero, o imitador, mas o elo de união entre os dois é o tema do filme: a falta de perspectiva. As “noites de sábado” representavam a única oportunidade de brilhar, tanto para o personagem de Travolta, um filho de latinos pouco alfabetizado, cujo futuro rescende a fracasso, como para Raúl, que vivia um Chile ditatorial e repressivo.

O entorno de Raúl é composto por pessoas igualmente desfavorecidas pela crise socioeconômica chilena. Uma classe média empobrecida, assolada pela inflação e pela repressão político-cultural. Até mesmo a tentativa do casal Goyo e Cony, que também viviam

na pensão, de exercer uma atividade de luta contra o regime termina sem sucesso, ficando implícito que os dois acabam presos. Todas essas ações aparecem em segundo plano, quase silenciadas, na clandestinidade a que o discurso oficial lhes reservava.

Em 1977, o ano de lançamento de Os Embalos de Sábado à Noite, o Chile já passava por quase quatro anos imerso na ditadura do general Augusto Pinochet, que impôs uma grande censura a todos os meios de expressão, abrindo espaço apenas para filmes americanos, em especial musicais. Podemos dizer que o longa denuncia como o próprio Cinema tornou-se um veículo de propagandas que serviram para afastar a possibilidade de reflexão crítica, reduzindo- se à tentativa de alimentar as pessoas de ilusões e aprisioná-las em um mundo fantástico distante da realidade.

A forte censura da época também é revelada de forma quase subjetiva nas primeiras sequências do filme, quando Raúl vai ao canal televiso, para participar do festival, e a produtora do canal instrui os participantes do concurso da semana a não “falar mal do governo e fazer piada sujas” durante a apresentação.

O diretor opta por deixar a repressão militar da ditadura aparecer em meandros, em segundo plano, mas, ao mesmo tempo, indica que ela intervém diretamente na vida das pessoas. Se o contexto fosse outro, Raúl seria diferente? Talvez; pois, o vazio cultural não é fruto apenas de sua psicose, mas também advém da manipulação e do controle dos meios de comunicação do Chile. Isso explicaria, em parte, a escolha do Tony Manero de John Travolta como ferramenta de construção do personagem central; além de mostrar a perda gradativa de identidade sociocultural, o filme denuncia a decadência social na qual viviam os personagens.

Sendo assim, apesar de a ditadura ter um papel secundário na narrativa, seus efeitos são centrais: as imagens e as associações aparecem como uma sombra, refletindo a condição de vigilância constante do Estado às violações que pudessem desacreditar o regime, ao mesmo tempo em que é inerte frente aos crimes cometidos por Raúl. O regime militar, mesmo não visível, aparece no filme todo: vemos seus efeitos sem ver seus perpetradores, seu poder sendo reproduzido nas relações e na apatia sombria do protagonista diante do mundo à sua volta.

Tony Manero, nesse sentido, é uma metáfora da violência, da ditadura e dos políticos da oposição, por meio da vida de um homem, em plena era Pinochet no final dos anos 1970. É uma história da alienação, do vazio cultural e político. A narrativa combina elementos de forma simples, que têm a ver com o que aconteceu no Chile em relação à importação de modelos estrangeiros para sua cultura.