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No desenvolvimento das teses precedentes, Maingueneau considera, mesmo que de forma pouco explícita, que os discursos se constituem em um espaço institucional aparentemente “neutro” e “estável”, uma espécie de mediador transparente que não interviria na discursividade e seria invariante na passagem de um discurso a outro. Essa passagem estaria, diferentemente, ligada à mudança na estrutura e no funcionamento dos grupos que gerem esses discursos, à imbricada relação entre discurso e instituição.

O projeto de Maingueneau supõe que discurso e instituição estão articulados por meio de um sistema de restrições semânticas comum e a ele interessa menos a instituição do que a articulação. De acordo com o autor, a mudança de um discurso dominante a outro em um campo é acompanhada de uma mudança análoga dos espaços institucionais, ou seja, as instituições parecem estar também submetidas ao mesmo processo de estruturação do discurso. Há entre o funcionamento institucional e o discurso um laço semântico.

O autor considera, ainda, que esse laço semântico é também estruturante de aspectos práticos e concretos de todas as práticas institucionais. Ao analisar obras escolares da III República, Maingueneau verificou que, além do conteúdo histórico ensinado, toda a organização concreta da vida escolar (arquitetura das escolas, a natureza e a disposição do mobiliário nas salas de aula, os exercícios realizados, os horários, a língua utilizada, o modo como se dava a relação entre professor e aluno) obedecia ao mesmo sistema de restrições semânticas.

Suas reflexões acerca do laço semântico entre discurso e instituição o conduziram a postular que esta não pode ser tomada como “suporte” para aquele. Contrariando essa concepção tão redutora quanto a que considera discurso um sistema de idéias, o autor postula que as enunciações e a instituição são partes da mesma dinâmica. Para ele, “a organização dos homens aparece como um discurso em ato, enquanto que o discurso se desenvolve sobre as próprias categorias que estruturam essa organização” (MAINGUENEAU, 2005, p. 134).

O fato de que a organização dos homens aparece como discurso em ato é evidenciado, por Maingueneau, a partir da intertextualidade, que é capaz de esboçar implicitamente as regras de coexistência dos textos em um determinado discurso, uma biblioteca legítima de textos pertencentes a esse discurso.

A biblioteca, ou mais especificamente, o thesaurus dos enunciados válidos, também delimita os enunciadores capazes de enunciar a partir de uma determinada formação discursiva e coloca em causa a questão da competência discursiva, categoria que valida um enunciador como o enunciador de um discurso. Não se trata, em medida alguma, de um problema de aprendizagem (aos candidatos à enunciação não são implicitamente indicados os

textos que deveriam adquirir para produzirem enunciados), é, sobretudo, um processo de “interpelação” pelo discurso, um processo de interdependência entre a vocação enunciativa e a semântica discursiva. Nessa perspectiva, a passagem de um discurso a outro pode ser percebida na enunciação de um discurso e nas condições de emprego dos textos de um discurso.

Em relação à enunciação propriamente dita, o autor pressupõe a existência de ritos

genéticos, ou seja, o conjunto de atos realizados por um sujeito em vias de produzir um enunciado e que não se limita a uma espécie de pré-texto (rascunhos, documentos escritos), mas inclui também comportamentos (viagens, para citar apenas um exemplo) que não estão relacionados à escrita. Em grandes linhas, o que é produzido por um sujeito do discurso estará condicionado, quer ele queira ou não, pelo estatuto de uma comunidade discursiva à qual ele se liga. Maingueneau (2005, p. 139) afirma que

a vocação enunciativa supõe uma harmonização mais ou menos estrita entre as práticas individuais do autor e as representações coletivas nas quais ele se reconhece e que comunidades mais ou menos amplas verão, por sua vez, encarnadas nele.

Na literatura, por exemplo, mesmo que o escritor tenha um modo muito particular de produzir seus textos, ele não se desvincula totalmente daquilo que é condicionado pelo estatuto do discurso literário de sua época, por uma dada sociedade ou por uma escola à qual, declaradamente ou não, ele se filia.

Além da realidade de produção da enunciação (ritos genéticos), ela possui outra realidade que está relacionada ao seu consumo e é denominada condições de emprego; ambas as realidades (a maneira pela qual o texto11 é produzido e pela qual é consumido) não são independentes. Os modos de difusão dos textos (muito variados) também denunciam uma relação entre a sua exterioridade e seu próprio conteúdo. O modo como um texto é difundido, assim como as características do público-alvo, é indissociável do estatuto semântico atribuído pelo discurso a si mesmo e estabelece o que se fará dele, como será lido, manipulado. A problemática do gênero, do mesmo modo, também define as condições de utilização dos textos pertencentes a ele. Assim, o próprio discurso determina como será consumido por meio de seu universo semântico.

Esse projeto supõe que resistimos também à propensão de pensar a discursividade sob a forma de sucessão: não há, antes, uma instituição, depois uma massa documental, enunciadores, ritos genéticos, uma enunciação, uma difusão e, enfim,

11 A palavra texto é tomada por empréstimo de Maingueneau (2005) e designa todo tipo de produção semiótica

um consumo, mas uma mesma rede que rege semanticamente essas diversas instâncias (MAINGUENEAU, 2005, p. 142).

Ao supor, pois, a existência de um sistema de restrições semânticas, Maingueneau ressignifica a noção de discurso, que passa a ser tomada como prática discursiva e faz emergir uma sobreposição semântica entre elementos textuais e não textuais, ampliando os limites do fechamento discursivo.

O recorte da prática discursiva como objeto de análise implica considerá-la como estando relacionada a um funcionamento institucional, tomá-la como resultado da imbricação de evidências materiais e de evidências do conteúdo do discurso, análoga ao funcionamento da instituição.