DEL 3: ARBEIDSMARKEDET OG SKATT
5.4 A VGIFTER
Definimos a categoria “Valores do PRECE x Valores hegemônicos” para analisar os discursos que evidenciam essa disputa de valores. Por um lado, os valores do PRECE estão associados com o bem coletivo, com a busca por justiça social, com a valorização do ser, com
o respeito ao outro, à humildade, que podem ser associados aos valores Universalismo compromisso, Benevolência cuidado, Universalismo Tolerância, sendo esses valores motivacionais das práticas da cooperação e da solidariedade desenvolvidos dentro do programa, como também de outras ações nos espaços diversos onde os “Precistas fora do PRECE” estejam atuando.
Por outro lado, os valores hegemônicos estão associados à busca pela satisfação das necessidades individuais em detrimento das necessidades coletivas (GOUVEIA, 2006), à busca pelo “ter” (BAUMAN, 2001), pelo status social, a valorização do poder advindo dos recursos materiais, dentre outros. Percebe-se que os valores do PRECE disputam espaço com os valores hegemônicos da sociedade, a ponto dos primeiros se fragilizarem quando algumas pessoas que passaram pelo PRECE encontram-se distanciadas fisicamente desse espaço, quando estão em situações que não facilitam a emergência desses valores.
Podemos compreender esses valores hegemônicos a partir de Bauman (2001) que afirma que na modernidade líquida o individuo procura a autoafirmação quando passa a ter bens e produtos como forma de se sobressair diante da sociedade. Baudrillard (1970) também se refere à juventude capturada pela sociedade de consumo que encontra a satisfação e os ideias de felicidade vendidos nos objetos de consumo, muitas vezes supérfluos e fugazes. Soma-se a isso o fato de que as pessoas convivem com um apelo constante à autovalorização (LA TAILLE; HARKOT-DE-LA-TAILLE, 2006), ao individualismo e competitividade (JOHNSON; JOHNSON, 1994) e à concorrência dentro da lógica tradicional de disputa de espaços no mercado de trabalho (MANDELLI; SOARES; LISBOA, 2011).
Fernando (GF 2) afirma que o afastamento dos precistas se dá por uma questão de interesses individuais que motivam a ação dos sujeitos e não por estarem associados com valores maléficos, o que podemos compreender também como um processo de autonomia:
[...] Só deixando claro que isso (afastamento do PRECE) não é por maldade, justamente por causa disso, todos nós somos movidos por interesse, são os mais diversos possíveis. Não vou dizer que isso é errado, que tá se beneficiando, eu também tô me beneficiando, mas aí é uma coisa que é de cada um, tem seus objetivos, seus interesse, e aí ele mesmo vai refletir se está fazendo certo ou errado.
Acreditamos que o PRECE acaba sendo um espaço de formação de valores através da prática da cooperação e solidariedade no âmbito da formação acadêmica, limitando-se, muitas vezes, a funcionar como uma política afirmativa que promove transformação de ordem individual na vida dos participantes, sem que, muitas vezes, esta experiência promova uma transformação humana mais profunda, em termos de formação
cidadã e política no sentido de favorecer uma busca coletiva por emancipação humana. A respeito disso, Rodrigues (2007, p. 80) afirma:
Nos estudos preparatórios para o vestibular, paulatinamente as ações foram se concentrando, fundamentalmente, na apreensão dos conhecimentos exigidos nas provas dos vestibulares. Tal concentração pode implicar em sérias limitações à formação humana crítico-transformadora [...].
Apesar de analisarmos que Rodrigues se refere a um período do PRECE anterior à fase de politização, o que nos faz avaliar criticamente tal afirmação, entendemos que ela não é limitada de um todo. A interpretação, a partir da concepção de valores materialistas e pós- materialistas cunhado por Inglehart (2000), é de que a preocupação com os valores materialista, característicos de sociedades em que condições econômicas favoráveis ainda não foram alcançadas por grande parte da população podem se sobressair aos valores pós- materialistas, ligados a uma maior participação política e democrática, uma vez que muitos participantes do PRECE encontram-se em situações socioeconômicas desfavoráveis. Assim, a preocupação com a garantia de direitos básicos para si e para seus familiares muitas vezes é uma meta a ser alcançada pelos precistas, o que pode levar a uma despotencialização da sua atuação coletiva.
Alguns sujeitos veem nos espaços coletivos um caminho para conquistar seus interesses pessoais, sem que isso assuma uma necessidade de reciprocidade e construção de vínculos duradouros. Bauman (2001, p. 45) chega a afirmar que há um interesse mais individual do que coletivo no envolvimento com as causas comuns:
Qual é o sentido de interesses comuns senão permitir que cada indivíduo satisfaça seus próprios interesses? O que quer que os indivíduos façam quando se unem, e por mais benefícios que seu trabalho conjunto possa trazer, eles o perceberão como limitação à sua liberdade de buscar o que quer que lhe pareça adequado separadamente e não ajudarão.
Apesar de fazermos uma análise crítica dessa visão apresentada por Bauman por assumir um viés pessimista e limitado sobre as experiências de envolvimento nas causas coletivas, não podemos deixar de considerar que há uma parcela de indivíduos que, de fato, utilizam-se dos benefícios do coletivo de forma utilitarista, pois não querem abrir mão da liberdade que o trabalho coletivo lhe cerceará. Essa seria uma limitação do movimento PRECE? Será que o movimento não consegue acessar esses sujeitos e promover uma formação transformadora em suas vidas? Ou seria uma questão de uma escolha individual
consciente? Ou seria um reflexo de uma sociedade que coage os indivíduos a agirem a partir dos próprios interesses?
Não pretendemos encontrar uma resposta somente para tantas perguntas, mas refletir sobre o contexto formativo em que se dá a construção dos precistas a partir da análise dos seus valores e dos modos de atuação dentro do PRECE. Sá (2010, p. 83) observou que há uma cristalização da visão de alguns precistas nos processos formativos desenvolvidos dentro do PRECE:
A partir da observação de campo do contexto formativo das EPCs , pude perceber que a autoria das atividades de formação desenvolvidas pelos precistas é limitada em virtude do contexto sócio-ideológico de formação vivido no programa o que leva muitos dos jovens a terem uma visão normativa e cristalizada sobre as diretrizes de formação cooperativa desenvolvidas no programa.
Percebemos, então, que há uma apropriação por parte de alguns precistas das diretrizes pedagógicas e do discurso oficial do PRECE de forma pouco crítica, sem refletir sobre os sentidos que ele tem para a sua vida pessoal e sobre os impactos dessa experiência para a construção de projetos de futuro, que incluem as escolhas que deverão ser feitas no âmbito da vida privada (escolha profissional), como também da vida coletiva (relacionamento com amigos e familiares, forma de atuação na comunidade, posicionamento político, etc.). Traremos uma reflexão mais profunda sobre esse aspecto no próximo tópico.
7.4 CONTRADIÇÕES NA FORMAÇÃO PRECISTA
Apresentamos a categoria “Contradições” (FIGURA 11), que analisa algumas contradições na construção ética, política e social dos precistas, as quais foram agrupadas em cinco subcategorias com binômios que se opõem: Criticidade x Reprodução; Precista-humano x Precista-ideal; Solidariedade endogrupo x Dificuldade com Alteridade. Essa categoria nos auxilia a compreender que em todo processo formativo nos deparamos com contradições que, de alguma forma, limitam as metas educacionais pré-estabelecidas, ao mesmo tempo em que sinalizam pontos que devem ser revisados.