dos próprios interesses?
Não pretendemos encontrar uma resposta somente para tantas perguntas, mas refletir sobre o contexto formativo em que se dá a construção dos precistas a partir da análise dos seus valores e dos modos de atuação dentro do PRECE. Sá (2010, p. 83) observou que há uma cristalização da visão de alguns precistas nos processos formativos desenvolvidos dentro do PRECE:
A partir da observação de campo do contexto formativo das EPCs , pude perceber que a autoria das atividades de formação desenvolvidas pelos precistas é limitada em virtude do contexto sócio-ideológico de formação vivido no programa o que leva muitos dos jovens a terem uma visão normativa e cristalizada sobre as diretrizes de formação cooperativa desenvolvidas no programa.
Percebemos, então, que há uma apropriação por parte de alguns precistas das diretrizes pedagógicas e do discurso oficial do PRECE de forma pouco crítica, sem refletir sobre os sentidos que ele tem para a sua vida pessoal e sobre os impactos dessa experiência para a construção de projetos de futuro, que incluem as escolhas que deverão ser feitas no âmbito da vida privada (escolha profissional), como também da vida coletiva (relacionamento com amigos e familiares, forma de atuação na comunidade, posicionamento político, etc.). Traremos uma reflexão mais profunda sobre esse aspecto no próximo tópico.
7.4 CONTRADIÇÕES NA FORMAÇÃO PRECISTA
Apresentamos a categoria “Contradições” (FIGURA 11), que analisa algumas contradições na construção ética, política e social dos precistas, as quais foram agrupadas em cinco subcategorias com binômios que se opõem: Criticidade x Reprodução; Precista-humano x Precista-ideal; Solidariedade endogrupo x Dificuldade com Alteridade. Essa categoria nos auxilia a compreender que em todo processo formativo nos deparamos com contradições que, de alguma forma, limitam as metas educacionais pré-estabelecidas, ao mesmo tempo em que sinalizam pontos que devem ser revisados.
Figura 11 − Contradições na formação precista
Fonte: Elaborada pela autora
Em relação à subcategoria “Criticidade x Reprodução”, compreendemos que ela é uma consequência da contradição apresentada anteriormente. O PRECE visa a formação de sujeitos críticos, que ampliem sua consciência diante da realidade social em que vivem, sendo essa uma das grandes contribuições desse movimento, como podemos ver no discurso do Antônio (GF 1):
É uma coisa forte que eu acho que eu adquiri participando do PRECE fo i a parte de consciência, consciência da realidade mesmo, que eu me considerava uma pesso a muito pobre nisso, eu num tinha consciência dos problemas da cidade, da minha família, de nada assim. Era tudo daquele jeito mesmo e pronto. Isso é o primeiro passo pra quem quer agir, ou seja, foi uma coisa importante.
Percebemos que a construção de um pensamento crítico necessita de uma desnaturalização da realidade social e de uma abertura para a elaboração de novos sentidos para as vivências. Apesar da ênfase a essa criticidade, muitos precistas acabaram adotando o discurso oficial do PRECE sem uma devida apropriação, sem lhe dar um sentido pessoal, resultando em uma formação frágil em termos de valores como já vimos anteriormente, na medida em que a falta de reflexão e criticidade sobre o que se vive pode resultar em uma identificação circunstancial com os valores do PRECE enquanto eles não forem confrontados com valores hegemônicos. Para compreendermos como isso apareceu em nossa pesquisa, citaremos um discurso da Kalina (GF 1) que permeia essa questão:
Porque a gente não se constrói, assim, em várias perspectivas assim. A nossa construção, por exemplo, no PRECE, não existe construção política. E até o nosso discurso de precista, ele é um discurso passado pra gente de forma meio que... Que
pra você decorar, entendeu? “Ah, eu sou filha de agricultora, sou humilde, eu preciso de ajuda, eu...”. Num sei, parece que o nosso discurso é uma coisa que vem sendo passada há muito tempo e num é nem tirando assim o mérito dele, não é dizendo que ele é falso ou que ele não deva existir, mas a crítica é quanto à falta de crítica a esse discurso assim, a falta de diálogo sobre esse discurso.
Kalina aponta essa ausência de criticidade quando os precistas reproduzem um discurso não autoral, copiado para si sem discriminação. Esse mecanismo leva a uma modulação de um jeito de ser precista, pois o sujeito não se constrói criticamente uma vez que não se assume como autor da sua própria fala, sendo refém de uma política de identidade normativa (DANTAS; CIAMPA, 2014). As consequências dessa cristalização e rigidez podem se dar na construção da identidade desse sujeito que, ao adentrar outros espaços, vira um alvo fácil de discursos e práticas que contradizem suas vivências e os seus supostos valores.
Identificamos também a subcategoria “Precista- humano x Precista-Ideal” por observar que no imaginário popular havia a idealização do precista como um portador de atributos pessoais atípicos que o faziam um ser apartado dos demais jovens não precistas de sua comunidade, sendo considerado como um ser estranho, como podemos ver no discurso do Alberto (GF 1) “Na verdade, é porque ele [precista] é estranho, realmente, o precista ele era estranho pra sociedade, a sociedade lá naquele local, pelo menos lá”. Carla (GF 1), Jeremias (GF 2) e Michel (GF 2), respectivamente, fazem referência a essa percepção da imagem do precista-ideal:
[...] Eu ouvi muitas pessoas dizerem né “ah, ela é precista, ela prega a cooperação, ela prega a solidariedade, num sei o que, e ela vai agir desse jeito”, né? E aí aquilo vinha pra mim como uma coisa assim... Eu não posso errar porque eu sou precista? Eu não posso ter essas escolhas porque eu sou precista, né? Então, assim, às vezes a gente cria um ideal que ele não existe, sabe? Que ser precista não significa não competir de vez em quando ou deixar de ajudar alguém. Porque essa questão da empatia, essa questão da solidariedade, eu tenho percebido que ela vem muito através dos nossos sentidos, das nossas motivações. Nem todo momento eu vou conseguir ser uma pessoa legal, uma pessoa empática, uma pessoa solidária, né?. (CARLA)
[...] A gente esquece que quem fez o PRECE, quem faz o PRECE são pessoas, com defeitos, falhas, “n” características que não são legais, fico muito feliz pela sua pesquisa, de ver relatos assim que mostram que as pessoas levaram a sério, se dispuseram a mostrar seus sentimento. (JEREMIAS)
[...] Tem muita gente entrando no PRECE por status, por status mesmo, depois que entrava na faculdade ele dizia “ai, eu entrei no PRECE porque achava que precista era banbanban”. (MICHEL)
Essa representação social do precista é uma construção social compartilhada por moradores da comunidade, mas também atravessava o discurso oficial do PRECE. Vemos uma referência a essa exaltação da capacidade de superação do precista no Jornal Tribuna do Estudante (2002, n. 4, p. 3) “Apesar de tudo, podemos nos alegrar porque sempre haverá aqueles que de forma inexplicável ultrapassam as barreiras da lógica social injusta, superam as próprias limitações e rompem o ciclo vicioso da ignorância. Isso é maravilhoso e digno de todo júbilo”. No discurso oficial do PRECE se preza por uma valorização da humildade, mas ao mesmo tempo exalta as vitórias conquistadas pelos precistas de forma ufanista, provocando, muitas vezes, a reprodução dessa imagem do precista-ideal. Kalina (GF 1) reflete criticamente sobre essa idealização, apontando a necessidade de que os próprios precistas façam uma autocrítica nesse sentido para conseguirem amadurecer o próprio discurso:
[...] Porque que a gente não consegue reconhecer, às vezes, essas incoerências, essas falhas até e continua com discurso de um grupo super idealizado, de um grupo perfeito, de um grupo que deve ser imitado em todos os lugares, enfim. Parece que é até um tanto de arrogância, assim, e eu acredito muito que se a gente conseguisse parar, e isso é uma coisa muito difícil, assim, eu sei. Imagino. Mas se o grupo, assim, se o movimento conseguisse parar, assumir esses erros, essas incoerências e pensar em cima delas, meu Deus, eu acho que a gente assim, eu acho que a gente daria um pulo de anos-luz.
Em relação à subcategoria “Solidariedade endogrupo x Dificuldade com a alteridade”, evidenciamos a contradição no sentido de que os precistas conviviam solidariamente com seus pares dentro do seu grupo, mas ao mesmo tempo muitos deles tinham dificuldades de lidar com as diferenças que se apresentavam como alteridade, inclusive com precistas de outros grupos. O fato de que muitos precistas fizeram escolhas de vida que eram vistas, no início do movimento, com desconfiança por moradores da comunidade contribuiu para que, em alguns lugares, o PRECE formasse uma espécie de gueto, de grupo fechado que não mantinha relações com outros espaços coletivos. Outra questão era a rivalidade que acontecia dentro do movimento, onde algumas EPCs se viam como antagonistas umas das outras. A respeito disso, Paulo (GF 1) aponta essa contradição presente em algumas EPCs:
Porque o PRECE sempre pregou muito a questão da cooperação, solidariedade, né? E quando a gente fazia a reunião com todas as EPCs, eu notava que não existia isso num todo, como a Carla já tinha falado. Era só assim pelas suas partes, né, você gostava, você era solidário, mas com os seus, com sua EPC.
Ao invés de buscarem diálogo com as pessoas que tinham visões e posicionamentos diferentes ou buscar compreender as necessidades específicas dos demais participantes do movimento, a partir de uma noção de equidade, muitas vezes os participantes do PRECE acabavam disputando espaços e recursos com os demais ou se isolavam cada vez mais dos demais membros de suas comunidades, evitando conviver com a diferença. Essa abertura para a alteridade favorece o desenvolvimento dos sujeitos que ampliam suas visões de mundo e aprendem a tolerar e conviver em um mundo que se torna cada vez mais plural, além de favorecer a produção de novos sentidos sobre as relações e práticas sociais (VYGOTSKY, 1995).
7.5 ROTA PRECISTA: UMA ALTERNATIVA AOS CÍRCULOS PERVERSOS DE