2.1 Institutter som omfattes av det resultatbaserte finansieringssystemet
2.1.7 Veterinærinstituttet
Se a dominação da natureza encerra o princípio ordenador que constitui a base das relações entre os homens, o domínio da natureza externa, assim como da natureza interna humana acaba por perpetuar a cisão e corroborar o clima cultural próprio à barbárie. Apoiando-se na análise da relação de dominação, da razão esclarecedora sobre a natureza, articulando-a ao modo peculiar com que Freud entendeu a emergência da civilização – na qual a repressão sexual é condição necessária para a sua constituição – Marcuse (1999) constrói a noção de princípio de
18 “Mas o milagre da integração, o permanente ato da graça da autoridade em acolher o desamparado, forçado
a engolir sua renitência, tudo isso significa o fascismo”. (Horkheimer e Adorno, 1985,p.143)
19 Tais como o movimento dos panteras negras nos E.U.A., durante a década de 1960, do movimento punk, na
década de 1980 na Inglaterra, bem como o hip-hop nos guetos negros de Nova York na década de 1990.
20 Se em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores
gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade e química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes”. (Horkheimer e Adorno, 1985, p.115)
desempenho que permite desvendar os mecanismos de controle atuantes, sobre o indivíduo, no capitalismo tardio21.
Marcuse (1999) aponta que sob as condições do ordenamento social repressivo, “sob o domínio do princípio de desempenho, o corpo e a mente passam a ser instrumentos do trabalho alienado; só podem funcionar como tais instrumentos se renunciam à liberdade do sujeito-objeto libidinal que o organismo humano propriamente é e deseja” (p.59). A constituição da libido é levada a cabo segundo a lógica do trabalho alienado, “(...) seu desempenho erótico é posto em alinhamento com o seu desempenho social” (idem). Para o autor, “a própria organização da sexualidade reflete as características básicas do princípio de desempenho e sua organização social” (idem, p.60). É no seio familiar, primeiramente, que a organização da sexualidade infantil é constituída. Segundo Marcuse, tal organização acaba por refletir as características básicas do princípio de desempenho que utiliza a libido para promoção e perpetuação de seus valores. Dentre outros elementos, Marcuse destaca um aspecto peculiar dessa organização sexual mediada pelo ordenamento social repressor: a centralização. Segundo este autor, a organização da sexualidade é
especialmente eficaz na “unificação” dos vários objetos dos instintos parciais num único objeto libidinal do sexo oposto e no estabelecimento da supremacia genital. Em ambos os casos, o processo unificador é repressivo – quer dizer, os instintos parciais não evoluem livremente para um estágio “superior” de gratificação que preserve seus objetivos, mas são isolados e reduzidos a funções subalternas. Esse processo realiza a dessexualização socialmente necessária do corpo: a libido passa a concentrar-se numa parte do corpo, deixando o resto livre para ser usado como instrumento de trabalho. (idem, p.61)
A repressão das manifestações sexuais pré-genitais22 é determinante na edificação da primazia genital. A dessexualização, acarretada pela repressão das
21 Segundo Marcuse (1999): “o princípio de desempenho, que é o de uma sociedade aquisitiva e antagônica
no processo de constante expansão, pressupõe um longo desenvolvimento durante o qual a dominação foi crescentemente racionalizada: o controle sobre o trabalho social reproduz agora a sociedade numa escala ampliada e sob condições progressivas. Durante uma considerável parte dessa evolução, os interesses de dominação e os interesses do todo coincidem: a utilização lucrativa do sistema produtivo satisfaz às necessidades e às faculdades dos indivíduos. Para a esmagadora maioria da população, a extensão e o modo de satisfação são determinados pelo próprio trabalho; mas é um trabalho para uma engrenagem que ela não controla, que funciona como um poder independente a que os indivíduos têm que se submeter se querem viver” (p.58)
manifestações sexuais, que não tem como finalidade a reprodução, se faz necessária para que o corpo possa ser mobilizado como instrumento de trabalho23. O indivíduo não sente prazer com o corpo, a não ser aquele oriundo do primado genital. O corpo é reduzido a mero arcabouço, corpo morto, facilmente mobilizado para as finalidades impostas pelo princípio de rendimento. A estrutura familiar monogâmica acaba por solidificar as bases de uma educação sexual que prepara os indivíduos para as expectativas sociais, calcadas sob a repressão sexual. O poder paternal transmite, para a geração futura, as premissas para a adaptação ao mundo do trabalho, operando a repressão sexual. Segundo Marcuse (1999),
(...) o pai como pater-familias, ainda desempenha a arregimentação básica dos
instintos que prepara o filho para a mais-repressão por parte da sociedade, durante a sua vida adulta. (...) Historicamente, a redução de Eros à sexualidade procriativa monogâmica (que completa a sujeição do princípio do prazer ao princípio de realidade) só é consumada quando o indivíduo se converteu num sujeito-objeto de trabalho no mecanismo da sociedade; ao passo que, ontogeneticamente, a supressão primária da sexualidade infantil continua sendo uma precondição para essa consumação. (p.91-92)
A repressão sexual, na primeira infância, é fundamental para que na vida adulta o indivíduo possa suportar a repressão econômico-social e aceitar passivamente a mobilização da libido, a fim de poder desempenhar satisfatoriamente suas funções, na organização do mundo do trabalho. Para Marcuse (1999), “de acordo com o princípio de desempenho, o desvio de libido para atividades culturais úteis ocorre depois do período da infância” (p.181). A preparação para o mundo do trabalho, as ações que visam utilizar, posteriormente, depois do período da infância, a libido, têm, entre outros elementos, na repressão dos prazeres, oriundos das zonas erógenas pré-genitais, uma de suas bases.
22 Freud (1981a) analisa duas organizações sexuais pré-genitais presentes no desenvolvimento infantil: a oral,
ou canibal e a sádico-anal ( Cf. Freud,1981a p. 1210-1211).
23 Segundo Marcuse (1999): “O seu desenvolvimento irreprimido erotizaria o organismo em tal medida que
neutralizaria a dessexualização do organismo exigida para a sua utilização social como instrumento de trabalho”. (p.54)
Na organização da sexualidade que Freud (1981a) considerou como normal, a fase do auto-erotismo compreende aquela em que os indivíduos encontram “su objeto en el próprio corpo” (p.1209). As zonas pré-genitais, nessa fase, não são subordinadas ao primado da genitalidade, sendo, cada uma delas, independente da outra; tendiendo independientemente cada uno hacia la obtención de placer” (idem). A sujeição da sexualidade ao primado genital, à repressão das manifestações sexuais pré-genitais, à racionalização da organização sexual, à proibição do prazer, já na primeira infância, acabam por corroborar a formação das condições necessárias para a perpetuação do ordenamento social existente. Além de preparar o indivíduo, desde cedo, a aceitar uma espécie de destino imutável, a primazia da genitalidade24, a proibição do prazer, oriundo das experiências sexuais, tidas como perversões, durante a primeira infância, operam a emergência de um corpo que não conhece o prazer, mas a interdição dele. Para Crochík (2000):
A subordinação dos impulsos pré-genitais reduz a possibilidade do prazer se manifestar através de múltiplas formas; essa restrição limita o próprio prazer genital. (p.32)
As primeiras experiências com o prazer oriundo da estimulação das zonas pré-genitais, durante a infância, são determinantes na organização da sexualidade, durante o período da puberdade e na vida adulta25. Segundo Freud (1981a), na puberdade opera outra forma de organização da sexualidade:
La fórmula para la nueva función de las zonas erógenas sería la seguiente: son utilizadas para hacer posible la aparición de mayor placer de satisfacción por médio del placer preliminar que producen y que se iguala al que producían en la vida infantil. (p.1218)
24 Segundo Freud (1981a): “(...) la sínteses de los instintos parciales y su subordinación a la primacía de los
genitales no se verifica en la niñez, o sólo se verifica muy imperfectamente. La formación de esta primacia en aras de reprodución, es, por tanto, la última fase de la organización sexual”. (p.1210)
25 “Las manifestaciones infantiles de la sexualidad no determinan tan solo las desviaciones, sino también la
Para Freud (1981a), se a repressão sexual na infância afeta a vida sexual adulta e constitui o fator preponderante na formação de sintomas,26 próprios da histeria, o excesso de excitação das zonas pré-genitais também acarretaria problemas na vida sexual ulterior. Não se trata, portanto, de advogar a excitação sexual na infância (cf. Freud, 1981a, p.1218), mas conferir especial atenção para que a curiosidade da criança com o corpo próprio, bem como com o corpo do outro, não seja reprimida. A necessidade de superação da moralidade, subjacente às práticas educacionais tradicionais, sugere a liberação da libido corporal e, sem pretender subjugá-la aos interesses do capital, a razão não deve infligir interditos que oprimam e aprisionam a sexualidade. A ressexualizaçã coorporal, a ênfase na experiência coletiva, a reconfiguração dos papéis tradicionais das autoridades familiares, implicam o exercício da razão reinvestida de sensibilidade que, em última análise, deve se voltar para a felicidade humana. É importante assinalar, porém, que, para Marcuse,(1999, p.60) nas sociedades repressivas “a organização da sexualidade reflete as características básicas do princípio de desempenho”. Portanto, as condições objetivas subjacentes às suas expressões irracionais devem ser alteradas para que possa se dar a ressexualização corporal, sendo, a libido, reinvestida de sensibilidade e capacidade de expressar a liberdade. Desta maneira, a eliminação do trabalho alienado é fundamental para a emergência de uma civilização não repressiva. Segundo Marcuse (1999):
Como a duração do dia de trabalho é, por si mesma, um dos principais fatores repressivos impostos ao princípio de prazer pelo princípio de realidade, a redução do dia de trabalho a um ponto em que a mera porção de tempo de trabalho já não paralise o desenvolvimento humano é o primeiro pré-requisito da liberdade. (p.141)
26 Sobre os sintomas histéricos, Freud (1981a) afirma: “(...) son la sustitución o transcripción de una serie de
procesos, tendencias y deseos anímicos afectivos, a los que un particular proceso psíquico (la represión ha impedido llegar a su normal exutorio por médio de la actividad anímica consciente. Estos complejos psíquicos retenidos en estado inconsciente tienden a una exteriorización correspondiente a su valor afectivo, a una descarga, y la encuentran en la histeria por el proceso de la conversión en fenômenos somáticos; esto es, en sintomas histéricos”. (p.1189)
Não bastaria, portanto, investir em propostas educacionais, quer sejam na família ou nas instituições educativas27, que promulgassem práticas não repressivas como se estas, por si só, fossem suficientes para alterar a organização social vigente28. A transformação social considerar a liberdade só seria possível por meio da extinção da dominação e do trabalho alienado. Ainda que Marcuse (1999) enfatize o potencial da consciência crítica e da ação política, como fundamentais para a transformação social, a plena vigência de outra cultura, na qual a sexualidade seja transformada em Eros, somente se daria numa organização social em que a carência fosse extinta e os indivíduos pudessem viver de acordo com a satisfação de suas necessidades29. Quanto aos limites das propostas educacionais, sob os imperativos vigentes da organização social repressiva, Pagni (2003) analisa que para Marcuse:
Toda a tentativa de superar tal situação, por intermédio de uma outra concepção de cultura ou de educação, dentro da lógica da ordem social existente, (...) resultou na reiteração desses mesmos princípios e ignorou as possibilidades de realização da felicidade objetiva. Para ele, essas tentativas esbarraram, de um lado, no clichê da realização do paraíso terreno, pela valorização da felicidade subjetiva e da fruição do sentimento do prazer, ignorando que a sua possível efetivação estaria vinculada à transformação radical da sociedade. (p.94)
Marcuse, mesmo atento aos limites impostos pela organização repressora e ante à possibilidade do desenvolvimento da consciência crítica dos indivíduos, para alterá-la, não nutriu ilusões acerca das possibilidades das reformas educacionais poderem instaurar a cultura que poderia libertar os indivíduos daquilo que os oprimem. Segundo Pagni (2003), Marcuse tinha claro que a
27 Com relação às propostas de educaconais que se preocuparam com a sexualidade infantil, cf. a proposta
educacional desenvolvida no Jardim de Infância Experimental idealizado por Vera Schimidt e W. Reich. (Schmidt & Reich, 1975).
28 Segundo Pagni (2003): “(...) na concepção de Marcuse (...), a liberação dos instintos sediados no corpo e o
sentimento de prazer experimentado pelo sujeito só seriam elementos a serem considerados, nesse projeto filosófico e político, se fossem submetidos à crítica radical da configuração que assumiram na sociedade burguesa e particularmente, na sociedade industrial”. (p.85)
29 Segundo Adorno e al. (1965,p.31) Existem diferentes necessidades: “las emocionales primitivas, la
necesidad de evitar el castigo y conservar la buena voluntad del grupo social, la de mantener una armonia e integración dentro de si mismo. Puesto que admitimos que las opiniones, las actitudes y los valores dependen de las necesidades humanas, y que la personalidad es esencialmente una organización de necesidades, podemos considerar la personalidad como un factor determinante de las preferencias ideológicas”.
“atividade consciente e criativa do sujeito poderia começar a ser desenvolvida, ainda que de modo limitado, na organização social e diante da opressão existente (...)” (p.99).
É por meio da reflexão sobre a repressão dos instintos e os destinos da sensibilidade, sob o jugo da racionalidade desenvolvida na organização repressiva, que Marcuse descortina possibilidades de ação política, tendo em vista a alteração da ordem vigente. Retomando Schiller, Marcuse valoriza a dimensão estética como a possibilidade de reconciliar a sensibilidade e a razão como forma de alterar os desígnios que pairam sobre os indivíduos, submetidos aos imperativos definidos pelo princípio de desempenho e pela mais-repressão. Segundo Marcuse (1999, p.161): “o esforço filosófico de mediação, na dimensão estética, entre sensualidade e razão manifesta-se, pois, como uma tentativa para reconciliar as duas esferas da existência humana que foram separadas à força e despedaçadas por um princípio de realidade repressivo”. A dimensão estética, operando por meio do impulso lúdico “aboliria a compulsão e colocaria o homem, moral e fisicamente, em liberdade” (idem, p.163). Por meio dele: “a sensibilidade poder-se-ia tornar racional e a racionalidade sensível, assim como as faculdades superiores da alma passariam a considerar as suas faculdades inferiores e o corpo como elementos constitutivos do pensamento e da ação” (Pagni, 2003, p.100). O impulso lúdico fundaria a possibilidade de reinvestir o corpo das finalidades negadas pelo princípio do rendimento e pela mais-repressão. Tal operação poderia refletir numa outra ordem social que primaria pela valorização da vida, pelo reinvestimento da potencialidade liberadora de Eros. A ressexualização do corpo, como analisado anteriormente, por si só não resultaria em transformações sociais efetivas, ao contrário, sob a égide do princípio de desempenho e da mais-repressão, recairiam como ações que corroborariam a manutenção da organização repressiva, pois, para Marcuse (1999):
A libido só pode tomar a estrada da auto-sublimação como um fenômeno social: como uma força irreprimida, só pode promover a formação de cultura sob condições que relacionam mutuamente os indivíduos associados na cultivação do meio para fazerem frente a suas crescentes necessidades e empregarem suas crescentes faculdades. A reativação da sexualidade polimórfica e narcisista deixa de ser uma
ameaça à cultura e pode levar, ela própria à criação cultural, se o organismo existir não como um instrumento de trabalho alienado, mas como um sujeito de auto- realização – por outras palavras, se o trabalho socialmente útil for, ao mesmo tempo, a transparente satisfação de uma necessidade individual. Na sociedade primitiva, essa organização do trabalho deve ser imediata e “natural”; na civilização madura só pode ser encarada como o resultado de libertação. Sob tais condições, o impulso para “obter prazer das zonas do corpo” poderá ampliar-se para buscar seu objetivo em duradouras relações libidinais, cada vez mais numerosas, visto que a expansão aumenta e intensifica a gratificação do instinto. Além disso, nada existe na natureza de Eros que justifique a noção de que a “extensão” do impulso esteja confinada à esfera corporal. (p.183)
Na civilização madura, a libido não seria mobilizada para a exploração do trabalho. A ressexualização do corpo, a reativação da sexualidade polimórfica, libertaria Eros que aturaria na ampliação dos laços libidinais e que, por sua vez, se tornariam mais duradouros e gratificantes. A moralidade subjacente à prática educacional sugere a liberação da libido corporal, não para subjugá-la aos interesses do capital, pois a razão não inflige interditos que oprimem e aprisionam a sexualidade. A ressexualização corporal, a ênfase na experiência coletiva, a reconfiguração dos papéis tradicionais das autoridades familiares e (por que não?) também das escolares, implicam o exercício da razão reinvestida de sensibilidade que, em última análise, deve voltar-se para a felicidade humana.