Introdução
A primeira dificuldade com que qualquer estudioso se defronta ao debruçar-se sobre a leitura e análise da obra De voluptate (Diálogo sobre o Prazer) de Lorenzo Valla é o problema em torno da reconstrução das quatro redações da obra pelo autor. Segundo especialistas, Valla teria revisado e modificado sua obra quatro vezes ao longo da vida.
A primeira delas, datável de 1431, foi publicada em Pavia, onde Valla lecionara retórica1. Após ter atraído a inimizade de alguns juristas de Pavia, Valla muda-se para Milão, onde, em 1433, a obra ganha nova versão, com modificações na “estrutura, personagens e título”2: De vero falsoque bono. Em 1435, Valla muda-se para a corte de
Nápoles, onde residirá por treze anos, a serviço do rei Afonso V de Aragão. Entre 1444 e 14493, re-escreve o obra, agora com o título De vero bono. A quarta (e última) versão de que se tem notícia foi escrita aproximadamente na última década de sua vida4, entre os anos de 1447 e 1457, retornando, desta vez, ao título da segunda versão: De vero falsoque bono.
Essas versões estão dividas em quatro famílias documentais devidamente distinguidas entre manuscritos e impressos. Cada família corresponde a um arquétipo da versão do texto de Valla. Os códices reúnem seis manuscritos monásticos e seis edições impressas: de Lovaina (1483), Paris (1512), Colonia (1509) e três edições da Basiléia (de 1519, 1540 e 1543). A Opera Omnia de Lorenzo Valla de 1706, re-editada por Eugênio Garin em 1962, foi elaborada tendo como base apenas as edições da Basiléia de 1540 e 43. No entanto, os editores não incluíram nesta coletânea nenhuma das versões do texto De voluptate.
1 Cf. A. CORBELLINI, Note di vita cittadina e universitria pavese nel Quatttocento, in Bollettino della
società pavese di storia patria, XXX, 1930, p.35.
2 Cf. M. DE PANIZZA LORCH, Le tre redazione del De voluptate del Valla, in Giornale Storico della
Letteratura italiana, vol. 121, 1943, p. 1-22.
3 Para Jacques Chomarat é sem dúvida entre 1438 e 1439 que Valla escreve esta versão (L. VALLA,
Dialogue sur le Libre - Arbitre (De libero Arbitrio), édition critique par Jacques Chomarat, Paris,
Librairie Philosophique, Textes et documents de la Renaissance, 1983, p. 1) Porém, como o estudioso francês não nos apresenta suas premissas, manteremos a periodização proposta pela editora oficial da obra, Maristella de Panizza Lorch (VALLA, L., De vero falsoque bono, critical edition by M. de P. LORCH, Adriatica, Bari, 1970, p. XLVIII).
4 Cf. LORCH, M. de P., in VALLA, L., De Voluptate (On Pleasure), trad. A. Kent Hieatt e Maristella Lorch, Abaris Book, USA, 1977, p. 350 (ver também Part I, O humanista Lorenzo..., nota 87, p. 22).
36 Essas apreciações foram propostas pela filóloga ítalo-americana Maristella de Panizza Lorch na elaboração da edição crítica da citada obra de Valla, publicada em 1970 e posteriormente traduzida para o inglês pela autora em 1977. A presente tradução em português baseou-se, primordialmente, na versão inglesa produzida pela De Panizza. As demais traduções conhecidas foram utilizadas apenas para fins de cotejamento, quando pertinente. Vide abaixo elenco das traduções contemporâneas em ordem cronológica de publicação:
1) Italiana: VALLA, L. Il Piacere, a cura di GRILLO, V. Napoli, Pironti, 1948. 2) Italiana: RADETTI, G. In Classici della Filosofia (VI), Firenze, 1953.
3) Inglesa: VALLA, L. De Voluptate (On Pleasure), trad. A. Kent Hieatt e Maristella de Panizza Lorch, Abaris Book, USA, 1977.
4) Russa: L. VALLA, Ob istinnom i lozhnom blage; O svobode voli, a cura de A. K. Gorfunkel,, N.V. Reviakina, V. A. Andrushko, N.V. Reviakinoi, I. K. Cherniaka, Moskva, Nauka, 1989.
5) Alemã: L. VALLA, Von der Lust oder Von wahren Guten: Lateinisch-deutsche Ausgabe (De voluptate sive De vero bono), hrsg. P. M. Schenkel, E. Keβler, München, W. Fink Verlag, 2004; L. VALLA, Vom wahren und falschen Guten, hrsg. M. Erler, O. und E. Schönberger, Verlag Königshausen und Neumann, Würzburg, 2004.
6) Francesa: L. VALLA, Sur le plaisir, trad. Michel Onfray, La Bibliothèque Hèdoniste, Encre Marine, 2004.
A escolha pela versão inglesa da De Panizza como parâmetro desta tradução se deve ao fato de esta ter sido a primeira versão elaborada a partir de uma edição crítica moderna – e, portanto, em língua latina – que reunia em um rico aparato crítico e apêndice as quatro redações da obra compostas por Valla de que se tinha notícia. As duas traduções anteriores em língua italiana – como o próprio Garin afirmava – são parciais, pois se basearam em apenas um único testemunho dentre os seis conhecidos na época5. Além disso, ambas as edições não esclarecem em quais testemunhos se pautaram para a tradução. Apesar disso, neste trabalho foi utilizada apenas a segunda versão – de Giorgio Radetti – para fins de cotejamento, por esta se apresentar em
37 melhores condições que a anterior, a cura de V. Grillo. Quanto às demais, a apreciação destas não foi considerada necessária, uma vez que se pautaram também na edição crítica da De Panizza e os entraves lingüístico e no acesso ao material limitaram sua consulta.
A De Panizza foi quem primeiro reuniu aquelas quatro famílias-documentais sintetizando-as em uma única edição composta por um corpo de apêndices e notas que esclarecem sobre as modificações verificadas entre as diferentes versões. Para elaboração deste minucioso trabalho, a professora de filologia clássica6 tomou a última versão da obra (com o título De vero falsoque bono) como base comparativa entre as demais. A escolha se justifica por esta versão ser a que provavelmente mais agradou ao crivo do autor, pois foi a última que ele nos legou. A julgar pela extensão e complexidade da obra de Valla, consideramos que a De Panizza fez um belo trabalho.
No entanto, apesar das inúmeras publicações e traduções da dita obra de Valla, não existe até o momento nenhuma edição crítica que reúna suficiente consenso entre a comunidade de crítica textual acerca da reconstrução de seu processo redacional. De fato, como afirmou Roberto Norbedo7 em recente discussão sobre a edição do De voluptate, as diversas composições da obra tornam bastante complexo o trabalho daqueles que se aventuraram a reconstruir a sua progressão através dos diferentes códices encontrados8. Por isso, um breve relato do percurso e posição atual da referida edição crítica no cenário filológico se faz necessário.
6 Autalmente, Maristella De Panizza Lorch é professora e diretora emérita da Italian Academy for
Advanced Studies in America da Universidade de Columbia, N.Y., EUA.
7
Roberto Norbedo atualmente é pesquisador de Literatura Italiana na Universidade de Udine, Italia. 8 NORBEDO, R., Per una nuova edizione del De vero bono, (Arezzo, Centro di Studi sul Classicismo, 2- 3 de dezembo, 2005), in Pubblicare il Valla, a c. de M. REGOLIOSI, Firenze, Polistampa, 2008.
38
Contextualização filológica: um breve percurso
O primeiro debate acerca do processo redacional do diálogo valliano De voluptate se deu em 1891 com a publicação da Cronologia del Valla de Regiano Sabbadini9 e a Vita di Lorenzo Valla de Girolamo Mancini10, aos quais se seguiram uma resenha de Sabbadini e a réplica de Mancini. Concluía Sabbadini serem em número de três as redações elaboradas pelo autor: duas compostas em Pavia e uma terceira em Nápoles, tida como perdida e cujas notícias recuperava por meio de algumas cartas de Lorenzo Valla. A primeira redação teria sido composta em 1431, com o título De voluptate e ambientada em Roma, ao passo que a segunda, composta em 1433, teria tido o título alterado para De vero bono e o cenário transportado para Pavia11.
Já Mancini, na sua réplica à resenha de Sabbadini, mais uma vez discordava de seu severo crítico e acrescentava ligeiras alterações quanto ao lugar e datações das redações. Para Mancini, a primeira redação teria sido composta em 1432 (e não em 1431, como afirmava Sabbadini); a segunda teria sido publicada provavelmente em Milão; e a terceira, e definitiva, em Nápoles. Porém, não se esquivava do cuidado de acrescentar que todos esses dados “derivavam de confrontos de frases de Valla e não de notícias acertadas e positivas”, e que portanto, permaneciam “no campo da conjetura”, e como tais os declarava.
A discordância entre os dois filólogos-historiadores advinha sobretudo de divergências quanto à interpretação de frases de Valla – contidas em cartas e em suas obras – e sua correspondente atribuição dos códices vallianos às redações. Exemplo notável dessa divergência é a controversa declaração de Valla na sua obra Recriminationes in Facium, onde ele afirma que seu livro De voluptate é uma versão reduzida do De vero bono12. Com dificuldades para distinguir as variações apontadas entre os testemunhos, Sabbadini dava como perdida a redação mais breve, ao passo que Mancini, a longa. Para aquele, a primeira redação correspondia à edição estampada de
9 SABBADINI, R., Studi sul Panormita e sul Valla, Firenze, 1891. 10 MANCINI, G., Vita di Lorenzo Valla, Sansoni, Firenze, 1891.
11 SABBADINI, R., rescensione al Vita di Lorenzo Valla, in Giornale Storico della Letteratura Italiana, 19, 1892, pp. 404 e 408-409.
12 DE PANIZZA LORCH, M., Le tre versioni del “De vero bono” del Valla, in Rinascimento, 6, 1955, p.350.
39 Basiléia e a segunda ao incunábulo de Lovanio e manuscrito ottoboniano13; para este, as estampas de Lovanio e Colonia correspondiam à segunda redação e a de Basiléia, à terceira e definitiva – o testemunho da primeira, como dito anteriormente, ele considerava perdido.
A questão, alvo de acirrado debate, restou irresoluta. Somente mais tarde, em 1943, a controvérsia sobre as redações seria retomada por De Panizza, dada a descoberta de novos códices. Além daqueles já consultados por Sabbadini e Mancini, a filóloga introduzia o ms. de Münster e a edição de Badium Ascensium de 1512. Em 1955, ela anunciava a descoberta de três novos códices, também utilizados para sua edição crítica:
1) A – ms. D 8 Sup. da Biblioteca Ambrosiana14. 2) P – ms. Lat. 6471 da Biblioteca Nacional de Paris.
3) L – ms. Pallastrelli 116 da Biblioteca Comunale Landiana de Piacenza. Com a introdução desses novos elementos, a filóloga encabeçou nova proposta de datação e classificação dos testemunhos e, consequentemente, de todo o processo redacional da obra por Valla. Cerca de três décadas depois15, em 1970, como resultado desse trabalho de investigação filológica, Maristella publicava a primeira edição crítica contemporânea do De Voluptate16.
Abaixo, quadro geral dos códices utilizados na edição crítica pela De Panizza, abreviaturas (letras minsc. = edições; letras Maisc. = manuscritos) e atribuição das redações (em alfabeto grego):
α a – ed. De voluptate ac vero bono, Paris, apud Badium Ascendium, 1512. β A – Milão, Biblioteca Ambrosiana, ms. D 8 Sup., ff. 28r-155v.
L – Piacenza, Biblioteca Comunale Landiana, ms. Pallastrelli 116, ff. 3v-99v.
13 SABBADINI, R., ibidem, p. 409.
14 Descoberto pelo Prof. P. O. Kristeller em 1950.
15 O longo período despendido para execução e conclusão desse trabalho se deve, em parte, não somente à complexidade de reconstrução da obra a partir dos diferentes testemunhos, mas também à inacessibilidade de algumas dessas fontes por ocasião da guerra na qual a Europa estava envolvida. Por este motivo, a filóloga teve que se utilizar das anotações daqueles dois debatedores em substituição aos manuscritos para consecução de sua pesquisa, ao menos no início. Cf. M. DE PANIZZA LORCH, Le tre redazioni del “De voluptate” del Valla, in Giornale Storico della Letteratura Italiana, 121, 1943, p. 2.
40 M – Münster, Universitätsbibliothek, ms. 716, ff. 9r-12v.
P – Paris, Biblioteca Nacional, ms. lat 6471, ff. 1r-67r.
l – ed. Pangeticon de vero bono, Lovaina, Rodolphus Loeffs, 1483.
δ V – Cidade do Vaticano, Biblioteca Vaticana, ms. Ottob. Lat. 2075, ff. 141v- 237v.
Contaminações17:
G – Gotha, Landesbibliothek, ms. B 61, ff. 1-4.
b – 1) ed. De volupatate ac vero bono, Basiléia, apud A. Cratandrum, 1519. 2 e 3) ed. Opera Omnia, Basiléia, apud H. Petrum, 1540 e 1543.
c – ed. De vero falsoque bono, Colonia, in domo Quentell, 1509.
Apesar de seus esforços, nem por isso sua edição se viu livre de contestações – o que se pode esperar que aconteça com trabalhos filológicos dessa magnitude. A polêmica fora suscitada por Cesare Federico Goffis em dois artigos sucessivos publicados na revista Studi e problemi di critica testuale18. A dura crítica de Goffis recaía fundamentalmente sobre a classificação dos testemunhos proposta pela filóloga, especificamente no que dizia respeito às estampas de Colonia (1509) e Basiléia (1519). Segundo o especialista, as variantes presentes nesses códices eram, em relação a todos os outros textos, tão numerosas, que não todas podiam ser de natureza estética, mas que muitas eram significativas variantes de autor19 - e não editor, como queria a De Panizza. A análise de Goffis vinha na esteira da crítica anterior de Giorgio Radetti20, publicada
17 Cf. De Panizza, o ms. G é um compêndio das primeiras páginas do diálogo ; a edição c é uma contaminação entre e ; e b é uma contaminação de l, c e a, sendo esta última preponderante. Id., op.
cit., p. 10 e Id., L. VALLA, De Voluptate (On Pleasure), trad. A. Kent Hieatt e Maristella de Panizza Lorch, Abaris Book, USA, 1977, p. 350.
18
GOFFIS, C. F., rescensione al L. VALLA, De vero falsoque bono, critical edition by M. De Panizza Lorch, in: Studi e problemi di critica testuale, 4, 1972, pp. 253-56; Id., Dal “De voluptate” al “De vero falsoque bono” di Lorenzo Valla, in Studi e problemi di critica testuale, 7, 1973, pp. 24-57.
19 Id., Dal “De volupatate”al.., p. 33.
20 Queria G. Radetti que o testemnunho b fosse posto entre as redações α e β (L. VALLA, Scriti
filosofici..., p. XIX-XX). Posteriormente, M. CORTESI contestara o juízo do estudioso, produzido sem
provas filológicas suficientes (CORTESI, M., Un nuovo testimone del “De vero bono” di Lorenzo Valla,
in Lorenzo Valla e l‟Umanesimo italiano, Atti del Convegno Internazionale di Studi Umanistici (Parma, 18-19 ottobre 1984), a c. di O. BESOMI e M. REGOLIOSI, Padova, Antenore, p. 113.
41 na introdução do seu Scritti filosofici e religiosi21, de 1954, e portanto, muito antes da publicação da edição crítica da De Panizza, em 1970.
Apesar das inúmeras correções apontadas por Goffis, tais como omissões e confusões quanto ao uso de variantes em latim22, nem por isso a filóloga abdicou de seu projeto e, em 1977, republicou a edição, agora acompanhada de uma tradução em língua inglesa elaborada com o auxílio de K. Hiett23. A única referência que ela dirige às críticas de Goffis só aparece em 1985, em uma nota de fim de página à introdução de sua extensa análise sobre o epicurismo-cristão de Lorenzo Valla, intitulada In Defense of Life24. Ali, ela declara não terem nada a acrescentar as críticas e sugestões de Goffis à discussão25, refutando-as completamente e mantendo firme sua posição.
Contudo, no ano seguinte, a descoberta de um novo códice – contributo da filóloga Mariarosa Cortesi26 – traria novo fôlego à discussão. Cortesi propunha uma significativa atualização a colattio codicum27 da De Panizza, com a inserção do novo manuscrito da biblioteca Giustiniana (Gr) na tradição de β, correspondente à segunda redação. Como resultado de sua análise filológica, ela fornecia um novo estema a ser acrescentado àquele inicialmente composto pela De Panizza.
21 G.
Radetti contestava que a publicação do De Voluptate tivesse se dado a Pavia, uma vez que o Panormita já fazia referência a mesma quando convidava o autor para lecionar na Universidade de Pavia:
“...eum librum quem „de voluptate‟ nuper edidisti videre ardeo cupiditate incredibili...”(R. SABBADINI, Cronologia documentata della vita del Valla, Firenze, 1891, p. 60). Cf. G. RADETTI, Introduzione, in:
L. VALLA, Scriti filosofici e religiosi, a c. de G. RADETTI, Firenze, Sansoni, 1953, nota 1, p. XVIII. 22 Por exemplo, na p. 150 a autora lê “an vigilent ne quero nec curo” no lugar de “anne vigilent nec quero
nec curo” (ibidem, nota 24, p. 36); na p. 145, a editora omite uma falta em β (ibidem, p. 40) e no final do proêmio de b, ela indica apenas a variante habuerunt α (ibidem, p. 41).
23 L. VALLA, De Voluptate (On Pleasure), trad. A. Kent Hieatt e Maristella de Panizza Lorch, Abaris Book, USA, 1977.
24 DE PANIZZA LORCH, M. A defense of Life: Lorenzo Valla‟s Theory of Pleasure, W. F. Verlag, München, 1985.
25Id., op. cit., nota 5, p. 292: “The objection recently raised (see Goffis) (…) does not seem to introduce
decisive elements into the picture”.
26 Mariarosa Cortesi atualmente é professora de Filologia Medieval e Humanística na Universidade de Pavia.
27 Ou colação: verificação filológica através do confronto de diversos testemunhos a fim de revelar as semelhanças entre eles e entre eles e o original.
42 Estema 1 (De Panizza)
Estema 2 (Cortesi)
Parte fundamental de sua pesquisa, Cortesi viu-se obrigada a rever aquelas dúvidas levantadas anteriormente por Radetti e Goffis acerca da posição do códice basileense (b) na transmissão da tradição de β (2ª redação). Posicionando-se ao lado da editora Panizza, ela refutava as conclusões dos críticos, afirmando serem pouco convincentes e inválidas do ponto de vista filológico28 – ainda que reiterasse algumas das críticas de Goffis sobre certos erros e omissões cometidos pela editora no aparato crítico, além de constatar distorcido embasamento teórico na leitura e atribuição de variantes a um e outro códice29. Assim, dava por correta a atribuição proposta primeiramente pela editora ao conferir à estampa de Basiléia variantes de editor, e não de autor, como deduzia, em outro momento, Cesare Goffis.
Na conclusão, a filóloga apelava para a necessidade de se rever a colação das redações como um todo, a fim de melhor situar o fragmento de Münster (M) e instituir uma nova edição que permitisse “conhecer a tessitura valliana na sua evolução”30. Tal apelo havia sido efetuado anteriormente pelo próprio Goffis naqueles dois artigos de „70. O filólogo repreendia De Panizza por fundar sua edição a partir de δ – revisão de –, correspondente à quarta redação e representado por apenas um único manuscrito – repleto de erros –, recorrendo ao ms. P da família para sanar eventuais faltas. Efeito disso, acusava a editora de produzir um texto visto como “superamento definitivo dos momentos precedentes, dados como insignificantes”, corroborando, assim, a intenção de “apresentar a obra na sua transformação estilística e ideológica, historicamente motivada”31.
28 CORTESI, M., Un nuovo testimone...op. cit., p. 113. 29 Id., ibidem, p.119.
30 Id., ibidem, p.126: “Nella prospettiva di questa, opportuna per conoscere lo scritto valliano nella sua
evoluzione...” (TA)
43 À parte os apelos dos filólogos, seguiram-se novas traduções da obra para diferentes idiomas – em 1989, uma edição russa, e em 2004, duas edições alemãs e uma francesa –, todas tendo como base a edição crítica da De Panizza (única existente até o momento).
Finalmente, depois de um silêncio de décadas – sintoma de mais um período de recensão ou retirada após difícil contenda? –, em 2005 a discussão é reacendida no interior da literatura acadêmica. Foi esse o tema da conferência de Roberto Norbedo apresentada no congresso Publicare il Valla, promovido pelo Centro di Studi sul Classicismo e publicada em 200832. Com o título Per una nuova edizione del De vero bono di Valla, R. Norbedo anunciava de modo claro e direto sob quais termos seria retomada a discussão. À luz de novos apontamentos filológicos, reforçava o apelo final da colega M. Cortesi acerca da necessidade de se produzir uma nova edição crítica atualizada do De vero bono de Valla. Com este fim, se dispôs à feição de um novo exame das críticas dos filólogos anteriores, em conformidade com os avanços que a crítica textual sofrera desde então33. Desse modo, reforçava a acusação de M. Cortesi ao considerar como insuficientes os fundamentos metodológicos da editora Panizza na averiguação de um e outro códice valliano – no caso, o de Basiléia (b)34.
Relembrando as palavras de M. Cortesi, o especialista afirmava haver maiores dúvidas acerca da transmissão da segunda redação (β); sobre a primeira (α), havia larga unanimidade35. Para complementar a análise filológica dos colegas em torno da tradição de β, R. Norbedo teceu valoroso levantamento histórico sobre o editor Andreas Hartmann Cratander, tipógrafo responsável pela edição de Basiléia (b), de 1519 – alvo de tantas controvérsias –, contribuindo de maneira significativa aos estudos da fortuna crítica do texto de Valla.
A seguir, tecemos um breve relato deste contributo, destacando apenas os pontos de maior interesse a respeito do caráter tipográfico do editor:
32 R. NORBEDO, Per una nuova edizione del “De vero bono”, apresentado no Congresso Pubblicare il
Valla (Arezzo, Centro di Studi sul Classicismo, 2-3 dezembro 2005), in Pubblicare il Valla, a c. di M.
REGOLIOSI, Firenze, Polistampa, 2008.
33 R. Norbedo anunciava a descoberta de novos testemunhos, ainda em processo de avaliação: ms. Bern, Burgebibliothek, 550 (cc. 94v-97r), o qual contém um fragmento do livro I do De vero bono, correspondente ao capítulo XLV, 1-12 da edição De Panizza, intitulado: “Accusatio eorum qui virgines
sanctimoniales introduxerunt a Laurentio Valla” (para descrição do ms., ver: O. BESOMI, Codici
petrarcheschi nelle biblioteche svizzere, in Italia medioevale e umanistica, 8, 1965, p. 400, nº 18),
ibidem, p.280.
34 O autor postergava para um futuro breve a reavaliação da edição de Colonia (c), ibidem, p. 282. 35 Id., ibidem, p. 281.
44 Andreas Hartmann Cratander nasceu em Strasburgo, em torno de 1490. Formado em Heidelberg em 1503, colaborou com Adam Petri, desde 1515, na qualidade de corretor e editor na Basiléia, onde iniciaria a atividade de tipógrado-editor três anos depois, em 151836. Definido como “um dos maiores editores e estampadores da Reforma Protestante, junto com Oporimus, Froben – de quem foi colaborador37 –
Amerbach e Heirich Petri”38. Depois de intensa atividade, sob a qual chegou a publicar cerca de duzentos títulos em alemão, latim e grego39, morreu na Basiléia, em 1540.
Além do De vero bono, a tipografia Cratander publicou de Lorenzo Valla o De