platéia, Catone começou:
- Como sempre, agrada-me muito mais ouvir os mais sábios, entre os quais vós sois indubitavelmente os melhores, do que ser ouvido por eles; e como eu sinto que eu tenho muito mais a aprender do que a ensinar, eu sugiriria a vós mesmos debaterdes o argumento. No entanto, como vós, os mais sábios entre os homens, decidistes que deveria ser eu o Radetti, não é o caso de creditar no referimento de Raudense sobre a idade de Bripi que aparece neste diálogo, livro III, 24, 17 (Radetti, Scriti filosofici e religiosi, n. 2, p. 11). (NE, G. Radetti, p. 11)
19 Quintiliano, Institutio Oratoria, XII, I, 30: “bonos numquam honestus sermo deficiet, numquam rerum
optimarum inventio”.
20 Sibila, profetisa da mitologia grega e romana, inspirada por Apolo.
21 Diomedes (Tydide) foi um legendário herói grego protegido por Atenas. Foi rei de Argos e um dos mais valentes na guerra de Grécia contra Tróia. Homero, Ilíada, V, 793.
66 primeiro a falar, eu farei como me obrigastes. E dos muitos tópicos que surgiram na minha mente, eis aqui o assunto mais oportuno, segundo penso: (2) eu freqüentemente me pergunto com grande perplexidade acerca da perversidade e fraqueza da alma comuns à maioria dos homens. Qualidades estas que, embora sejam evidentes de muitas maneiras, ficam mais claras assim: os homens, como eu os vejo, são fortemente inclinados a adquirirem coisas que não são boas por natureza, ou que certamente não são comparáveis em nenhum ponto de vista à virtude. Por outro lado, as qualidades nobres e verdadeiras – as únicas boas – são não apenas desejadas por poucos, mas também ignoradas, desprezadas ou odiadas. E quais são estas qualidades? Elas são certamente aquelas concernentes à honestidade, tais como: a justiça, a fortaleza e a temperança. Se a compleição da virtude pudesse ser vista com os olhos corpóreos, como disse Sócrates no Fedro, isto nos incitaria a um admirável amor pela sabedoria22. (3) Realmente, sua compleição é muito nobre e divina para se tornar visível e sujeita aos nossos olhos. Em vez disso, nós devemos contemplá-la com a mente e a alma e, quanto mais penetrante e aguda for a mente, mais perfeitamente esta verá a compleição da virtude como a face do sol. Tais foram aqueles que adquiriram memória eterna e foram celebrados por nossos ancestrais com glória imortal. Entre estes, são os nossos maiores: Brutus, Horácio, Múcio, Décio, Fábio, Cúrio, Fabrício, Régulo e os Cipiões23. E entre os gregos: Temístocles, Aristídes e Epaminondas. E também temos aqueles que se tornaram famosos por seus estudos, e não por suas batalhas: Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Teofrasto, Zenão, Cleante, Crisipo, Homero, Píndaro, Menandro, Heródoto, Eurípides, Demóstenes e inúmeros outros. E isto sem mencionar os latinos, já que esses citados anteriormente se referem apenas aos escritores gregos.
(4) De fato, sobre o que eu falara antes; isto é, as coisas pelas quais os homens se
exasperam, estas são iguais ou similares àquelas que Virgílio descreveu: Homens há que remam por mares desconhecidos, empenham a espada e se insinuam contra as cortes e palácios reais. Outros, ávidos, atacam a própria cidade e suas desventuradas famílias
22 Platão, Fedro, 250d. Segundo De Panizza, Valla pode ter encontrado esta referência no De officiis de Cícero, I, 5, 15.
23 Todos estes nomes ficaram famosos na história romana pela sua honestidade [honestas] - sua vontade de se sacrificar pela pátria. Os “Cipiões” referem-se ao Cipião, avô e neto.
67 para beberem de taças preciosas e dormirem em leito roxo de
Tirio; outros, avaros, escondem suas riquezas e deitam-se sobre o ouro enterrado; outros, maravilham-se diante da tribuna e outros, boquiabertos, deixam-se arrebatar pelos aplausos de senadores e do povo que ressoam pelas bancadas do teatro. Comprazem-se em derramar o sangue de seus irmãos, trocam seus doces lares pelo exílio e procuram debaixo de um outro sol uma nova pátria24.
Nós já tratamos o suficiente dos muitos erros e desejos de ganância do homem. Tais exemplos nós podemos encontrar em abundância tanto na Antiguidade, quanto em nosso tempo. Portanto, me abstenho de aqui mencioná-los ainda mais.
(5) Entretanto, como Virgílio parece condenar abertamente as preocupações
daqueles homens que ele mencionou (e bem justamente), eu não sei com qual justiça, então, um pouco depois, ele louvou tanto a vida simples dos camponeses, dizendo:
O lavrador revolve a terra com o seu arado curvo (...)25.
E assim por diante, pelas linhas que se seguem. Vós conheceis bem o poema onde ele expressa não a sua opinião, mas aquela do suave e frágil Epicuro, a fim de lisonjear um pouco os ouvidos do público. Pois, o que ele próprio pensava, ele havia retratado um pouco antes na passagem onde dizia:
Mas, quanto a mim, peço às musas, a quem sirvo sob emblemas sagrados e a quem acima de tudo quero com profundo amor, que me acolham e me ensinem sobre os caminhos do céu, as estrelas, os eclipses do sol e os da lua; o lugar de onde surgem os terremotos, que força faz os mares profundos se agitarem e rebentarem suas barreiras para, então,
24 Virgílio, Geórgicas, II, 503-512. 25 Virgílio, Geórgicas, II, 513.
68 tombarem sobre si mesmos; por que razão o sol de inverno se
apressa tanto para mergulhar no oceano, ou que obstáculo torna tão lento o irromper das prolongadas noites26.
(6) Vede como, influenciado pela sedução dos temas concernentes à virtude,
alonguei-me neste assunto. Porém, estou verdadeiramente convencido de que esses versos são mais conhecidos de vós do que os anteriores. Entretanto, para ser sincero, eu não poderia citar pacientemente aqueles que me desagradam. Agora, com relação a essas passagens, elas me agradariam ainda que, como se diz, fossem repetidas dez vezes. E eu as tenho recitado para todos sem a menor hesitação, pois eu acredito que vós vos deleitais com as mesmas coisas que eu. Nós devemos, portanto, rejeitar completamente a vida dos agricultores, a menos que, Deus nos ajude, nós queiramos ser epicuristas. Como o próprio Virgílio mostra, aquele modo de vida é cheio de absurdos e licenciosidades, tal qual era a vida nos tempos anteriores à existência da justiça, da lei e da moralidade. Virgílio também nos diz:
(...) [Saturno] reuniu esse povo indócil e disperso pelas montanhas e deu-lhes leis27.
(7) Mas, qual é o propósito de tudo isto? Simplesmente deixar claro que os
camponeses de Virgílio, ou melhor, os epicuristas, não devem ser excluídos do grupo dos tolos e errantes. Assim, é justo que eu me espante com grande perplexidade sobre o porquê a mente humana, que cremos ser divina, seja tão perversamente mal conduzida, a ponto de se envolver tão rapidamente ao que é frívolo, vão, inútil, fútil e – em uma palavra – mau; e a estes se agarrar com firmeza, em vez de segurar a verdadeira e sólida virtude, a única através da qual nos aproximamos dos deuses e, se é permitido dizer também, nos tornamos também deuses. No ensino dessa virtude, os estóicos parecem ser os mais ilustres, uma vez que eles dizem que a honestidade é o único bem. E quanto aos estóicos, os quais estou acostumado a admirar mais do que a todos os outros, nosso Sêneca, de forma justa e elegante, desejou que eles fossem considerados entre os demais filósofos como os homens para as mulheres28.
26 Virgílio, Geórgicas, II, 475-482. 27 Virgílio, Eneida, VIII, 321-322.
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