O Barreiro desempenha um papel importante na vida de Joaquim Madureira. A sua mãe, Senhora da Casa de Milhundos, ia fazer a época balnear com toda a família ao Barreiro, que era então uma praia frequentada por famílias distintas no final do século XIX. Daí J. Madureira ter escrito que ao Barreiro o “prendiam vivas impressões de infância e queridas recordações de mocidade”, mencionando que, “sendo aquela [terra] que, de raiz e nascimento não é minha, é aquela a que, de estaca e coração mais quero e mais me sinto preso”101. No Barreiro terá conhecido a família de Emília Augusta Covacich (Bibi), sua segunda mulher, com quem aí residiu em dois diferentes períodos da sua vida102, o último das quais a partir de 1936, na Rua Miguel Pais, com vista para o rio e para um moinho muito particular, onde chegou a instalar- se103 e onde desejou passar o resto dos seus dias.
Com esse objectivo, dirige uma carta ao Presidente da Câmara, Joaquim José Fernandes, em 23 de Março de 1936, manifestando o seu desejo de doar à vila as suas preciosas colecções de biblioteca (cerca de 2500 livros) e pinacoteca (120 quadros), que ficariam em exposição no histórico moinho de Jimes (ou James, ou Jim)104.
Este, mandado edificar em 1827 pelo britânico James Hartley, conhecido por “Jim”, funcionara até ao final do séc. XIX, sendo em 1926 adaptado para habitação. De arquitectura Proto– Industrial, com estrutura em forma de cone truncado, torre de três pisos, cobertura giratória e duas mós, o moinho era então pertença de particulares, prevendo-se que lhe seria acrescentada uma edificação anexa. Como condições, o doador propõe-se ficar como conservador e usufrutuário, juntamente com a mulher, passando o espólio à posse definitiva da Câmara por morte do último sobrevivente do casal. O Presidente mostrou-se interessado, não acontecendo o mesmo com o seu sucessor a partir de 1937, Lima de Albuquerque, que põe de lado o projecto, na sequência de intrigas várias105. Tendo J. J. Fernandes regressado à
101 Cf. Carlos Silva Pais, em www.vinculadosaobarreiro.com .
102 Assim nos diz Silva Pais (www.vinculadosaobarreiro.com). Embora nada tenhamos encontrado que o sustente, presumimos que o primeiro período tenha correspondido ao início da sua vida em comum, antes de se fixarem no Porto.
103 Segundo depoimento de sua neta Sofia Madureira Rocha, que se lembra de aí o visitar, rodeado dos seus livros e quadros, tendo-lhe ficado na memória uma escrivaninha com porta de correr com que ficou encantada.
104 Cf. barreiro-e-arredores.blogspot.com/.../barreiro-moinho-do-jim.html. Refira-se que o moinho passaria a Património Municipal em 1960, mantendo-se actualmente bastante bem conservado, embora devoluto. É propriedade da Câmara Municipal do Barreiro [Ilustração33].
105 No artigo de Silva Pais sobre Madureira, em www.vinculadosaobarreiro.com, menciona-se que os intelectuais do Barreiro diziam, na galhofa, que o ―romântico Madureira, desejando viver com mulher e biblioteca no moinho do Jimes, aspirava a ser um émulo de Daudet (autor francês naturalista que alcançou
40 Câmara em 1939, logo manifestou o desejo de retomar a doação. Para tal, constituiu-se “O Grupo dos Amigos do Museu-Biblioteca do Barreiro”, composto por intelectuais barreirenses e presidido pelo pintor Américo Marinho. A pedido destes, J. Madureira, que “por motivos contrários ao seu desejo” havia retirado a oferta, renova-a em Outubro de 1939, ainda que abandonando a ideia do moinho, uma vez que os proprietários se opunham à expropriação do edifício. No entanto, algumas semanas depois, de novo residente no Porto “por motivos de ordem familiar”106, retira “de uma vez para sempre”107 a proposta de doação, alegando ser conhecedor de que “junto de oficiais competentes, haviam sido feitas falsas acusações”108. Nada nem ninguém o demove, pelo que o grupo, lamentando a frustração, se dá como extinto. Madureira virá a vender as suas colecções em vários lotes, que assim, infelizmente, se dispersarão.
Em 1941, tendo conhecido umas espanholas que se dedicavam ao artesanato, fazendo bonecos de pano, decide-se a abrir uma fabriqueta de bonecaria no Barreiro em sociedade com alguns amigos, sendo um deles Cunha Leal109. Como justificação, segundo o neto Manuel, terá alegado o facto de ter muitos netos, ficando a poder dispor de brinquedos para lhes oferecer. A verdadeira razão prender-se-ia mais com o facto de se ter deixado encantar pelas espanholas... A fabriqueta, designada por “Bonecaria Portuguesa, Lda.”, situava-se na Rua Miguel Pais, nº 87, no Barreiro110, sendo os bonecos de pano comercializados pelos Armazéns do Chiado. A sua fraca qualidade (“desastrosos”, nas palavras do neto Manuel) leva a que em pouco tempo a fabriqueta se extinga, deixando J. Madureira desmoralizado e numa difícil situação financeira.
Durante este período barreirense colabora com assiduidade no semanário O Barreiro, sendo, segundo Silva Pais, muito amigo do director, Aníbal Pereira Fernandes. Entre Março e Outubro de 1937 dirige o semanário de crítica literária e artística O Diabo, orientado para as coordenadas estéticas neo-realistas. O jornal é alvo de apertada vigilância da PVDE e da Censura, sendo decretado o seu encerramento em 21 de Dezembro de 1940.
sucesso com a obra Lettres de mon moulin, datada de 1869). O espírito chacoteiro da observação, de que Silva Pais faz eco, poderá estar na base da intriga que levaria à não-concretização da doação.
106 A filha Caçula faleceria um mês depois.
107 Cf. cópia da carta do ‗Grupo dos Amigos do Museu-Biblioteca do Barreiro‘ ao Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, datada de 14 de Março de 1940, dando por terminada ―a incumbência‖- publicada em www.vinculadosaobarreiro.com .
108 Ibidem. 109
Cf. www.vinculadosaobarreiro.com. 110 Ilustrações 32 e 50.
41 Dada a sua predilecção pelos debates afectos às belas artes e pelo convívio com pintores e intelectuais da sua consideração, enquanto aí residente frequenta o Café Barreiro, onde acamarada com os ilustres barreirenses e seus amigos Américo Marinho, pintor, Joaquim Cabeça Padrão, arquitecto e Manuel Cabanas, mestre de xilogravura111 (opositor ao regime várias vezes preso pela polícia política), entre outros.