A criatividade é essencial para o desenvolvimento de talentos mas é muito difícil de identificar e avaliar (Mann, 2006; Runco, 2006). Isto decorre, provavelmente, do facto de ser um conceito complexo, que assume várias formas de expressão e diferentes influências (Runco, 2004). Mas, independentemente da sua variabilidade e
complexidade, o reconhecimento de um comportamento criativo pressupõe discernir um resultado criativo. Por exemplo, os estudos que se focam no produto criativo concentram-se em ideias traduzidas de formas palpáveis, que são apresentadas, muitas vezes, nas respostas dos sujeitos (Leikin & Pitta-Pantazi, 2013).
As perspetivas que dão destaque ao desenvolvimento da criatividade enfatizam a importância da construção de ferramentas que permitam a sua avaliação e desenvolvimento (Leikin, 2009b). Tais ferramentas, especialmente sob a forma de testes de criatividade, são hoje abundantes e bastante disseminadas. A importância destes instrumentos decorre do argumento de que a criatividade poderá ser menosprezada se não for formalmente avaliada em testes padronizados que se propõem medi-la cuidadosamente, como se pretende fazer, por exemplo, com a avaliação das aprendizagens (Leikin, 2013). A este propósito, Silver (1997) menciona o TTCT, validado por um extenso programa de pesquisa, que assenta nos três elementos chave: inovação/originalidade, fluência e flexibilidade. Entre outros, estes conceitos têm sido usados para construir ferramentas com potencialidades para identificar evidências de criatividade dos alunos (Mann, 2006, Mann, 2005; Silver, 1997). Das três dimensões referidas, a inovação ou originalidade é a mais amplamente reconhecida no fenómeno da criatividade, uma vez que se relaciona com a geração de ideias, abordagens e ações únicas (Leikin, 2009b). As pessoas que têm propensão para inovar tendem a quebrar as regras e experiências iniciais de forma consciente (Csikszentmihalyi, 1999). Por isso, dos indivíduos criativos espera-se a capacidade para pensarem com base em várias categorias diferentes e para desenvolverem ideias originais, adotando diferentes pontos de vista. A flexibilidade, a fluência e a originalidade têm sido os principais indicadores e os mais usados para definir a maneira segundo a qual as pessoas criativas pensam (Karakelle, 2009).
Originalidade
Uma vez que a criatividade é geralmente associada a um processo que leva à geração de ideias únicas, a originalidade é comummente reconhecida como a sua principal componente (Leikin, 2013; Runco, 2004b), traduzindo-se por conceber ideias incomuns e, consequentemente, produtos invulgares. Se algo não é novo nem incomum, então não é original e consequentemente não é criativo (Runco & Jaeger, 2012). Sendo assim, a originalidade é um critério usado como um forte indicador de pessoas criativas e refere-se à capacidade de gerar ideias novas, valiosas e únicas, em resposta a uma
questão, caraterizando-se por uma forma singular de pensar, que se manifesta através de produtos revolucionários (Guerra, 2007).
Os produtos criativos são sempre originais, o que significa que um indivíduo pensou em ou produziu algo que outros não foram capazes. Tal não significa o acesso privilegiado de um indivíduo a certo tipo de informação diferente e sofisticada; ao invés, as suas manifestações criativas resultam da interpretação pessoal que faz da informação disponibilizada. Logo, o mecanismo fundamental da criatividade da pessoa é a capacidade de produzir uma interpretação pessoal e original de uma experiência ou acontecimento (Runco, 2006). No entanto, embora os produtos criativos sejam sempre originais, nem sempre o que é original é criativo, ou seja, a unicidade não é suficiente para que um produto seja considerado criativo (Runco & Jaeger, 2012), implicando também flexibilidade e fluência (Leikin, 2009b). Sem utilidade, ajuste ou adequação as ideias e produtos meramente originais podem muito bem ser improfícuos (Runco & Jaeger, 2012). Desta forma, a originalidade, embora condição vital para que uma ideia ou produto seja considerado criativo, pressupõe, ainda, que o mesmo seja eficaz (Beghetto, 2007a; Runco, 2003; Runco, 2006; Runco, 2004; Runco & Jaeger, 2012).
No campo da criatividade, a componente da originalidade é suscetível de uma definição operacional, passível de se materializar em termos de raridade estatística ou novidade objetiva. Por exemplo, se apenas um indivíduo em cem produz uma solução específica para um problema particular, então essa solução pode ser objetivamente definida como única e, portanto, original (Runco, 2004). A originalidade é, sem dúvida, uma das componentes que integram a criatividade, mas a sua definição e validação depende da comparação de produtos ou ideias que ocorrem dentro de um determinado público e dentro do contexto em que este está inserido (Runco, 2003).
Fluência
A fluência não é uma operação em si; trata-se da facilidade cognitiva que pode ser desenvolvida e treinada em quase toda a forma de pensar (Oppenheimer, 2008). Consiste na espontaneidade de execução de procedimentos, habilidades e processos essenciais para realizar facilmente uma determinada tarefa mental (Diezmann & Lowrie, 2009; Oppenheimer, 2008), combinando precisão com velocidade na procura de uma resposta (Ramos-Christian, Schleser & Varn, 2008). Refere-se às ideias geradas para responder a uma questão, à continuidade que estas mantêm e ao fluxo de associações entre elas, cuja rapidez e precisão facilitam a mobilização de recursos
necessários para atingir a compreensão (Ramos-Christian, Schleser & Varn, 2008). Por outras palavras, a fluência é potenciadora do uso de capacidades de ordem superior em vez de desempenhos mecânicos (Blinder, Haughton & Bateman, 2002). Portanto, a fluência é fundamental para pôr em ação capacidades de ordem mais elevada (Benjamin, Foy, Konowitch& Mauprivez, 2013).
Os indivíduos fluentes numa área ou conhecimento específico revelam naturalmente a capacidade de o lembrar e aplicar posteriormente, sem que seja necessário reaprendê-lo quando este é preciso; demonstram capacidade de manterem os níveis de desempenho e atenção/concentração na realização das tarefas por longos períodos de tempo, resistindo a distrações; e manifestam a capacidade para combinar e aplicar o que aprenderam em tarefas mais complexas, de forma criativa e em novas situações (Blinder, 2002).Sendo a fluência menos proeminente na criatividade do que a originalidade e a flexibilidade, é importante que seja conjugada com essas duas componentes, uma vez que gerar uma grande quantidade de ideias (fluência ideacional) não significa que estas sejam necessariamente interessantes (Guerra, 2007).
Flexibilidade
O pensamento criativo está intimamente relacionado com a flexibilidade de pensamento (Haylock, 1997). A capacidade de quebrar conjuntos mentais estabelecidos e de ultrapassar a rigidez de pensamento é um aspeto importante do processo criativo que se prende com a flexibilidade. Portanto, a criatividade implica originalidade e também flexibilidade (Pizarro, Detweiler-Bedell & Bloom, 2006), pois ambas são responsáveis por estimularem o pensamento divergente, indispensável aos processos mentais de ordem superior (Vale, 2011). Tal como a originalidade, a flexibilidade é uma caraterística do ato criativo e está em sintonia com as mudanças aparentes nas abordagens adotadas para gerar respostas (Silver, 1997), nomeadamente em momentos que visam superar a fixação ou romper com estereótipos. É decisiva para encontrar uma variedade de opções e perspetivas disponíveis perante situações novas e para escolher a mais adequada, pressupondo o pensamento cuidadoso sobre cada alternativa (Starko, 2009).
Uma elevada flexibilidade cognitiva pode facilitar categorias mais elevadas de originalidade e de comportamento criativo (Zabelina & Robinson, 2010). Os indivíduos criativos tendem a ser abertos a novas experiências e demonstrar mais flexibilidade cognitiva do que as pessoas menos criativas (Pizarro, Detweiler-Bedell & Bloom,
2006). Optam por diferentes alternativas, variam métodos empreendidos e modificam comportamentos, atitudes e pontos de vista (Guerra, 2007). O pensamento flexível permite-lhes estabelecer associações entre diferentes áreas do conhecimento em resposta a um estímulo (Karakelle, 2009), nomeadamente fazendo um uso seletivo de conhecimentos face às situações particulares (Spiro, Coulson, Feltovich, & Anderson, 1988). Por exemplo, a flexibilidade cognitiva destaca-se pela capacidade de associação de ideias para resolver problemas (Vale, 2012). Portanto, a flexibilidade é uma aptidão que capacita os indivíduos criativos para lidarem com mudanças constantes (Runco, 2004b).
Do que foi exposto, importa destacar que a noção de criatividade não permite uma definição única nem unânime; muito pelo contrário, são várias as perspetivas em que esta pode ser discutida e conceptualizada. Em todo o caso, há uma certa tradição que parece ter-se mantido até ao presente, sustentada pelas perspetivas psicométricas e, muito em especial, pelos trabalhos incontornáveis de Torrance. Esses estudos, baseados em baterias de testes de criatividade, acabaram por dar consistência à teoria dos elementos constituintes da criatividade, como atrás descritos, com o propósito de avaliar a presença da criatividade nos indivíduos.