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La huella del amor en el cuerpo

3. Amor, producto ocular

3.4. La huella del amor en el cuerpo

A lavoura cafeeira esperava que o establishment científico desse um parecer sobre a praga. Como um dos constrangimentos sociais impostos à ciência é que seus porta-vozes sejam capazes de produzir enunciados verificáveis ou predições que se confirmem (Bloor, 1998), diversos atores posicionaram-se em campo, procurando demonstrar conhecimento sobre o mal dos cafeeiros. O resultado foi uma polifonia de discursos, muitos desencontrados, sobre o parasita e os meios de combatê-lo. Até que se elegesse um discurso hegemônico capaz de subordinar ou recalcar as concepções científicas correntes, não haveria como a lavoura se guiar diante de ambivalências tão dissonantes.

Um dos que se colocaram em campo foi José Vizioli, que como vimos, já estivera envolvido com a defesa fitossanitária da cana-de-açúcar. Com base no que havia estudado em sua especialização em agronomia na Universidade de Cornell, Vizioli assegurava que o inseto

não era refratário a meios úmidos; por isso, nas Índias Holandesas usava-se deitar o café em água com sabão e cal.95

Por sua vez, Otaviano Alves de Lima Jr.96 relatou em palestra na SRB que na América Central, onde estivera comissionado pela secretaria da Agricultura paulista para conhecer o modo como era praticada a cultura cafeeira, fazia-se a colheita separada das árvores praguejadas e, posteriormente queimavam-se os frutos colhidos em fornos hermeticamente fechados. O resultado de tal medida, segundo Otaviano Lima, foi a diminuição da praga em 60%, e seu completo desaparecimento após dois anos. As plantas infestadas foram ainda isoladas por um “cordão fitossanitário” e, em seguida, queimadas.97

A repartição do Ministério da Agricultura - o Instituto Biológico de Defesa Agrícola do Rio de Janeiro -, não poderia deixar de se pronunciar sobre a praga. Carlos Moreira,98 seu diretor, recomendava a circunscrição da área infestada e a queima das plantas atacadas. As restantes deveriam ser pulverizadas com arseniato de cálcio e de chumbo.99 As medidas contra o Stephanoderes preconizadas por Carlos Moreira baseavam-se em procedimentos adotados nos Estados Unidos, cujas ciências agrícolas forneciam o modelo aspirado pelos agrônomos brasileiros.100 As práticas agrícolas americanas eram encaradas como vanguardistas, num país que primava pela organização de seu aparato de pesquisa agronômica:

Espelhemo-nos, ainda que palidamente, no que vem sendo feito nos EUA. É esse o único país do mundo que tem uma organização formidável e perfeita

95 “Uma praga do cafeeiro”, O Estado de São Paulo, 05/06/1924.

96 Octaviano Alves de Lima Jr era filho do eminente proprietário de Campinas que teve atuação marcante no

cenário paulista ao adquirir uma empresa jornalística, com a finalidade de fazer com que a imprensa atuasse como órgão defensor da cafeicultura (Capelato, 1989, p. 45).

97 “Uma praga do cafeeiro”, O Estado de São Paulo, 05/06/1924. 98 Tratarei com maiores detalhes de Carlos Moreira no próximo capítulo. 99 “Notas e informações”, O Estado de São Paulo, 03/06/1924.

100 O uso de pesticidas arsênicos, especificamente, era uma prática corrente nos Estados Unidos, em que, devido

aos constrangimentos sociais, a entomologia nas primeiras décadas do século XX esteve estreitamente associada ao desenvolvimento de novos produtos químicos para combate às pragas da lavoura (Palladino, 1996).

para defesa e progresso da sua agricultura: daí o inexcedível progredir dessa nação nascendo da agricultura, a colossal indústria que possui. 101

Tal modelo foi alvo de críticas por um lavrador anônimo que afirmou em O Estado de

São Paulo ser contra o uso indiscriminado de inseticidas, como era feito nos Estados Unidos, pois havia provocado a morte de pássaros e o recrudescimento de outras pragas em Capivari, interior paulista. “Há entre nós a mania de imitar norte-americanos, copiando processos inseticidas nem sempre vantajosos para nossa terra”102 – advertiu ele.

A Escola Agrícola de Piracicaba, manifestou-se através do professor Mello Morais, que publicou no mesmo jornal uma comunicação intitulada “A lição do Verde Pariz”. Além de sugerir a aplicação desse arseniato habitualmente usado na agricultura, recomendava o expurgo do café com água quente ou sulfureto de carbono.103

Manoel Lopes de Oliveira Filho, redator da coluna “Assumptos Agrícolas” em O

Estado de São Paulo, versado nas ciências agronômicas, afirmava que de seu ponto de vista, o combate ao inseto requeria: rapidez na colheita; corte das saias do cafeeiro; espalhação cuidadosa dos montes e cordões; manutenção do cafezal limpo; fermentação do café com cal, além do expurgo com sulfureto.104 O naturalista Rodolpho von Ihering, apresentado como “lavrador de Valinhos” teceu comentários sobre a praga, realçando o perigo do uso da palha como adubo, pois ajudava a disseminar o parasita.105

Mesmo Arthaud Berthet, apesar das acusações que pesavam sobre ele, sentiu-se no dever de indicar meios de combater o Stephanoderes. Para todos os efeitos ainda era diretor da eminente instituição agronômica que ficava no epicentro da crise. Considerava possível o extermínio da praga em um ou dois anos, uma vez observado rigoroso tratamento nas fazendas

101 “O caruncho do café”, O Estado de São Paulo, 07/06/1924. 102 “Notícias diversas”, O Estado de São Paulo, 03/06/1924. 103 “Uma praga do cafeeiro”, O Estado de São Paulo, 28/06/1924. 104 ‘O caruncho do café”, O Estado de São Paulo, 18/06/1924. 105 “Fala-nos o sr. von Ihering”, O Estado de São Paulo, 03/06/1924.

infestadas. As medidas indicadas por Berthet consistiam, também, na rápida execução da colheita, sem deixar qualquer fruto remanescente; expurgo imediato do café colhido com ar quente, utilizando secador mecânico; desinfecção e expurgo das tulhas duas vezes por ano; queima da palha e dos resíduos de beneficiamento e inspeção cuidadosa dos cafezais, queimando-se as plantas atacadas.106 Essas medidas eram exatamente iguais às que tinham sido publicadas no Diário do Povo por um funcionário do IAC dias antes. Isso mostra que o Agronômico preocupou-se em veicular um discurso uníssono a respeito da praga, de modo a não agravar a crise de legitimidade em que se achava a instituição.

Outro personagem que procurou demonstrar conhecimentos sobre a praga foi Jorge Dummont Villares. Ele havia testemunhado a devastação da cafeicultura em Java e Sumatra, quando lá estivera em comissão da secretaria da Agricultura por 22 meses. Autoridade no assunto que era, por ter estado “cara a cara” com o mal, Villares deu várias palestras nas agremiações agrícolas da capital paulista.

Assim como os técnicos ligados a instituições de pesquisa agrícola, os lavradores também procuravam demonstrar um saber sobre a praga dos cafeeiros baseado na sua prática cotidiana empírica ou intuitiva. Luis Nouguês, integrante da SRB, afirmava que a secagem do café ao sol deveria exterminar as larvas do Stephanoderes. Assegurava que a maior incidência da praga em Java devia-se aos altos índices pluviométricos.107 Barros Penteado, também pertencente a SRB, ouvira dizer que bastava deixar o café fermentar e em seguida colocá-lo em água.108 O presidente da Sociedade Paulista de Agricultura, por sua vez, recomendava o expurgo de objetos oriundos das regiões atacadas em estufas a 50°C.109

O meio que muitos lavradores consideravam inequívoco para a extinção da praga consistia em isolar a área infestada, como um “cordão sanitário”, destruir os cafeeiros infestados, pela queima ou poda total das plantas, e indenizar os proprietários pelas perdas sofridas. Assim a praga seria debelada infalivelmente; afinal, o que não morre pelo fogo? Em

106“Instituto Agronômico de Campinas- Notas complementares animadoras”, Diário do Povo, 04/06/1924. 107 “A ação do governo- trabalho dos Drs. Arthur Neiva e Costa Lima...”, O Estado de São Paulo, 03/06/1924. 108 “Uma praga do cafeeiro”, O Estado de São Paulo, 05/06/1924.

sessão da Liga Agrícola Brasileira, o fazendeiro William Scheldom apresentou com detalhes esse plano endossado por grande parte da lavoura:

Resolver também sobre a indenização a que terá direito o proprietário agrícola no caso de ser necessário derrubar ou queimar cultura para esse fim. A zona contaminada pela praga deverá ser desde já isolada por meio de um acerto de grande largura, de 50 a 100 metros, contornando toda a área infestada, estabelecendo assim um cordão sanitário. Toda vegetação ou cultura dentro desse mesmo facho deverá ser roçada e queimada, pois é de crer que as próprias cinzas dessa queimada, contendo potassa, impedirão a passagem dos besourinhos constitutivos da praga, visto que eles não podem voar através de um acero num só vôo de 50 ou mais metros, não podendo caminhar pelo chão, pois serão impedidos pelas cinzas de queimada.110

Jorge Villares foi um dos que engrossou esse coro, afirmando, inclusive, que em Bangelan, na porção ocidental de Java, após supressão total da colheita, o índice de contaminação fora reduzido de 90 para 0;5%.111

Acreditava-se que a supressão da colheita era uma medida amarga a ser tomada, mas resolveria de uma vez por todas o problema da praga. Como durante o episódio da geada de 1918, supunha-se que o ônus da perda da colheita seria depois contornado: “Para eliminação da praga, torna-se imperativa a destruição completa de uma safra em toda a zona infestada. Tratemos de salvar o cafeeiro. Enfrentaremos o prejuízo como o faríamos com o produzido por uma geada.”112

Tal discurso foi sustentado pelas três agremiações agrícolas paulistas - a Liga Agrícola Brasileira, a Sociedade Paulista de Agricultura e a Sociedade Rural Brasileira. Em 22 de junho esta última convocou “representantes das mais velhas estirpes paulistas” a se reunirem no Clube Campineiro, sob a presidência de Júlio de Mesquita Filho. A reunião contou com a participação massiva dos lavradores do município mais afetado. O clima era de animosidade contra as medidas tomadas pelo governo, principalmente a supressão dos despachos de café

110 “Uma praga do cafeeiro”, O Estado de São Paulo, 21/06/1924.

111 “Uma praga do cafeeiro: a lição do Oriente”, O Estado de São Paulo, 22/06/1924. 112 “O combate à praga do café”, O Estado de São Paulo, 21/06/1924.

que atravancava o comércio cafeeiro de Campinas. Segundo uma testemunha: “Os ânimos estavam exaltados. A cidade se rebelava, em peso, contra a intervenção oficial no município.”113

Uma das propostas mais radicais partiu de Antônio de Castro Prado, fazendeiro de poderosa família paulista: sugeriu a expropriação das fazendas pelo governo, com posterior reaquisição pelo antigo proprietário, quando já estivesse indene, pela metade do preço. Caberia ao proprietário optar pelo meio que achasse mais conveniente. Caso julgasse as medidas de combate confiáveis, entregaria a propriedade ao governo para a debelação; caso contrário, ele próprio daria fim à cultura através do fogo ou da poda.114

Segundo Castro Prado seu projeto tinha a vantagem de ser o meio mais legal por conservar o direito de propriedade.115 Previa ainda a criação de um imposto sobre a lavoura para cobrir as despesas que o governo teria. Júlio de Mesquita Filho julgou que o imposto não devia incidir apenas sobre a lavoura, já que era ela que sustentava “o frágil edifício da indústria e do comércio paulistas”.116

A relação “privativa” que a elite cafeicultura mantinha com o aparelho estatal, tanto em nível federal quanto estadual, é bem evidenciada por esse episódio. Ao governo caberia sanar a crise da lavoura arcando com o ônus de debelar a praga nas propriedades. Esse modo “inteligente” de resolver a questão guarda semelhança com a postura adotada pelos mesmos cafeicultores quando da elaboração das políticas econômicas em prol da lavoura cafeeira. Celso Furtado (1968, p. 174).caracteriza o mecanismo por eles acionado como “socialização das perdas”. Consistia na manipulação da taxa cambial de modo que os prejuízos sofridos pelos cafeicultores no mercado internacional fossem transferidos para o setor importador. Como praticamente toda a sociedade, especialmente os segmentos urbanos, consumia produtos

113 “Uma obra de Sciencia”, O Estado de São Paulo, 28/11/1925. 114 O Estado de São Paulo”, 24/06/1924.

115 Idem. 116 Idem.

importados, era sobre a coletividade que recaíam os prejuízos decorrentes da queda de preços do café.

Vemos, assim, que naquela conjuntura de crise fitossanitária, com profundas implicações sobre a vida econômica, social e política daqueles ligados ao complexo cafeeiro, chocavam-se não apenas os discursos leigo e científico, como os próprios discursos chancelados pela ciência. A profusão de vozes, muitas delas investidas da mesma legitimidade científica, só fazia por acentuar o clima de tensão e desordem. Era cada vez mais premente a necessidade de um discurso uníssono, preciso e prático, com legitimidade científica, que norteasse as ações tomadas pelos lavradores e outros atores sociais para salvar a economia cafeeira do colapso iminente: “Conselhos são úteis, avisos são preciosos, todas as opiniões devem ser ouvidas e ponderadas, mas a ordem para a execução deve partir sempre daqueles sobre cujos ombros vai recair toda a responsabilidade de campanha.”117

O primeiro passo devia ser a identificação segura do parasita, para confirmar se, de fato, era o mesmo agente que devastara as lavouras nas colônias holandesas do sudeste asiático. Para dar cabo dessa tarefa, o governo paulista buscou conquistar a confiança da lavoura cafeeira, convocando Arthur Neiva e Ângelo Moreira da Costa Lima, cientistas de renome, com competência na entomologia, tradição de pesquisa mobilizada para classificação taxonômica do inseto. Em meio àquela intrincada teia de relações que desenhamos nos capítulos anteriores, Estado e ciência procurariam agora, suplantar o coro dissonante, impor seus enunciados, e produzir um saber que desse cabo, efetivamente, do mal que poria a principal economia do país de joelhos.