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Sor Juana, sabia pecadora

Depois que o secretário de Agricultura em excursão a Campinas constatou que a praga que assolava os cafeeiros era da mais absoluta gravidade, o governo do estado tomou medidas preventivas genéricas para impedir a sua disseminação. Acreditava-se que estava circunscrita a Campinas e, até que se conhecesse melhor a natureza do parasita que atacava o “ouro verde paulista”, não seria possível levar a cabo ações de controle mais precisas e menos restritivas.

Havia um componente político no discurso e nas ações do governo paulista. Empossado em 1 de maio de 1924, Carlos de Campos (1924-1927) procurou diferenciar-se de seu antecessor, Washington Luís na questão da praga. A administração deste era

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“A defesa sanitária das plantas”, O Estado de São Paulo, 18/03/1925.

responsabilizada por negligência ao ser notificado do mal em 1922, por um lavrador campineiro ao então secretário de Agricultura, Heitor Penteado.73

Tal acusação mobilizou os defensores do governo de Washington Luís. A Gazeta de

Campinas,74 por exemplo, afirmava: “todos clamam contra os dirigentes que acabam de deixar o poder a 30 de abril.”75 Contra as “espalhafatosas notícias”76 veiculadas pela imprensa, A

Gazeta argumentava que, imputar a Washington Luís a responsabilidade pela broca equivaleria culpar o governo de Wenceslau Brás pela gripe espanhola, e o de Altino Arantes pelo curuquerê dos algodoeiros.77 A inércia de Heitor Penteado, secretário da Agricultura de Washington Luís, era resultado, segundo A Gazeta, da falta de uma notificação sistemática como a que havia sido feita a Gabriel Ribeiro dos Santos, secretário de Agricultura do atual governo de Carlos de Campos. A culpa, então, deveria recair sobre Arthaud Berthet e sobre os próprios lavradores que, cientes do caso, nada comunicaram ao governo.78

Para diferenciar-se do governo anterior, o recém-empossado alardeava a inauguração de uma “nova era” e prometia mostrar-se “pronto e enérgico”. Avesso às contendas políticas, o “simpático governo de Carlos de Campos”79 naquele momento de apreensões e tumulto, estaria operando “o milagre de regeneração da vida pública paulista”.80

73 “Notas e informações”, O Estado de São Paulo, 30/05/1924.

74 A Gazeta de Campinas foi fundada em 1869 por Francisco Quirino dos Santos, jornalista que já havia tido

experiência na redação do Correio Paulistano. Constituiu importante veículo das demandas e insatisfações da lavoura em relação ao governo imperial. Seus artigos versavam principalmente sobre a questão dos transportes, mão de obra e crédito agrícola. A partir de 1876 assumiu postura mais radical de crítica ao poder monárquico, expressando a vocação abolicionista e republicana dos fazendeiros do oeste (Lima, 1986, p. 11; 100).

75 “A praga do café”, Gazeta de Campinas, 10/06/1924. 76 “A praga do cafeeiro”, Gazeta de Campinas, 05/06/1924. 77 Idem.

78 Idem.

79 “Notas”, O Correio Paulistano, 31/05/1924. 80 Idem.

O Estado de São Paulo contemporizava essas afirmações laudatórias do Correio

Paulistano, por não estar tão comprometido com o governo quanto aquele periódico de tendência assumidamente oficialista (Telarolli Jr., 1996b, p. 269; Capelato, 1989): 81

A palavra oficial não basta, desacompanhada como se faz ouvir, de qualquer exposição de fatos, de argumentos, ou de simples considerações, que de longe se revistam da forma de prova. A palavra oficial será, no máximo, a expressão de um desejo, um aceno de esperanças, se não for também uma tentativa de tranquilização. Tal desejo é universal (...) Mas, daí à realidade a distância é enorme, e certamente não a venceremos se o governo conseguir a absoluta tranqüilidade que parece procurar. Da absoluta tranqüilidade vem o excesso de otimismo, e do otimismo excessivo a prole é funesta e detestável: lentidão, hesitações e, afinal, a ruína que o governo indubitavelmente quer evitar.82

As primeiras ações “prontas e enérgicas” tomadas por Gabriel Ribeiro dos Santos foram a inspeção dos armazéns reguladores e o levantamento topográfico da região infestada, para “conhecer com segurança a extensão e a natureza do terreno onde se vai travar a luta.”83 O secretário anunciou também o impedimento imediato do embarque de café proveniente das zonas contaminadas ou suspeitas. Para o levantamento topográfico foram importantes as cartas geográficas esboçadas pela Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo84 e a ajuda dos engenheiros da secretaria da Agricultura e dos técnicos do Instituto Agronômico de Campinas. Nos armazéns reguladores era depositado o café produzido em São Paulo. Ali os grãos ficavam estocados até que o comércio exportador garantisse seu escoamento. Foi o meio que a política intervencionista de defesa do café de 1906 encontrou para controlar a oferta no

81 O Correio Paulistano era o órgão oficial do Partido Republicano Paulista e, portanto, refletia a postura oficial

perante os fatos. No contexto das epidemias de 1890, resgatado por Telarolli Jr., o Correio Paulistano refletia o otimismo do órgão oficial do PRP (Telarolli Jr, 1996b, p. 279).

82 “Notas e informações”, O Estado de São Paulo, 01/06/1924.

83 “Fala-nos o secretário da Agricultura- o que fez e o que fará o governo do estado”, O Estado de São Paulo,

31/05/1924.

84 A Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo foi criada em 1886, com o propósito de efetuar o

levantamento do território paulista, na qual fosse determinado seu perfil geomorfológico, bem como o padrão do solo encontrado no Oeste, região de expansão da economia cafeeira. Extinta em 1937, o trabalho da CGG resultou em cartas geográficas que detalhavam os recursos naturais de São Paulo das respectivas regiões do estado (Figueiroa, 1987).

mercado, manter os preços e evitar as recorrentes crises de superprodução. (Furtado, 1968, p. 189-90). Em 1906, o governo passou a limitar a entrada de café em Santos para 50.000 sacas diárias. Criados em caráter provisório, os Armazéns Reguladores tornaram-se permanentes a partir de 1912, devido à baixa crônica dos preços (Bayma, 1927, p. 19). Os Armazéns ficavam nos entroncamentos de linhas ferroviárias de bitolas diferentes, ponto obrigatório de baldeação do café a caminho do porto de Santos. Desse modo, evitava-se despesas adicionais de descarga e carregamento (Bayma, 1927, p. 21). O governo tirou proveito dessa distribuição para inspecionar os lotes infestados. O serviço era feito pelo engenheiro fiscal da companhia ferroviária e por funcionários do Agronômico de Campinas (Idem, p. 25).

A proibição do embarque de café da região contaminada para o porto, determinada por Gabriel Ribeiro dos Santos, visou isolar as áreas acometidas, de modo a evitar a infestação de regiões e lotes de café indenes. O governo paulista contou com a ajuda de Antonio Prado, presidente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, dona de um dos principais troncos ferroviários do estado de São Paulo. Em telegrama ao secretário da Agricultura, Antônio Prado prometeu total apoio a qualquer medida que porventura o governo tomasse a fim de combater a praga.85 Além de empresário, Antonio Prado era cafeicultor, portanto, parte de seu patrimônio também estava sob ameaça.

A cidade de Campinas, de onde partiu a notificação da praga, foi a mais seriamente afetada pela suspensão do embarque de café de áreas contaminadas. Senhora de um dos mais antigos municípios cafeeiros do estado, com ativo comércio agroexportador, a elite campineira não se mostrou disposta a tolerar qualquer entrave à suas atividades econômicas. A proibição do embarque de café para o porto de Santos representava um golpe muito sério a seus interesses.

A restrição à circulação de objetos e/ou pessoas pelas estradas de ferro guarda semelhanças com as ações tomadas pelo governo desde a década de 1890 quando irrompiam epidemias na hinterlândia paulista, principalmente de febre amarela. Como as ferrovias

constituíam o meio mais utilizado de locomoção e comércio, sobre elas incidiam as ações interventoras (Benchimol, 1999, p. 247-262; Telarolli Jr, 1996a).

Os municípios considerados ‘infeccionados’ e sujeitos a medidas restritivas, atacavam a ação interventora do governo com violência.86 O professado liberalismo da burguesia cafeeira fornecia o pano de fundo ideológico desse discurso. Não raro, através da imprensa regional, tais municípios negavam a ocorrência de epidemias em seus domínios, ou encobriam os casos a fim de escapar às medidas de polícia sanitária. O comércio era especialmente sensível quando determinado local era apontado como sítio epidêmico, pelo receio de prejuízos em seus negócios (Telarolli Jr., 1996b, p. 272-3).

Embora não se tratasse de uma epidemia, o comportamento de Campinas foi análogo. É sintomático de como o posicionamento da cidade em relação à praga foi afetado pelo anúncio de uma possível ação interventora do governo estadual. Em 31 de maio de 1924, o

Diário do Povo, periódico campineiro, veiculava notícia sobre a praga concordante em número e grau com a notícia publicada pelo Estado de São Paulo, no dia anterior. Reproduzia inclusive a retórica alarmista do “grande órgão paulistano”,87 com a responsabilização do governo de Washington Luís e do Instituto Agronômico de Campinas.

Já em 1 de junho, um dia após a divulgação do plano de proibição do embarque do café, o Diário do Povo adotou posição diametralmente oposta. Em artigo intitulado “Uma praga dos cafeeiros- alarmante notícia: excesso de zelo e inútil espalhafato”, afirmava que a notícia sobre a praga não causara a mínima impressão em Campinas, por ser o caso assaz conhecido de seus cidadãos. Não seria motivos para a “ruidosa celeuma”, numa clara “campanha leviana de descrédito contra Campinas.” A publicidade “excessiva”, segundo o articulista, era uma conspiração de especuladores que queriam tirar vantagens comerciais de um revés na cafeicultura.

86 A imprensa paulista, estreitamente vinculada aos interesses de grupos que se posicionavam diferentemente em

relação ao governo, tendia a apresentar versões opostas e excludentes dos fatos. No que tange à saúde pública, por exemplo, os periódicos situacionistas apresentavam uma versão amenizada dos fatos a fim de louvar as políticas do governo, ao passo que os oposicionistas realçavam os fracassos das ações públicas (Telarolli Jr., 1996b, p. 267-9).

A suspensão do embarque de café das áreas infestadas ou suspeitas foi efetivamente decretada por Gabriel Ribeiro dos Santos em 2 de junho de 1924. A área sujeita a essa medida foi delimitada de acordo com o traçado das respectivas ferrovias: de Campinas a Jaguary (atual Jaguariúna), na Mogiana; Louveira a Limeira, na Paulista; Itupeva, Quilombo e Helvetia, na antiga Ituana; Descampado e Sete Quedas, na Sorocabana, ramal da Guanabara; todas as estações da Funilense e, igualmente, todas as da Tração, de Campinas.88 Este município e as regiões circunvizinhas tiveram seu comércio isolado por uma espécie de “cordão sanitário”. A suspensão do embarque de café previa apenas o controle das vias ferroviárias, meio utilizado no transporte do café para o porto. O transporte de mulas não era utilizado para grandes distâncias e as vias rodoviárias eram por demais incipientes para o escoamento do café.

Em dois dias, foram retiradas dos Armazéns Reguladores de Campinas 1.500 sacas de café contaminadas. Suspeitando que outras localidades estivessem comprometidas, o governo anunciou que as medidas possivelmente redobrariam em rigor e extensão, para desespero dos lavradores e comerciantes.

Pelas páginas do Diário do Povo, o comércio e a lavoura campineiros taxaram a medida como “inqualificável ato de prepotência governativa”, “ato ditatorial” decretado em plena vigência da constituição federal! Fora posta na ilegalidade “a sede da propaganda republicana”, a “cidade culta” do Brasil.89 Comentários perniciosos eram dirigidos à secretaria de Agricultura. Nem mesmo a redação do despacho de Gabriel Ribeiro dos Santos escapou às críticas:

Se estivéssemos com o ânimo de glosar as medidas precipitadas adotadas na secretaria da Agricultura, onde segundo parece, todos mandam e desmandam, tal o número de colaboradores, entre os quais notamos gente de toda casta, desde o cientista até o jornalista, à guisa de estado maior improvisado em tempo de guerra inesperada, chamaríamos a atenção para a redação do esdrúxulo despacho, pois ali se proibiu o embarque de ‘café e outros produtos acondicionados em sacos’, concluindo-se, logicamente, que em outros

88 “A ação do governo”, O Estado de São Paulo, 03/06/1924.

89 “Praga dos cafeeiros: alarmante notícia. As providências do governo. Prepotência official- O bloqueio do

invólucros ou por outras formas podem ser recebidos até mesmo café praguejado...Por aí se vê a balburdia estonteante do departamento oficial do Estado, encarregado da defesa agrícola. É uma verdadeira casa de Orates. Ali só se enxerga a praga em Campinas e nos seus arredores. É o ânimo preconcebido de desmoralizar o nosso município, ao tempo que os outros contaminados, cuja relação existe no Instituto Agronômico, alguns dos quais mencionamos ontem, ficam livres da fiscalização e medida extrema que ofende direitos constitucionais.90

O efeito colateral da suspensão do embarque sobre o comércio foi a retenção de milhares de mercadorias, mesmo as que não tinham nenhuma relação com o café. Grandes firmas comerciais viram-se impossibilitadas de escoar seus produtos. A Associação Comercial de Campinas nomeou uma comissão de advogados para fazer pressão junto ao governo e reverter aquele quadro.91 Em 27 de junho de 1924, as principais empresas comerciais de Campinas enviaram um telegrama ao secretário de Agricultura, pedindo que fossem suavizadas as medidas tomadas pelo governo.92

Para retratar o caráter abusivo e draconiano daquelas medidas, caricaturizava-se a sua aplicação no cotidiano dos campineiros. Na coluna “Tome nota...”, do Diário do Povo, o articulista comentava em linguagem jocosa os constrangimentos por que passavam os passageiros de trem, por conta das restrições: “As medidas preventivas e de combater ao tal bichinho, são tão feras que a gente para embarcar tem que ir limpo de roupas, quase pelado mesmo, ou então comprar malas caras porque ninguém pode embarcar levando saco!!!!”93

Expressando o ufanismo da “Meca da República”, a Câmara Municipal de Campinas solicitou à Câmara dos Deputados, em 13 de setembro de 1924, uma lei que aplicasse as medidas coercitivas de combate à praga em todos os municípios infestados, já que as medidas impostas àquela cidade constituíam “uma exceção que julga vexatória”.94

90 “Praga dos cafeeiros: alarmante notícia. As providências do governo. Prepotência oficial- O bloqueio do

município. Uma carta do diretor do Instituto Agronômico”, Diário do Povo, 04/06/1924.

91 “Praga dos cafeeiros- Alarmante notícia. O bloqueio da cidade e município de Campinas. Os prejuízos da

praça”, Diário do Povo, 06/06/1924.

92 “Telegramma de Companhias Commerciais de Campinas ao secretário da Agricultura”, Gazeta de Campinas,

27/06/1924.

93 “Tome nota...”, Diário do Povo, 06/06/1924

Reforçando o paralelo entre as medidas de controle da praga e os dispositivos mobilizados em tempos de epidemia, é interessante notar que durante o surto de cólera que assolou o Vale do Paraíba em 1894-95, houve forte descontentamento com a retenção de mercadorias nos armazéns da estrada de ferro Central do Brasil. Os protestos manifestaram-se nos jornais locais, acusando-se o governo de conspirar contra o comércio e os fazendeiros (Benchimol, 1999, p. 251).

Em 1924, apontava-se a necessidade de um plano “cientificamente” embasado, que afetasse minimamente as atividades econômicas, notadamente a cafeicultura. Ao lado da preocupação em efetivamente conter a marcha da praga, havia a motivação de diferenciar-se do governo anterior que há algumas semanas deixara a administração do estado. Para tanto, era preciso “mostrar serviço”, ao tomar atitudes que conotassem espírito de iniciativa e zelo pela base econômica paulista.