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A metodologia de coleta e análise de dados foi baseada no olhar da Ecologia Política, da Economia Ecológica e da Etnoecologia. A primeira pode ser compreendida como o estudo dos conflitos socioambientais, considerando-os um conjunto complexo de embates entre grupos em função de seus distintos modos de inter-relacionamento ecológico. A Ecologia Política tenta responder às perguntas: quem usa os recursos? Quando? Por quais razões? A que preço? Com quais impactos? Desta forma, ela também pode ser definida como o estudo dos conflitos de distribuição ecológica, ou seja, conflitos no acesso e controle dos recursos naturais (MARTÍNEZ- ALIER, 2002). A segunda foi utilizada com base na proposta de promover um novo olhar sobre o uso dos recursos naturais, buscando compreender valores plurais, os mais diversos possíveis e sem determinação de valores financeiros. A terceira busca entender as adaptações humanas ao ambiente em relação às estruturas produtivas, formas e freqüências de mobilidade, cosmologia e ritos religiosos que orientam o uso de conhecimentos e tecnologias e que são transmitidos dentro de uma lógica própria de transmissão de conhecimento e aprendizagem (LITTLE, 2001).

O principal eixo das análises foi baseado na Ecologia sob o ponto de vista de Little (2006), que afirma que esta área está sempre lidando com distintas esferas de interação, promovendo uma abordagem holística e aproximando-se do campo de pesquisa dos “estudos da complexidade” devido a três fatores: (1) o foco central são sempre relações- sociais, naturais ou socioambientais; (2) o uso de análises contextualistas que colocam as relações

dentro de seus respectivos marcos históricos e ambientais; (3) o uso de metodologias processuais onde o acompanhamento dos fluxos e a identificação de sua dinâmica interna é essencial. Assim, a Ecologia naturalmente demanda uma abordagem transdisciplinar, delimitada por um recorte geográfico e temático, já que o holismo é extremamente difícil de realizar completamente.

Foi tomado o cuidado de se concretizar este trabalho segundo um perfil intercientífico, que propõe um diálogo entre pesquisadores e comunidade (FARIA, 2007). Como afirma Bourdieu (1999), a pesquisa é, antes de tudo, uma relação social que exerce efeitos sobre os resultados obtidos. Por isso, o pesquisador deve ter um imenso cuidado com a violência simbólica, que consiste num exercício de força do pesquisador sobre o pesquisado que tanto pode causar mal estar como prejudicar as informações coletadas. Outro ponto relevante são os não-ditos, aquilo que as pessoas sabem e não precisam dizer; o que sabem e não querem dizer e tudo o que o pesquisador vê, mas que os comunitários não reconhecem. Os não-ditos são um “portal conceitual para todo um mundo de preocupações interpretativas e constatações etnográficas” (CABRAL, 2008). Neste ponto, a observação participante foi de extrema importância.

Optou-se por realizar um estudo de caso, de modo a aprofundar a pesquisa em uma única localidade. Para isso, foi escolhida uma comunidade que representava o histórico da região e que possuía o perfil necessário para a investigação dos objetivos propostos. A coleta de dados em campo foi participante, aquela em que o pesquisador compartilha a vivência dos sujeitos pesquisados, participando das suas atividades. O pesquisador coloca-se numa postura de identificação com os pesquisados, registrando descritivamente todos os elementos observados (BRANDÃO, 2006; SEVERINO, 2007). A pesquisa foi conduzida buscando entender os processos de mudança temporal e espacial vividos pela comunidade que a fez chegar à situação atual de relação com os recursos naturais. Os instrumentos de coleta foram: Observação participante: consiste no envolvimento do pesquisador nas atividades da comunidade, com o objetivo de discernir a maior variedade possível de detalhes sobre o dia-a- dia da população (ALEXIADES, 1996).

Entrevistas não-estruturadas: não possuem estrutura e suas perguntas fluem da conversa normal (ALEXIADES, 1996). Servem para detectar expressões locais; aproximar o entrevistador dos entrevistados, reduzindo a desconfiança; reconhecer temas relevantes ao trabalho, que deverão ser abordados em entrevistas mais fechadas.

Entrevistas semi-estruturadas: são baseadas no uso de uma lista de questões que devem ser respondidas preferencialmente numa ordem particular, mas com flexibilidade (ALEXIADES,

1996). Este tipo de entrevista é útil quando nem todas as respostas precisam ser quantificadas, dando a chance para o entrevistado incluir mais detalhes ou fazer associações com outras respostas (HUNTINGTON, 2000).

Mapas mentais- consistem em imagens espaciais de lugares do presente ou do passado, de localidades distantes ou formadas a partir de acontecimentos sociais, culturais, históricos e econômicos. São representações das experiências vividas em relação a determinado lugar onde se apresentam a forma, histórias concretas e simbólicas. Revelam como o lugar é compreendido e vivido (ARCHELA, GRATÃO E TROSTDORF, 2004).

Pesquisa documental- consiste na pesquisa em toda forma de registro de dados (SEVERINO, 2007).

O contato inicial com a comunidade foi feito por meio de um pesquisador que trabalhou no local. Ele forneceu o contato do presidente da associação comunitária e forneceu informações iniciais. Na primeira visita, os objetivos e metodologia do trabalho foram expostos durante uma reunião comunitária. A realização da pesquisa foi aprovada nesta ocasião (Anexo 1).

O trabalho de campo foi desenvolvido entre julho de 2013 e dezembro de 2014. Foram realizadas sete viagens à Água Preta, nos diferentes períodos sazonais: cheia, vazante, seca e enchente. Procurei me hospedar em diversas casas nas diferentes viagens. Além disso, busquei ter a maior independência possível para andar pela comunidade. No período de seca, isso foi facilitado, pois é possível percorrer a maior parte das casas a pé. Na cheia, ao contrário, foi necessário o apoio de uma pessoa na condução da embarcação que me transportou até as residências. A observação participante foi realizada durante todo o tempo em campo. As entrevistas informais deram origem às semi-estruturadas, que foram realizadas nas casas dos comunitários por unidade domiciliar, de acordo com sua disponibilidade. As perguntas foram dirigidas à pessoa que se propôs a responder (chamado aqui de entrevistado), porém, interferências dos familiares foram aceitas (considerando-se que o entrevistado havia concordado com o que foi falado). Em geral, o entrevistado foi o homem mais velho da casa, mas em certos casos foi a mulher mais velha ou filho. Apenas idosos que moravam sozinhos e tinham problemas de saúde e pessoas que se recusaram a participar não responderam às entrevistas. Todos eram maiores de 18 anos. As perguntas foram feitas informalmente, como uma conversa, para que o entrevistado se sentisse à vontade. Gravadores não foram usados para aumentar a confiança entre entrevistador e entrevistado. Interlocutores-chave foram fundamentais para o fornecimento de informações gerais e para a construção dos mapas mentais. Além disso, participei de quatro reuniões da associação comunitária; da visita de um

grupo de estudantes de uma universidade e de uma reunião de um representante da comunidade com o órgão estadual de proteção ambiental. Conversas informais com três pesquisadores com experiência na região ajudaram a checar parte das informações obtidas com os comunitários. A pesquisa documental foi feita com base nos registros das atas das reuniões da associação comunitária em que havia assuntos relacionados à fauna aquática. Também foram consultadas normas, leis e regulamentações que atingem a região. Parte das informações obtidas com as entrevistas são polêmicas e controversas. Portanto, por questões éticas nenhum interlocutor será identificado ao longo do trabalho escrito.