Convidados e parentes por volta das seis horas reunidos ao redor da mesa faziam a última refeição279, na qual aparelhos de jantar ingleses, talheres de prata, copos de cristal, compartilhavam do cenário que envolvia o jantar. Ao fundo da mesa um quadro,
277 Jornal Folha do Norte 24 de Maio de 1939 p.8 Biblioteca Arthur Viana (Centur) 278 LIMA;op. cit., p. 57.
279 MORAIS, Raymundo. In: Meu Dicionário de cousas da Amazônia volume 2. Rio de janeiro: Albas, 1931. Biblioteca M. Andrade, p. 52.
simbolizando a fartura e a necessidade de todos compartilharem de forma igual a divisão dos víveres postos à mesa, uma troca simbólica de interação e fraternidade. O movimento dos empregados servindo a mesa, carregando os pratos dos aparadores de madeira em direção à mesa. Tal cena pode talvez representar o ambiente que a sala de jantar compartilhava com os seus freqüentadores.
A sala de jantar compreende um espaço da habitação riquíssimo à medida que seu papel requer cuidados fundamentais com a aparência e higiene, um universo de miudezas, circulavam neste cômodo, sendo possível inferir como este ambiente não pode ser pensado a partir de um modelo e sim de imagens variadas que são capazes de compartilhar com o leitor a variedade e a riqueza das estruturas domiciliares em Belém.
Era nas salas de jantar que os sujeitos proprietários de algumas residências recepcionavam os convidados, envolvendo-os por um caráter simbólico e sagrado concomitantemente ao exporem na parede o quadro da “Santa Ceia de Cristo”, definindo o papel sagrado da refeição e dos valores religiosos que perpassavam por certos grupos familiares. A presença desta obra de arte na sala de refeições é comumente encontrada, probabilidade confirmada nos leilões entre 1920-1945. O jantar pode ser concebido a partir deste quadro como um momento de interação e sociabilidade da refeição, destinando a tal ritual um caráter sagrado.
O senador José Alves da Cunha ao retira-se para a capital em 1923 colocou a venda seus móveis, e entre estes, a sala jantar. Esta era formada por uma guarnição em imbuia do Paraná da marcenaria Red-Star fabricada no Rio de Janeiro com 16 peças, adornada com lâminas de cristal biselado e raríssimo mármore esmeralda, mesa elástica, buffet, mimosa cristaleira com fundo e prateleira de cristal e 12 cadeiras com assento de palhinha e encosto de couro, alta e espaldar, panos de mesa adamascado280, filtro inglês com mesa para o mesmo, quatro colunas, doze quadros, duas cadeiras de embalo, um grupo em peroba com cinco peças, dois tapetes, sendo um oriental, uma bengaleira em pau cetim com espelho, aparelhos de jantar, chá e café em porcelana, louças de limoges dourados a fogo, centros, copos, cálices, taças, garrafas e fino serviço de doces tudo em cristal, talheres e colheres em prata de lei, faqueiro em prata com 53 peças e um relógio francês.
A suntuosidade da sala de jantar descrita acima nos dá a ideia da importância que essas salas tinham para os sujeitos em Belém no período aqui estudado. Os adornos,
acessórios, os detalhes, a disposição dos móveis, enfim, demonstravam a comodidade, a beleza, o coforto do ambiente, mas mais importante ainda, serviam como amostra do poder aquisitivo da família como também dos valores morais desta.
Louças à mesa
A descrição dos objetos pertencentes ao senador José Alves da Cunha nos permite notar os mínimos detalhes de cada objeto. A origem ou a marca do móvel denota em parte a sua suntuosidade para a época, a cristaleira expondo as louças de cristais e prata reforça o papel deste móvel, tal como também louças que necessitavam do trabalho manual como aquelas douradas a fogo. O aparelho de jantar deixa evidente sua variedade e a especialização de cada objeto de acordo com os pratos que iam à mesa, entre estes açucareiros, farinheiras, púcaros, manteigueiras, bomboniers, depósito para ponche, serviço para aspargo281, chaleiras, conchas, xícaras, biscoiteiras, terrinas para sopa, bandejas.282
Durante o uso deste novo aparato de objetos, não descartamos as dificuldades que foram enfrentadas pelos serviçais que trabalhavam em tais residências, os gestos no ato de servir a mesa são muito valorizadas dentro das regras de etiquetas. Assim, a intervenção das donas de casa representou o instrumento de intermediação entre o universo das etiquetas de civilidade e a aprendizagem dos seus empregados para garantirem o sucesso nos jantares oferecidos a um grupo de indivíduos que tinham filiações sócio-culturais em comum.
A quantidade e a qualidade dos objetos da sala de jantar talvez induzam a uma precipitada conclusão de que todos os indivíduos consumiam ou possuíam nos seus domicílios todos os apetrechos demonstrados aqui, porém tal posse acerca destes bens até o presente momento só foram encontrados em residências de pessoas que são nomeadas de “tratamento”, uma vez que correspondem a pessoas públicas ou possuidoras de uma renda que proporcionava o uso destes objetos domésticos.
A fronteira entre as especificidades e suntuosidade de louças japonesas, francesas, inglesas, aponta que estas agiram como demarcadores sociais, pois a manipulação das louças exigia conhecimentos de etiqueta à mesa. Informações que ficavam restritas na maior parte
281 Planta comestível com propriedades diuréticas.
282 Na visão de Tânia Andrade nas décadas finais do século XIX os rituais e cerimoniais de como servir a mesa tornou-se uma preocupação dos livros de etiqueta e civilidade ao orientarem sobre o adestramento dos criados para aprenderam a servir a mesa diante da infinidade de talheres, e louças que passam a fazer parte dos chás. In:
Chá e Simpatia: Uma estratégia de gênero no Rio de Janeiro oitocentista. Anais do Museu Paulista, nova
das vezes aos sujeitos das classes abastadas através dos códigos de etiquetas e de aulas com professores destinados a ensinar as regras da civilidade européia.
Os convidados do Sr. D´Avila apreciavam um jantar na sua residência numa mesa elástica grande ao centro com cadeiras ao seu redor, um espaço cercado por aparador, cristaleira com fundo espelhado ocupada com louças de cristais, psyché283, quadros, um conjunto de móveis de imbuia, espelho e geladeira, eram os traços domésticos da residência deste comerciante . A exibição das louças, a disposição da geladeira na sala de jantar acena para possibilidades de leituras do significado da vida material para os integrantes desta elite, uma vez que os jantares constituíam verdadeiras exposições dos bens do proprietário.284
Para Carneiro o valor do móvel com suas prateleiras envidraçadas, deixando a vista os jogos de porcelana fina, em alguns casos fruto de herança, expressavam que a perpetuidade, a riqueza e a funcionalidade são valores a serem exibidos. O significado de tradição e ancestralidade que o mobiliário representava legitimava a família através de ícones de riqueza ostentados que fazem referência a um passado e projetam um futuro de segurança para a família.285
Geladeira
As geladeiras também faziam parte da sala de jantar em algumas residências, enquanto em outras estavam dispostas na cozinha, a qual será analisada nos itens posteriores. Na Década 20 as geladeiras se faziam mais presentes nas cozinhas, porém na década de 1930 e 1940 elas aparecem mais na sala de jantar.
Na casa do Sr. Luiz Teixeira o refrigerador foi alocado na sala de jantar286. Talvez essa alteração quanto ao espaço relegado à geladeira tenha imbricações com o aperfeiçoamento das geladeiras que nas décadas de vinte liberavam fumaça e faziam excessivos ruídos, problemas esses que foram sendo superados gradualmente nas décadas posteriores.
A conservação dos alimentos consistia em um dos problemas do cotidiano doméstico, uma vez que frutas, carnes, peixes, leite, entre vários alimentos, poderiam perecer
283 Ver Anexo 3
284 Folha do Norte 07 de Julho de 1940 p. 7 Biblioteca Arthur Viana (Centur).
285 CARVALHO, Vânia Carneiro de. Gênero e Artefato: O Sistema Doméstico na Perspectiva da Cultura
Material. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp. 2008, p. 118.
e não resistir a temperatura elevada, assim a geladeira passa a ser vista como uma solução para a dona de casa conservar a qualidade dos alimentos. As geladeiras que aparecem nos jornais apresentam muito bem os modelos que surgiram entre 1920-1945.
A grande maioria das geladeiras que chegavam à Belém no início do século 20 eram de origem americana, pertencentes à marca Frigidaire, considerada neste período como um dos melhores presentes para as donas de casa, uma vez que proporcionaria refrescos e frutas geladas, além de sorvetes. Ao final do ano no período de festas de Natal e Ano Novo as propagandas intensificavam-se e ilustrava-se a família feliz ao comprar uma geladeira, e em tal imagem se destaca a cor da geladeira, que era branca, combinando com as paredes azulejadas da cozinha, com a família com sorrisos exacerbados admirando o aparelho, que nas décadas de 20 a 30 era movido principalmente a base de querosene.
Os avanços na engenharia doméstica interferiam na arrumação ou organização dos objetos nos compartimentos das residências, os utensílios passam a ter nesta perspectiva uma dimensão pública e outra restrita. As geladeiras e fogões que provocavam desconforto predominavam na cozinha, ao apresentarem sinais de sujeira para os moradores.
O desconforto aqui mencionado está direcionado para a produção de fumaça que certas geladeiras na década de 20 provocavam, pois a engenharia doméstica ao longo do tempo foi superando as dificuldades e lançando no mercado refrigeradores que asseguravam para a dona de casa conforto, segurança e economia. E assim anunciava a empresa Norge em 28 de fevereiro de 1941 aos seus clientes os refrigeradores elétricos fabricado nos Estados Unidos e que seriam expostas em Belém na Avenida Castilho França nº68, para a população certificar-se das regalias e privilégios ao adquirir um produto da Norge.287