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5. Geomorfologisk og sedimentologisk analyse

5.1. Geomorfologiske data

5.1.2. Verdiar for kjeldeområda

As pautas trazidas por Melo (1985) e Charaudeau (2004, 2010, 2012), destacadas anteriormente, vão diretamente ao encontro dos artigos de opinião que compõem o nosso corpus, dadas as suas condições de produção. Primeiramente, o suporte ou dispositivo material dos artigos selecionados para essa pesquisa é o Boletim, um periódico de circulação interno à UFMG, um veículo de divulgação distribuído em todas as unidades da Universidade. Destacar o espaço físico de divulgação do Boletim é importante, pois, como assevera Charaudeau (2004), há uma determinada memória dos discursos em que são construídos saberes de crença e de conhecimento sobre o mundo, que circulariam na sociedade fragmentando-a em “comunidades discursivas”. Assim, Charaudeau (2004, p. 4) defende que

as comunidades discursivas reúnem – virtualmente – sujeitos que partilham os mesmos posicionamentos, os mesmos sistemas de valores, quer se trate de opiniões políticas, julgamentos morais, doutrinas, ideologias, etc. (grifo nosso).

Voltando à questão do suporte, podemos pensar que os artigos que compõem as edições do Boletim podem assumir um caráter diferenciado, dado que o mesmo também se propõe a divulgar pesquisas e algumas deliberações da universidade que sejam de interesse geral daquela comunidade discursiva. Maingueneau (2002), em sua obra Análise de Textos da Comunicação, destaca o fato de que o suporte não é acessório no processo de comunicação e atesta sua importância:

hoje, estamos cada vez mais conscientes de que o mídium não é um simples “meio”

de transmissão do discurso, mas que ele imprime um certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que podemos fazer [...] uma mudança importante do mídium modifica o conjunto de um gênero do discurso. (MAINGUENEAU, 2002, p. 71)

Sem a intenção de incorrer em qualquer categorização estanque, as reflexões feitas até o momento nos permitiram traçar algumas considerações para os artigos de opinião

publicados no Boletim, como explicamos a seguir. Melo (1985), autor visto anteriormente, apresenta perspectivas variadas para melhor compreender o artigo de opinião: uma que leva em conta o aspecto formal e outra que considera o aspecto funcional. Na perspectiva funcional, o autor aponta que o artigo de opinião pode ser caracterizar como doutrinário ou como científico. Como pudemos ver, este último pode ser de divulgação ou de caráter educativo. Nessa esteira, aproximamos os textos opinativos publicados no Boletim do artigo de opinião científico (em sua dimensão funcional) de caráter educativo (ou de convencimento direto). Essa suposição leva em conta o domínio discursivo em que o suporte se encontra e a legitimidade dos articulistas no espaço em que o Boletim é produzido e distribuído. Ainda na esteira de Melo (1985), tais articulistas são, em sua maioria, especialistas do campo das ciências sociais e da educação, sujeitos que podem promover o convencimento sobre um campo específico. Portanto, no caso do Boletim, tanto os articulistas que trazem seus pontos de vista como o público leitor ao qual se dirigem são agentes mediadores de conhecimento cujas opiniões podem apresentar algum tipo de importância na agenda de debates da sociedade.

Vemos, então, com base nos autores estudados, que os artigos de opinião do Boletim podem assumir contornos diferenciados mesmo quando há publicação de textos cuja primeira veiculação deu-se em jornais ou revistas de circulação nacional. Assim, um artigo de opinião publicado originalmente em um jornal como O Globo, por exemplo, ao ser publicado em segunda instância pelo Boletim, agregaria características desta publicação jornalística universitária. Sustentamos essa posição porque mesmo os artigos da mídia de massa que selecionamos em nosso corpus para análise possuem características semelhantes: são assinados por pesquisadores e professores de outras universidades; especificamente no caso da temática do nosso objeto, muitos desses especialistas atuam na área das ciências sociais, campo de estudo em que temáticas de cunho racial costumam ser mais recorrentes; além do suporte em que ocorre essa republicação do artigo de opinião, o Boletim.

Ainda assim, como já dissemos anteriormente, não entendemos essa avaliação do artigo de opinião no contexto do Boletim como uma camisa de força. Por isso concordamos mais uma vez com Melo (1985), ao apontar que não há padrão estrito para a concepção de artigos e suas características irão depender bastante do veículo que o publica. Para o pesquisador, o fato de o artigo de opinião ser, mais comumente, de colaboração espontânea ou

uma solicitação nem sempre remunerada gera grande liberdade em relação ao tema, juízo de valor emitido e também quanto ao modo de expressão verbal16.

Sobre uma possível organização textual do artigo de opinião, Melo (1985) traz novamente as considerações de Vivaldi (1973) para afirmar que, independentemente da estrutura desse gênero, há um processo ideal de elaboração que passa por três momentos essenciais: invenção, disposição e elocução. Nesse contexto, inventar é tirar do mundo, dos fatos e das ideias, é buscar uma justificativa para o encontro com os leitores. Entretanto, identificar uma ideia é algo insuficiente, sendo necessário que o articulista pondere seu desenvolvimento. Dispor é colocar em ordem as ideias, ordená-las. Já a elocução é a própria expressão escrita das ideias, que dá forma aos pensamentos (MELO, 1985).

Com base nas considerações feitas até aqui, presumimos que analisar a situação de comunicação em que se inscrevem os artigos de opinião do Boletim UFMG – um suporte que acreditamos ter características tanto do domínio jornalístico quanto do domínio acadêmico – pode favorecer uma compreensão mais ampla do artigo de opinião como gênero discursivo.

Contudo, em meio a todas as reflexões feitas até o momento, questionamo-nos novamente onde residiria essa característica complexa do Boletim e dos artigos de opinião, por consequência, uma vez que os textos opinativos em análise respeitam a mesma estrutura composicional de artigos de opinião em geral. Reiteramos essa hipótese tendo em vista o suporte ou dispositivo material de divulgação dos textos e a identidade dos parceiros de comunicação, que envolve, em sua maioria, docentes e discentes da UFMG. Sujeitos, portanto, legitimados a tecer considerações sobre questões relativas ao cotidiano universitário para um público também universitário. Relembramos Charaudeau (2004) mais uma vez ao dizer que o estatuto do ator social, bem como o papel que ele representa, são determinantes para julgar a pertinência de um discurso em relação ao domínio no qual ele é produzido. Principalmente no que diz respeito ao sujeito professor-pesquisador, sua autorização para tomar a palavra advém fortemente de sua formação, que o constitui polifonicamente. Esse sujeito compõe, em sua prática cotidiana, os lugares de sua formação e atuação, como de ex- graduando, pós-graduando, professor e pesquisador, lugares de autoridade que poderiam ser determinantes no processo de interpretação do leitor. Essa ideia vai ao encontro do que expusemos anteriormente a partir de Melo (1985, p. 94), que aponta para o fato de que

16 Dado que Melo (1985) afirma, com base em Vivaldi (1973) que há liberdade de conteúdo e de forma por parte

do articulista, importa ressaltar que essa liberdade é, de certa forma, restrita, pois “ele deve tratar de fato ou ideia da atualidade, coadunando-se com o espírito do jornal” (MELO, 1985, p. 92).

[…] muitas vezes torna-se difícil distinguir entre o artigo doutrinário e o científico

quando estamos diante de colaborações que têm como objeto as ciências sociais [...] isso vem se tornando comum nas revistas semanais brasileiras [...] cujo quadro de colaboradores tem se ampliado com a convocação ou afluência de pesquisadores sociais que se propõem a dizer o que pensam sobre os temas em debate.

Sobre a questão do lugar de autoridade do sujeito, Emediato (2003) relembra Bourdieu (1982, apud EMEDIATO, 2003, p. 66) e esclarece que “[…] o poder das palavras não é outra coisa que o poder delegado do porta-voz’ pelo fato de que o poder não se encontra nas palavras, mas nas condições sociais de utilização delas”. Nesse sentido, relembramos Charaudeau (2004) mais uma vez, pois, segundo o autor, em uma dada comunidade comunicacional (que reúne sujeitos que partilham representações semelhantes), não é exatamente o conteúdo do que é dito que está em jogo, mas sim o lugar situacional em que o dito é mostrado.

É por essas razões que julgamos haver grande influência da identidade dos sujeitos articulistas (professor e, muitas vezes, pesquisador) nos textos que pesquisamos, que, somados ao suporte, podem oferecer caráter diferenciado na percepção do leitor. Sobre a questão do suporte, Maingueneau assevera que a dimensão midiológica é de fundamental importância para a concepção de um gênero. Segundo o autor,

uma modificação do suporte material de um texto modifica radicalmente um gênero do discurso: um debate político pela televisão é um gênero de discurso totalmente diferente de um debate em sala para um público exclusivamente formado pelos ouvintes presentes. O que chamamos ‘texto’ não é, então, um conteúdo a ser transmitido por este ou aquele veículo, pois o texto é inseparável de seu modo de existência material: modo de suporte/transporte e de estocagem, logo de

memorização. (MAINGUENEAU,2002, p. 68, grifos do autor)

Podemos pensar, então, que o suporte Boletim imprime ao texto opinativo um lugar sócio-histórico da ciência, legitimado pelo espaço universitário em que é divulgado, ainda que o artigo de opinião não seja de caráter propriamente científico. Assim, a argumentação presente em tais textos poderá ser marcada por relatos de experiências pessoais, notadamente aquelas vinculadas a sua vivência acadêmica, bem como por dados de pesquisas sobre o tema em debate, situação bastante comum no espaço universitário. Também o nome do dispositivo material dos artigos de opinião, Boletim, mais do que uma nomeação, remete ao suporte revista científica (boletins e anais), segundo Marcuschi (2008).

Ao final dessas primeiras considerações, poderíamos pensar a que utilidade levaria tal compreensão situacional do artigo de opinião no Boletim UFMG – no entre-lugar

do domínio jornalístico e do domínio acadêmico. Presumimos que a serventia desses contornos para o artigo de opinião no contexto do Boletim reside no fato de que muitas estratégias de construção de imagens sobre as cotas raciais podem recorrer a valores do espaço situacional de divulgação desses textos, a universidade, com vistas a garantir sua efetividade argumentativa, inclusive podendo gerar influência no modo de consumo dos textos por parte dos interlocutores, dado o lugar de autoridade dos articulistas. Concordamos, então, com a frase atribuída a Bakhtin, ao afirmar que "o que vemos é governado pelo modo

que vemos e este é determinado pelo lugar de onde vemos”.

Finalmente, é preciso destacar que os aspectos situacionais do artigo de opinião serão retomados posteriormente, no desenvolvimento desse trabalho, pela análise argumentativa do discurso, no processo de investigação de representações da vertente racial das Ações Afirmativas nos textos opinativos selecionados. Partimos, agora, para uma apresentação do contexto histórico brasileiro sobre as relações raciais após a abolição da escravidão, em maio de 1888. A apresentação dessa conjuntura se faz- se importante para uma compreensão mais ampla sobre a política de cotas, que também será mais bem detalhada no capítulo seguinte. A discussão a seguir objetiva, portanto, favorecer nossa análise sobre as cotas raciais de uma perspectiva sócio-histórica para, então, adentrarmos nos conceitos da análise argumentativa do discurso.

2 “SOMOS TODOS BRASILEIROS?” AS AÇÕES AFIRMATIVAS DE RECORTE RACIAL E O (DES)ENCONTRO DA NAÇÃO