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5. Geomorfologisk og sedimentologisk analyse

6.1. Utløysande faktorar for debris-flowane under Mannfjellet

Como temos observado até então, a produção discursiva da elite intelectual de fins do século XIX e início do século XX sobre a questão racial tem muito a dizer sobre um imaginário construído acerca de um determinado ser brasileiro e seu modus vivendi em relação às demais nações. Como esclarecem Nóbrega e Daflon (2009, p. 1):

a partir de um branco e de um negro simbólicos, local e historicamente situados, estabeleceu-se relacionalmente o lugar de cada trabalhador nessa sociedade, o que por sua vez exerceu influência sobre as possibilidades de inserção dos indivíduos no mercado de trabalho e no preenchimento de determinadas ocupações.

A situação de libertação do negro levou alguns pensadores a refletir sobre esse grupo pela perspectiva da substituição desta mão de obra pela do imigrante europeu, dando início, assim, ao que conhecemos como projeto imigrantista (AZEVEDO, 2008), vigente do final do séc. XIX ao início do XX, bem como ao ideal de embranquecimento da nação. Segundo Nóbrega e Daflon (2009), a transição da ordem escravocrata para a assalariada fez com que a introdução de imigrantes de origem europeia tornasse a organização social mais complexa, modificando o significado de nação em vigor até o fim do império. Nesse sentido, surge o projeto imigrantista, que teve como alvo as lavouras cafeeiras de São Paulo e grandes cidades em processo de industrialização. Tal iniciativa teve como base um modelo de sociedade em que a razão, a ciência positivista e o liberalismo econômico se mantinham como elementos pilares.

Mais ainda, o projeto imigrantista que se desenvolveu no Brasil não pretendia que europeus ocupassem lugares em que havia escassez de mão de obra, mas que substituísse o trabalho de ex-escravos em todos os setores. Destaca-se ainda, nesse período, um amálgama entre argumentos liberais e raciais, que em sua maioria defendiam a inferioridade da população negra, fazendo com que a imigração europeia fosse cada vez mais vislumbrada. É o que comenta Azevedo:

A associação entre os males da escravidão e a inferioridade racial do negro é explícita. A observação é importante porque de certo modo a historiografia atual continua a tratar o tema da transição do trabalho escravo para o trabalho livre sem se referir à questão racial subjacente e que em seu tempo teve um lugar privilegiado entre as motivações imigrantistas. Assim, tornou-se um lugar-comum pensar a escravidão como um regime irracional, por ser trabalho forçado, em contraposição à racionalidade do trabalho livre, racional, porque em liberdade (2008, p. 55).

Azevedo (2008) complementa, ainda, que a irracionalidade da escravidão não foi explicada apenas do ponto de vista do trabalho forçado, mas também por meio da inferioridade do negro que realizava tais trabalhos. Dessa forma, o projeto de nação foi arquitetado de forma a deixar à margem de seus planos a população não branca.

Somava-se a esse contexto histórico um imaginário de que a abolição seria a solução definitiva para os problemas provocados pelo regime escravocrata sem que houvesse a necessidade de políticas direcionadas ao negro livre – o que acabou por gerar uma hierarquização social possível de ser verificada até os dias de hoje25. Nas palavras de Nóbrega e Daflon (2009): “dessa forma, foram deixados de lado os problemas de integração dos ex-

escravos e acreditou-se que imediatamente após a abolição imperaria a ‘harmonia racial’ no

Brasil” (NÓBREGA; DAFLON, 2009, p. 11). Por conseguinte, a opção pelo imigrante

europeu tornou-se a via mais agradável aos olhos de reformadores do final do séc. XIX, em função da crença em estereótipos26 que colocavam o negro como inapto ao trabalho

intelectual. Pensava-se que tal característica era decorrente da inferioridade racial e cultural da população negra, em oposição à eficiência e superioridade do europeu. Nesse sentido, o imigrante europeu, visto como uma saída viável para o problema sociorracial que o país enfrentava após a escravidão, conferiu maior impulsividade às teorias raciológicas sobre as quais discorremos no tópico anterior. Tais conceitos, que buscavam o status prestigioso de ciência para confirmar a inferioridade intrínseca a negros e índios em relação ao branco, ofereceram mais força a teorias que vislumbrassem a chamada ideologia do branqueamento. Segundo Domingues, (2003):

O branqueamento é uma categoria analítica que vem sendo usada com mais de um sentido. Ora ele é visto como a interiorização dos modelos culturais brancos pelo segmento negro, implicando a perda do se ethos de matriz africana; ora é definido

como o processo de “clareamento” concreto da cor da pele da população brasileira,

registrado, sobretudo, pelos censos oficiais e previsões estatísticas do final do século XIX e início do XX (DOMINGUES, 2003, p. 253).

Domingues (2003) esclarece, ainda, que o estatuto de ciência conferido ao ideal de branqueamento ocultava o racismo que trazia em sua essência, legitimando, então,

25 Para maiores informações sobre as desigualdades entre brancos e negros em nossos dias quanto ao mercado de

trabalho, escolaridade e outros setores, ver Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD Brasil: Relatório de desenvolvimento humano - Brasil 2005; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea:

Retrato das desigualdades de gênero e raça- 4ª Ed., 2011; ou ainda Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística- IBGE: Censo 2010.

26 Segundo Amossy (2011) a estereotipagem tenta passar por reais representações culturais e, dessa forma,

cristalizá-las no imaginário coletivo. A noção de estereótipo será desenvolvida no terceiro capítulo dessa dissertação, quando retomaremos o conceito com base em Amossy (2011).

políticas públicas que desamparavam ou excluíam a população negra e que carregavam a aparência de imparcialidade (DOMINGUES, 2003; JESUS, 2011; NÓBREGA; DAFLON, 2009). Nesse contexto, as primeiras experiências de imigração em larga escala se deram com europeus de origem germânica, passando então para os italianos. Estes últimos eram figurados como mais maláveis ao relacionamento com o povo brasileiro e, portanto, bastante adequados às características do país. Alguns excertos retirados dos jornais Correio da manhã e A província de São Paulo, atual O Estado de São Paulo, demonstram essa referida preferência pelo imigrante europeu, ocorrida desde fins do séc. XIX e chegando a prevalecer até momentos bastante recentes da nossa história, em fins da década de 1950.

Na Figura 1, vê-se um trecho de um artigo de 1884 em que é relevante o uso do

termo “problema” para se referir à substituição do braço escravo. Já o termo “escravidão” parece simbolizar uma metonímia para “negro”, dado que se pensava poder extirpar o negro

da sociedade após sucessivas relações com povos brancos; ademais, demonstra-se que a

“chaga da escravidão” não parece ser uma questão a ser resolvida de modo a inserir o povo

negro no mercado de trabalho ou na perspectiva de reeducação da população em geral sobre a inclusão do grupo liberto na sociedade. Em contrapartida, a cautela para que se estendessem incentivos econômicos para que o imigrante europeu se estabelecesse no país é bastante presente no trecho destacado:

Figura 1: trecho do jornal A província de São Paulo – 15 de fevereiro de 188427.

27 Proposta do Conselheiro Antônio Prado para o “problema da substituição do braço escravo”. Sessão ordinária

Já nas Figuras 2 e 3 a seguir, é possível notar que a busca por imigrantes perdurou ainda por muitos anos. Ambos os artigos são do ano de 1959 – já em meados do séc. XX:

Figura 2: trecho do artigo de Pimentel Gomes intitulado

“Imigrantes”. Jornal Correio da manhã - 29 de abril

de 195928.

Disponível em: http://midiacidada.org/deputado-propoe-solucao-definitiva-para-resolver-o-problema-da- substituicao-do-braco-escravo-tornar-o-europeu-um-proprietario-agricola/. Acesso em 20 de fevereiro de 2015.

Figura 3: trecho do artigo de Pimentel Gomes intitulado

“Colônias e imigrantes”. Jornal Correio da manhã- 9 de

junho de 195929.

Na Figura 2, conclusão do artigo intitulado Imigrantes, a valorização do europeu pode ser averiguada por meio da adjetivação positiva endereçada a esse grupo em comparação ao asiático. Nota-se também o medo de que o país fizesse a opção por incentivar a vinda de orientais ao Brasil em detrimento de europeus. Isso porque, quando se aproximava o fim da escravidão, tentava-se abafar quaisquer tentativas pelo imigrante chinês, já que este também era considerado de raça inferior, além de demonstrar incapacidade de assimilação cultural, na visão dos defensores da imigração europeia (AZEVEDO, 2008). Também é possível perceber

uma determinada repulsa pela terminologia “racismo”, dado que o autor se justifica dizendo

que a sua preferência não seria um caso de racismo, mas sim de afinidade do povo europeu com o brasileiro, somado ao fato de não se querer “quistos30”. Já na Figura 3, artigo do

29 Disponível em:

http://memoria.bn.br/

30 Em biologia, o termo quisto tem equivalência ao termo cisto, ou seja, o acúmulo de substância mole incrustada

em um órgão ou tecido (HOUAISS, 2009). No contexto do projeto imigrantista brasileiro, quisto étnico ou racial era uma referência a núcleos de imigrantes resistentes à assimilação cultural e linguística; medidas contra a formação de quistos foram operadas no Estado Novo. Interessante notar que tais agrupamentos ou quistos foram formados não só por japoneses, mas também por outros povos de origem europeia, como alemães e italianos, os quais, contudo, não eram atingidos pela campanha contra a formação de quistos étnicos. Ver: GERALDO,

Endrica. O combate contra os “quistos étnicos”: identidade, assimilação e política imigratória no Estado Novo.

mesmo autor e publicado no mesmo jornal, Gomes lastima os parcos recursos que o país destinava ao imigrante europeu. Assim, por serem indispensáveis ao desenvolvimento do país, mais recursos deveriam ser direcionados à população europeia para que se instalasse no Brasil.

Ainda de uma perspectiva econômica, a preferência pela mão de obra branca europeia em detrimento do negro liberto da escravidão, regime que durara mais de três séculos, Nóbrega e Daflon (2009) esclarecem que houve campanhas de desqualificação da mão de obra negra, de maneira que a esse grupo fosse dificultada a promoção de sua própria ascendência social:

a exemplo das indústrias paulistas na década de 1920, que segundo dados estatísticos coletados por Andrews (1991) aplicavam barreiras de forma absoluta e sem exceções para a ascensão dos negros de ocupações de colarinho azul para aquelas de colarinho branco. Mesmo os empregos industriais eram quase que exclusivamente reservados para trabalhadores brancos europeus. (NÓBREGA; DAFLON, 2009, p. 18).

Dessa forma, a crença no racismo científico e as barreiras impostas por essa ideologia fizeram com que os não brancos fossem relegados ao discurso meritocrático se quisessem se aproximar de posições sociais em que eram preteridos.

Os anos que se seguiram ao de 1930 foram de muita importância nos campos político e social, tornando obsoletas as políticas raciológicas desenvolvidas até então e trazendo a necessidade de uma nova leitura do Brasil (ORTIZ, 1994). É nesse contexto que o pensamento de Gilberto Freyre adquire importância, deslocando o conceito de raça para o de cultura, conforme Munanga (2008). É sobre essa mudança de perspectiva operada no imaginário racial de construção da nação que iremos discorrer a seguir.