Kövecses (2002), em seus estudos sobre a metáfora, afirma que, para a maioria das pessoas, ela é uma figura de linguagem, na qual uma coisa é comparada com outra. O autor cita o exemplo: Aquiles era um leão na luta. Nessa expressão metafórica, a metáfora é vista como uma figura de linguagem que implica a comparação entre duas entidades: um ser humano e um animal. Nesse caso, o termo leão está sendo usado metaforicamente para fazer referência a uma pessoa. Porém, segundo o autor, essa comparação é diferente do símile, que seria uma comparação explícita entre duas entidades, sinalizada pelo uso das palavras like ou as.33
Geralmente também diríamos que esta palavra é usada metaforicamente com o propósito de conseguir algum efeito artístico ou retórico ou para expressar uma emoção forte. O autor também explica que o que faz a identificação metafórica de Aquiles com um leão, na metáfora citada, são algumas características que possivelmente podem ser atribuídas a ambos: por exemplo, coragem e força.
Essa é uma leitura tradicional da metáfora, que, segundo Kövecses (2002), apregoa pelo menos cinco características gerais para esse fenômeno. A primeira delas é que a metáfora é uma questão de palavras, um fenômeno linguístico. No exemplo acima, o uso metafórico da palavra leão é uma característica específica da expressão linguística.
A segunda é que a metáfora é usada tendo em vista algum propósito artístico ou retórico, como visto na expressão all the world‘s a stage34, escrita por Shakespeare. A terceira característica é a base para a identificação da metáfora: a semelhança entre as duas
32 Para uma leitura de pesquisas que abordam essa multimodalidade na atualização de metáforas conceptuais,
sugerimos a leitura das teses de Carneiro (2012) e Ferreira (2015).
33Essas duas expressões correspondem ao vocábulo “como” em português. 34 todo o mundo é um palco.
entidades. No exemplo Aquiles era um leão na luta, a palavra só se torna metafórica em virtude de alguma semelhança que se possa encontrar entre Aquiles e os leões, como já mencionado anteriormente.
A quarta diz respeito ao uso consciente que se faz das palavras, geralmente proporcionado por pessoas com um talento especial para ser capaz de fazê-lo e fazê-lo bem. Assim, apenas grandes poetas ou oradores eloquentes, como, por exemplo, Shakespeare, poderiam obter esse êxito. Conforme explicita o autor, Aristóteles faz a seguinte declaração a esse respeito: “A coisa mais importante, sem dúvida, é ter o comando da metáfora. Este, por si só, não pode ser transmitido para outro; é a marca do gênio”.35
(KÖVECSES, 2010 [2002], p. IX e X.Tradução literal, nossa).
A quinta e última característica é que a metáfora é uma figura de linguagem prescindível, pois podemos usá-la para efeitos especiais, mas não como parte inevitável da comunicação e do pensamento humano do dia a dia.
Mas, a partir de Lakoff e Johnson (1980), essa visão se modificou. A metáfora passou a ser vista como parte não só da linguagem, mas também do pensamento. É importante ressaltar, conforme Kövecses (2002), que estes autores não foram os primeiros a perceberem essa função da metáfora, uma vez que inúmeros outros estudiosos, dentre eles Locke e Kant, por exemplo, já haviam percebido sua função cognitiva. Lakoff e Johnson (1980), no entanto, foram os primeiros a mostrar, a partir de vários exemplos, como esse sistema conceptual é atualizado a partir de expressões linguísticas metafóricas.
Apesar de posteriormente receberem críticas quanto ao método utilizado para o levantamento das metáforas conceptuais, por utilizarem exemplos de expressões inventadas, eles abriram caminho para que outros pesquisadores investigassem, por meio de corpora de linguagem real, a onipresença da metáfora em nosso sistema conceptual. De acordo com o autor, a novidade da TMC é que ela é uma teoria abrangente, generalizada e empiricamente testada.
É abrangente porque aborda várias questões relacionadas com a metáfora, como sua sistematicidade, a relação entre metáfora e outros tropos ou figuras de linguagem, seu caráter universal e sua especificidade cultural, a aplicação de seus postulados a variados tipos de discurso, a aquisição da metáfora, o ensino da metáfora no ensino de línguas estrangeiras, a realização não linguística da metáfora, dentre muitas outras.
35The greatest thing by far is to have command of metaphor. This alone cannot be imparted by another; it is the mark of genius.
É generalizada porque tenta unir nosso conhecimento sobre metáfora conceitual com o que sabemos sobre o funcionamento da linguagem, do sistema conceitual humano e da cultura. A visão de metáfora da Linguística Cognitiva pode, ainda, oferecer (e vem oferecendo) novos insights sobre como certos fenômenos linguísticos funcionam, a exemplo da polissemia e da emergência do significado metafórico, contrariando, dessa forma, a visão tradicional, segundo a qual a linguagem metafórica e o pensamento são arbitrários e desmotivados. A TMC apresenta um novo enfoque, defendendo que nossa experiência sensório-motora, portanto corporal, motiva tanto a linguagem metafórica como o pensamento. Grady (1997) mostra como nossas experiências e julgamentos subjetivos são apreendidos através de metáforas primárias.
A TMC é, ainda, uma teoria empiricamente testada. Vários pesquisadores têm usado experimentos diversos para testar a validade das principais reivindicações dessa teoria, comprovando sua eficácia psicológica, que ajuda tanto na produção de novas palavras e expressões, como também na organização do pensamento humano. De um modo geral, a metáfora desempenha um papel fundamental na compreensão e no raciocínio humano, além de ajudar na criação de nossa realidade social, cultural e psicológica.
O autor também chama a atenção para o princípio da unidirecionalidade da metáfora. Dado que, na maioria das vezes, um conceito mais concreto é utilizado como domínio fonte para explicar um domínio alvo, geralmente mais abstrato, o inverso não ocorre. Ou seja, o mapeamento metafórico acontece sempre partindo dos aspectos do domínio fonte para a caracterização do domínio alvo. Se pensarmos nos exemplos já mencionados de conceitos metafóricos, os domínios AMOR, TEMPO, TEORIAS, e DISCUSSÃO, por exemplo, são conceitos abstratos, que são caracterizados geralmente por conceitos mais concretos, como VIAGEM, DINHEIRO, EDIFÍCIOS e GUERRA, respectivamente. Ou, ainda, por direções espaciais, como para cima/para baixo, nos exemplos FELIZ É PARA CIMA/TRISTE É PARA BAIXO.
Ele ressalta a existência de um conjunto de correspondências sistemáticas ocorrendo entre os dois domínios A e B (alvo e fonte, respectivamente) no processo metafórico, de modo que elementos do domínio conceptual fonte correspondem a elementos do domínio conceptual alvo. Por isso, afirma-se que “A é entendido em termos de B” (KÖVECSES, 2002, p. 6).
Essas correspondências conceptuais são chamadas de mapeamentos, como já mencionado anteriormente. Na expressão linguística “Não estamos indo a lugar nenhum”
que atualiza a metáfora AMOR É VIAGEM, já discutida, o autor observa que pelo menos três elementos constituintes do domínio das viagens estão envolvidos na caracterização do domínio do amor: os viajantes, a viagem em si e o destino. Ressalte-se que ele chama a atenção para a contextualização da expressão. Esse entendimento de amor em termos de viagem é alcançado quando ouvimos a expressão em um contexto apropriado. Assim, sabemos que se fala de amor, em vez de viagens no sentido literal do termo. O autor oferece o seguinte quadro de mapeamentos, relacionando as correspondências entre as entidades nos domínios, sempre das mais concretas para as mais abstratas:
Fonte: VIAGEM Alvo: AMOR os viajantes ⇒ os amantes
o veículo ⇒ a própria relação amorosa a viagem ⇒ viagem no relacionamento a distância percorrida ⇒ os progressos realizados os obstáculos encontrados ⇒ as dificuldades sentidas decisões sobre qual caminho seguir ⇒ escolhas sobre o que fazer o destino do percurso ⇒ o (s) objetivo (s) da relação
É importante ressaltar, conforme o autor, que esse conjunto de correspondências não é pré-existente aos conceitos, mas é “criado”. As entidades do domínio das viagens não correspondem sempre às entidades do domínio do amor. Nas palavras do autor:
O domínio do amor não tinha estes elementos antes de ser estruturado pelo domínio da viagem. Foi a aplicação do domínio viagem para o domínio amor que forneceu o conceito de amor com esta estrutura particular ou conjunto de elementos. De certa forma, foi o conceito de viagem que "criou" o conceito de amor. (KÖVECSES, 2002, p. 7, grifo do autor, tradução literal, nossa)36.
Essa explicação justifica a possibilidade do uso de mais de um domínio fonte para estruturar um único domínio alvo. Nesse exemplo, o domínio do amor não é estruturado independentemente e antes do domínio de viagem, mas em função dele. Em outra metáfora, como AMOR É GUERRA, por exemplo, as correspondências serão outras, assim como as intenções do falante/escritor, o contexto, os aspectos a serem realçados etc.
36 The domain of love did not have these elements before it was structured by the domain of journey. It was the
application of the journey domain to the love domain that provided the concept of love with this particular structure or set of elements. In a way, it was the concept of journey that “created” the concept of love.
Kövecses explica, ainda, a importância da metáfora conceptual para a resolução de enigmas, citando o mito de Édipo. Esse mito se resume como segue: Édipo, no caminho de Tebas, encontra-se com a Esfinge, um monstro, que lança um desafio a todos que pretendem entrar na cidade, devorando-os, caso não consigam solucioná-lo. O enigma consiste em saber “Qual é o animal que tem quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à noite”. Em resposta, Édipo responde que é o homem, que “na infância engatinha, que caminha ereto na maturidade, e na sua velhice apoia-se com uma bengala”. (KÖVECSES, 2002, p. 9).
Afirma o autor que, pelo menos, duas metáforas conceptuais foram utilizadas na resolução desse enigma. Uma delas é A VIDA DOS SERES HUMANOS É UM DIA, que permite os seguintes mapeamentos entre os domínios: manhã corresponde à infância, meio- dia à fase adulta e noite, à velhice. A segunda metáfora é A VIDA HUMANA É UMA VIAGEM, evocada pela menção repetida aos pés, facilitando, assim, a solução do enigma. Esta metáfora é evocada também pelo sentido geral do mito de Édipo, que, em sua maior parte, narra a vida desse personagem em suas viagens.
Esse autor também apresenta uma contribuição na consideração sobre metáfora viva e metáfora morta. Do ponto de vista clássico, as metáforas convencionais são consideradas mortas, uma vez que não são percebidas enquanto metáforas. As pessoas falam sem perceberem que estão falando metaforicamente, motivo pelo qual se pensou por muitos anos que apenas a linguagem literária estaria impregnada de metáforas.
Pelo contrário, defende o autor, justamente por estarem enraizadas em nosso sistema cognitivo, portanto usadas sem esforço, é que essas metáforas estão mais ativas em nosso pensamento, mesmo que dificilmente notadas. Por isso, estão vivas, “elas governam nosso pensamento: são „as metáforas pelas quais vivemos.‟” (KÖVECSES, 2010, p. xi)
O teórico usa como exemplo a metáfora MENTE É MÁQUINA, que é atualizada por expressões corriqueiras, tais como: “Como poderia algum homem compreender o funcionamento da mente de uma mulher?” ou “O café estava perfeito e na hora que eu estava na metade da minha primeira xícara meu cérebro estava funcionando muito mais rapidamente.”
Lakoff e Johnson (2002 [1980]) nos apresentam várias outras expressões que atualizam essa mesma metáfora: “Ainda estamos remoendo a solução para essa equação.”, “A minha mente simplesmente não está funcionando hoje”, “Estou um pouco enferrujado hoje”. Ou mesmo a metáfora MENTE É UM OBJETO QUEBRADIÇO, atualizada por
expressões, como “O seu ego é muito frágil”, “Ele desmoronou sob interrogatório”, “A experiência o despedaçou”, “Eu estou em pedaços” e “A sua mente pifou”. Esta metáfora é usada com frequência, tanto por pessoas comuns como por cientistas. Há até a utilização do computador como metáfora para a mente. Dessa forma, não podemos dizer que essas metáforas estão mortas, mas presentes na linguagem comum do dia a dia.
Por outro lado, as metáforas que são consideradas vivas pelos clássicos, as presentes, por exemplo, no discurso literário, que chamam a atenção do leitor por seu caráter criativo e inédito, são, em sua maioria, expressões linguísticas novas, como discutimos anteriormente. Tanto as metáforas novas como as expressões linguísticas metafóricas novas chamam a atenção, mas não podem ser consideradas mais vivas que as convencionais.
Ainda de acordo com Kövecses (2010 [2002]), conceitos como discussão, amor, teorias, ideias, organizações sociais e vida são todos compreendidos metaforicamente, através de expressões linguísticas metafóricas convencionais. Ressalte-se que na TMC o termo convencional tem o sentido de “bem estabelecido, enraizado”, que não é percebido pelos falantes como metafórico. Não confundir com o sentido “arbitrário” presente em outras abordagens, tais como a semiótica e a filosofia da linguagem, acrescenta o autor.
Quando esses conceitos são usados no dia a dia, os falantes comuns geralmente usam as expressões defender para se referirem a argumentos, construir para falarem sobre teorias, seguir caminhos separados, falando sobre uma relação amorosa, crescer quando falam de uma empresa, digerir para se portarem à ideia, ou bom começo em conexão com a vida. É nesse sentido que se afirma que os conceitos mais básicos da língua são metafóricos. Uns fornecem elementos para a compreensão de outros, num processo constante de atualização, tendo em vista as necessidades discursivas.
O autor discute, ainda, a existência de metáforas de nível genérico e de nível específico. Metáforas como: EVENTOS SÃO AÇÕES, GENÉRICO É ESPECÍFICO, por exemplo, são consideradas como genéricas, pois abrangem uma imensa quantidade de metáforas mais específicas. Os conceitos de morte, amor, inflação, doença, entre outros, são de nível específico. São conceitos que atualizam, portanto, metáforas específicas, mas que podem ser inclusos numa mesma metáfora mais genérica, EVENTOS SÃO AÇÕES.
Enquanto os conceitos genéricos apresentam características comuns a várias metáforas, os conceitos específicos ressaltam características particulares. Na metáfora para o conceito morte, por exemplo, há uma caracterização desse evento como uma entidade,
especificamente um ser humano, que envelhece ou fica doente, e, consequentemente, deixa de existir. Acrescenta o autor que a estrutura geral da morte compartilha a estrutura do evento genérico. A morte, como uma entidade, passa por alguma mudança, decorrente de alguma força – tempo/idade ou doença.
Já a metáfora GENÉRICO É ESPECÍFICO, conforme o autor, ajuda a interpretar provérbios e outras frases-clichês. No provérbio “The early bird catches the worm.”37, as
expressões “bird”, “catches” e “worm” são todas de nível específico, mas se referem a atividades de forma genérica. A expressão “early bird” se refere a alguém que faz algo antes das demais pessoas, “catch” é obter alguma coisa e “worm” é conseguir algo antes dos outros conseguirem. Não é apenas o pássaro que acorda cedo que conseguirá capturar os vermes, mas as pessoas em geral que se esforçarem conseguirão obter êxito em suas atividades. Dessa forma, uma expressão específica permite uma interpretação em nível genérico, caracterizando, assim, a metáfora GENÉRICO É ESPECÍFICO.