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Na Antiguidade Clássica, no período greco-romano, os tratamentos são realizados na sua maioria nos templos (EACHERN, 1951 apud PECCIN, 2002). Na Grécia antiga podemos assinalar três tipos de edifícios que prestavam cuidados de saúde:

Os públicos – destinadas a doentes, idosos e estrangeiros;

Os privados – as próprias casas dos médicos possuíam a latreia para os seus próprios pacientes;

Os religiosos – os edifícios destinados à saúde, os Aesculapius (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008; MANDAT, 1989 apud BOING, 2003).

Na Grécia os templos ajustavam-se harmoniosamente à paisagem, preferencialmente, junto a linhas de água e afastados dos aglomerados urbanos, o que lhe dava monumentalidade e imponência. Os edifícios gregos dedicados à cura eram templos dedicados ao deus Asclépio3, chamados de Aesculapius e inseriam-se em zonas de lazer e tratamento (PECCIN, 2002). Os Aesculapius foram os primeiros estabelecimentos destinados à cura terapêutica e divina, existiam áreas cobertas com colunatas que circundavam o templo, as stoas, nas quais os pacientes estavam abrigados e aguardavam assistência (EACHERN, 1951 apud PECCIN, 2002). Este templo, para além da estátua de Asclépio, possuía tanques para abluções e banhos de vapor, compartimentos fechados para consultas, zonas abrigadas para repousos (abaton) e possuía dois pórticos: um reservado aos sacerdotes e o outro era utilizado pelos doentes (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008). Por norma, o templo a Asclépio apresentava nas imediações edificado que detinha outras funções: termas, jardins, teatro, ginásio e biblioteca, uma vez que o processo de cura implicava transformações ao nível do corpo e do espírito (FERGUSON, 2003). Um exemplo destes templos dedicados à cura é o Aesculapius da Ilha de Cós (Figura 2). O culto a Asclépio é traduzido no Império Romano com o culto a Esculápio, e assim os princípios gregos são seguidos em edificações romanas dedicadas à

3 Asclépio – Teve sua origem na mitologia grega e era visto como o deus da saúde, representado com

uma serpente enroscada num pau (caduceu) que é a insígnia atual da Associação Mundial de Médicos. É chamado de Esculápio na mitologia romana (OLIVEIRA, 1982).

saúde. No período romano, surgiram outros edifícios que prestavam cuidados à saúde: as valetudinárias4 e as termas (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008).

Figura 2 – Templo de Asclépio, Grécia, ilha de Cós, séc. IV a.C., (a) planta, (b) perfil e (c) perspetiva. Fonte: MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008.

A valetudinária é o hospital militar dos fortes das legiões romanas e ocupava uma implantação central em relação ao conjunto (ENCYCLO, [s.d.]). Na maioria dos casos, os fortes romanos localizavam-se junto às longas estradas romanas e próximos das fronteiras do Império, assim, este hospital acolhia e cuidava os militares doentes e feridos, em detrimento da população em geral

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MATOS, 2008). Como podemos ver na Figura 3, o seu programa era básico e constituído por dois retângulos concêntricos em relação a um pátio retangular, entre os quais existia o corredor de circulação. Os pequenos compartimentos serviam como quartos para os doentes e os compartimentos maiores, junto à entrada, eram zonas de tratamento. Estes quartos são os primeiros locais onde os doentes podiam pernoitar (BOING, 20003).

Figura 3 – Planta da valetudinária de Windisch, Suíça, séc. I d.C.. Fonte: MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008.

A água também era muito valorizada no Império Romano, muito dos tratamentos eram feitos à base de abluções termais. À semelhança dos gregos, a terma cuidava das mazelas do corpo mas não se dedicava exclusivamente à prestação de cuidados de saúde, também é um local de lazer. As termas eram acedidas por meio de um grande pátio e eram munidas de vestiários, salas de repouso, piscina descoberta, salas de banho (caldarium e frigidarium) e sauna (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008). As grandes termas municipais podiam incluir latrinas, salas de estar, biblioteca, salas de música, palestra ou ginásio (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

Na Alemanha, as termas de Badenweiler (Figura 4) têm uma forma simétrica, sendo compostas por quatro piscinas de banhos quentes e frios, sauna e vestiários (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008).

Figura 4 – Planta das Termas de Badenweiler, Alemanha, 70 d.C.. Fonte: MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008.

Em Portugal podemos referenciar as termas do Aqueduto (Figura 5) e as termas da Muralha (Figura 6) de Conímbriga. A planta das termas do Aqueduto aproxima-se do tipo II de Kreencher, ou seja, é sequencial angular (KREENCHER, 1929 apud CORREIA & REIS, 2000). Na planta destaca-se um volume de quatro absides5, inscritas num quadrado, anexo ao restante do edifício. O acesso seria feito pelo apodyterium6 que ligava, diretamente, ao frigidarium7 com um alveus8 de água fria, bastante profundo (CORREIA & REIS, 2000). Do frigidarium, o banhista poderia deslocar-se à natatio9, ou poderia aceder à zona aquecida, construída como

um bloco independente que era composto por dois pares de absides (CORREIA & REIS, 2000).

5 Abside - Construção de planta semicircular, coberta por abóbada (MUSEU MONOGRÁFICO DE

CONÍMBRIGA, [s.d.]).

6 Apodyterium - Sala das termas, próxima da entrada (normalmente a primeira sala) que servia de

vestiário (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

7 Frigidarium - Compartimento frio dos balneários. Inclui frequentemente a natatio (MUSEU

MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

8 Alveus – Banheira (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

9 Natatio - Tanque de água fria, ao ar livre ou no frigidarium, onde se podia nadar (MUSEU

O primeiro par de absides, mais próximas do frigidarium, formam o tepidarium10, com um alveus de água tépida e a Suspensura11 é feita com pequenos arcos (CORREIA & REIS, 2000). O outro par de absides repete o esquema do tepidarium e forma o caldarium12, o qual é

diretamente aquecido por uma fornalha de corredor (CORREIA & REIS, 2000). A Oeste do complexo localizavam-se as zonas de serviço e o exterior seria ajardinado (CORREIA & REIS, 2000). Estas termas, embora tivessem uma dimensão reduzida, a sua disposição e o grande frigidarium sugerem que se tratasse de termas públicas (CORREIA & REIS, 2000).

Figura 5 – Termas do Aqueduto, Portugal, Conímbriga, fins do séc. II ou inícios do séc. III d.C.. Fonte: MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.].

As termas da muralha têm uma implantação urbana marginal mas localizam-se junto ao forum13 municipal pelo que o seu sistema construtivo, ordenação e decoração interna se

assemelha ao do fórum (CORREIA & REIS, 2000). As termas apresentam um esquema sequencial axial, do tipo I de Kreencher (KREENCHER, 1929 apud CORREIA & REIS, 2000) e distribuem-se em dois sectores: uma zona masculina e uma zona feminina. As termas femininas teriam um acesso por meio de um espaço retangular, destruído pela muralha, que agruparia as funções de entrada e apodyterium, e que por sua vez comunicava com o frigidarium e com o caldarium (CORREIA & REIS, 2000). O frigidarium feminino separaria as termas femininas e das masculinas, e seria um espaço de planta retangular não aquecido ou aquecido indiretamente pelas condutas do laconicum14, justaposto ao caldarium feminino

10 Tepidarium - Compartimento semi-aquecido dos balneários (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA,

[s.d.]).

11 Suspensura - Pavimento suportado por pilares ou arcarias (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA,

[s.d.]).

12 Caldarium - Sala aquecida das termas destinada ao banho quente (MUSEU MONOGRÁFICO DE

CONÍMBRIGA, [s.d.]).

13 Forum - Centro monumental da vida política, mundana, cultural e religiosa de uma cidade (MUSEU

MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

(CORREIA & REIS, 2000). Este caldarium era constituído por uma suspensura sustentada por arcos feitos em tijolo (bipedalis) sobre a qual assentava um nível de imbrex15 e era aquecido

por um praefurnium16, acessível por um corredor estreito que ligava a um pequeno espaço

quadrangular (CORREIA & REIS, 2000). Não é visível um acesso exclusivo às termas femininas, pelo que se presume que os espaços abertos como a natatio, a palestra e o laconicum seriam comuns a ambos os sexos (CORREIA & REIS, 2000). As termas masculinas desenvolvem-se sequencialmente: primeiro o frigidarium, tepidarium de suspensura sustentadas por pequenos pilares em tijolo onde assentavam os arcos e um caldarium de planta quadrangular aquecido por duas fornalhas (CORREIA & REIS, 2000). Um espaço circular era aquecido por uma fornalha em “L” e formava o laconicum, acessivel pelo tepidarium masculino, e a área de serviço das termas masculinas situa-se a Este do complexo, na qual existe um pequeno tanque (CORREIA & REIS, 2000).

Figura 6 – Termas da Muralha, Portugal, séc. I d.C..Fonte: MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.].

No Oriente, os mosteiros budistas do século III a.C. hospedavam peregrinos e gradualmente acumularam a função de abrigo aos mais necessitados e doentes (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008). O caracter caridoso continua a difundir-se com o Cristianismo e em 325 d.C., com o Concílio de Nice, a Igreja recomenda que cada paróquia assegure um local de abrigo a peregrinos, doentes e pobres, um xenodochium (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008; MANDAT, 1989 apud BOING, 2003).

Um exemplo deste tipo de edificação é o xenodochium de Pammachius17, situa-se em Roma, mais especificamente em Óstia Antica, uma cidade costeira do Imperio Romano. Construído no século IV o xenodochium de Pammachius justapõe-se a uma basílica clássica por um dos lados e mantém a forma das valetudinárias (MIQUELIN, 1992a apud MATOS, 2008). A basílica

15 Imbrex - Telha em forma de meia cana que cobria cada união de duas tegulae, telha retangular com

rebordos laterais (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

16 Praefurnium – fornalha (MUSEU MONOGRÁFICO DE CONÍMBRIGA, [s.d.]).

clássica é constituída por três naves e duas absides, em que numa delas se situa o batistério. O xenodochium é constituído pelo pátio, que lhe dá a forma, e por três volumes nos quais se localizam os internamentos.

Figura 7 – Planta da basílica cristã com o xenodochium de Pammachius, séc. IV a.C.. Fonte: LUGLI & FILIBECK, 1935.