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“Les emotions ne sont pas seulement fabriquées par l’histoire, eles fabriquent aussi l’histoire”

(Ote Frevert)

O espaço privado e íntimo define-se por oposição ao espaço “público”. Um espaço onde reinam as relações íntimas que correspondem a interações que visam objetivos particulares e a defesa de interesses singulares (Kellerhals e Modak, 1997). O espaço doméstico é, aqui, entendido como um espaço, fisicamente delimitado, onde se conjugam

intimidade e privacidade dos sujeitos.

É na esfera das relações íntimas que Honneth, na Luta pelo reconhecimento ([1993] 2011]) identifica a primeira forma de reconhecimento mútuo: o amor. Como vimos anteriormente, as relações de amor são, por este autor, entendidas por todas as relações

primárias (íntimas, família e amizade) na medida em que se constituem por fortes ligações sentimentais entre um grupo reduzido de pessoas e é por isso que o primeiro nível de

reconhecimento recíproco lhe é atribuído.

Reciprocamente, os sujeitos reconhecem-se enquanto seres necessitados; numa

experiencia reciproca de dedicação amorosa ambos os sujeitos identificam-se na

dependência mútua desta necessidade. Aceitar a autonomia do outro consegue-se através da

segurança sentimental de que a pessoa amada irá manter a sua posição mesmo quando

conquista a sua independência. Na relação de amor o reconhecimento significa um duplo processo de simultânea libertação e vinculação emocional em relação à outra pessoa.

É na experiência intersubjetiva do amor, primordialmente ligada à relação entre mãe e filhos/as, que se formula a base da confiança emocional necessária a qualquer sujeito ao longo do seu percurso social; uma precondição psicológica que promove o desenvolvimento do amor próprio. As expressões de afetos nas relações amorosas e nas relações de amizade levam à autoconfiança indispensável à concretização das necessidades básicas e urgentes.

Quando pensamos no trabalho doméstico e nas diversas tarefas associadas a este, podemos compreender o importante papel que a trabalhadora doméstica poderá ter, por exemplo, na promoção do amor-próprio de uma criança quando esta lhe for confiada, mas

também serão claros os efeitos na própria identidade desta trabalhadora ao trabalhar na esfera doméstica, dado que esta forma de reconhecimento acompanha toda a vida de um sujeito.

A esfera das relações íntimas das trabalhadoras domésticas não é, aqui, alvo de estudo. Não temos dados que nos possam dizer se ao longo da sua vida sofreu formas de desrespeito primárias (na infância) ou secundarias (na vida adulta, nas suas relações amorosas e íntimas), até porque o estudo centra-se numa categoria laboral.

O que pretendemos evidenciar neste estudo são as formas de reconhecimento que esta trabalhadora procura ao trabalhar na esfera das relações íntimas do outro. Para isso é necessário ter em conta as formas de reconhecimento primárias que se estabelecem por, inevitavelmente, poderem-se sobrepor às meras relações de trabalho características da esfera do mercado laboral.

Dada a ausência de reconhecimento na esfera do mercado laboral e a ausência de reconhecimento do valor da produção deste trabalho numa esfera pública, existem sérias restrições à liberdade social da trabalhadora. Partindo do pressuposto que existe sempre uma procura de reconhecimento nas interações sociais é necessário aprofundar as características inerentes a um espaço doméstico, onde se desenrola a atividade laboral.

Apesar de ser a esfera íntima do outro não deixa de ser a esfera íntima, onde a forma primária de reconhecimento mútuo acontece no jogo das interações em que a trabalhadora é participante. Sendo o amor a forma primária de reconhecimento mútuo, é nesta esfera das relações íntimas que Honneth identifica as consequências mais profundas da ausência de reconhecimento.

São marcas profundas porque afetam a própria personalidade da pessoa envolvida nas interações desta esfera; não apenas autoconfiança (que se estabelece no processo de auto- relacionamento prático) como se assistem, por vezes, a formas de desrespeito (maus tratos e violações), ou ainda porque podem ocorrer situações que ameaçam a integridade física da pessoa envolvida.

Sendo que as trabalhadoras domésticas trabalham nesta esfera, no espaço privado, isolado e protegido de uma esfera pública, e considerando a regulamentação típica de uma esfera do mercado laboral, situações comprometedoras ocorrem com frequência, tal como já referido por inúmeros autores. Para além disso, muitas vezes, as tarefas que incluem cuidados e serviços pessoais fazem parte das funções quotidianas destas trabalhadoras. Daí que nesta esfera as formas primárias de desrespeito sejam mais susceptíveis de ocorrer nesta atividade do que em qualquer outra na esfera do mercado laboral (Chamberlian, 2010).

Na sua obra Freedom’s right, Honneth ([2011] 2014) acaba por mencionar o amor no contexto das novas características que identifica nas sociedades modernas e no panorama da sua análise sobre a liberdade social. Na sua reconstrução normativa, virada para o desenvolvimento social, Honneth identifica o amor através da sua institucionalização na sociedade; para isso fala-nos da família, relações íntimas e amizade e analisa-as como variantes da liberdade social.

Para analisar as interações sociais que decorrem na esfera doméstica, sob a perspetiva de formas de reconhecimento mútuo, é essencial dar conta de importantes transformações que se fizeram notar no amor com a transição para a esfera moderna. Não apenas por se tratar, aqui, de uma esfera das relações íntimas, mas sobretudo porque o trabalho de quem presta este tipo de serviço interfere nas mesmas. Esta interferência é física e psicológica por se tratarem de pessoas e da privacidade das mesmas.

Toda a literatura acerca do amor visa mostrar o quanto esta experiência serve para expandir a personalidade de cada um, a relação com o próprio eu (self) e com o mundo. Há uma liberdade implícita no amor, que derruba os obstáculos a todas as restrições, graças à união física.

As transformações na esfera do mercado laboral, o mercado competitivo em que homens e mulheres procuram atingir os seus objetivos na constante procura pelo seu reconhecimento, proporcionaram as condições para uma sociedade individualista. Este novo panorama tende a alterar as relações íntimas e a forma como se vive o amor.

O amor romântico desvanece na origem de um amor moderno; a competitividade e novas exigências de uma esfera do mercado laboral afetam as relações de longa duração. A procura do reconhecimento mútuo numa relação amorosa tende a libertar-se das garras de uma regulação do mesmo, através das instituições como o casamento (Honneth [2011] 2014: 155), instituição esta que promove uma contradição na forma como se vive o amor moderno, mais emancipado e livre de maior regulamentação.

Os novos casais são donos das suas próprias leis, fabricam-nas e regem-se por estas: “the individuals who want to live together are, or more precisely are becoming, the legislators of their own life, the judges of their transgressions, the priests who absolve their own sins and the therapists who loosen the bonds of their own past.” (Beck e Beck-Gernsheim; [1995] 2004: 5). São únicos legisladores das suas próprias decisões, vidas e amores; gerem um quotidiano em que as práticas normativas tendem a adequar-se às novas estruturas sociais, mas não possuem os instrumentos para as concretizar.

A entrada das mulheres no mercado laboral do trabalho impulsionou novas formas de viver um quotidiano que era regido por normas da divisão sexual do trabalho. O homem, bem como a mulher, tendem a adaptar-se aos novos valores fornecendo um maior esforço individual na procura de satisfazer os seus desejos e necessidades. No quadro de uma sociedade de consumismo em que a variedade de escolhas acaba por afundar os sujeitos, emerge a necessidade de se procurar respostas à existência e significado da vida.

A nova era literária em os livros de autoajuda inundam as livrarias, sugere que se faça um exercício de maior introspeção, e que se procure a felicidade interna, que se analise o eu procurando formas de libertação. Estas condições fomentam alterações importantes na forma como se vive uma relação amorosa (Beck e Beck-Gernsheim; [1995] 2004, Ollouz, 2006 e Ollouz [2011] 2012). A estabilidade emocional e mental depende do apoio de outros o que significa que o amor ganha um papel significativo na nossa vida.

Para Ollouz é a própria estrutura do reconhecimento que transforma as relações amorosas modernas e este reconhecimento atinge a identidade pessoal (e Ollouz [2011] 2012). Existe uma maior dificuldade em se atribuir um valor a si próprio, sendo que o sentimento deste valor pessoal é extremamente importante nas relações amorosas modernas. O valor social que é atribuído na interação com o outro através de rituais de reconhecimento apropriados. O reconhecimento leva, assim, a uma consolidação e das reivindicações do outro que, por vezes, são cognitivas e por vezes afetivas. No reconhecimento o valor social e o valor pessoal do sujeito são continuamente estabelecidos na relação com outros e através destes.

O amor aparece, assim, como âncora ao reconhecimento (Ollouz [2011] 2012), à perceção e constituição do valor próprio do eu, num quadro em que o valor social é incerto e constantemente negociado.

Interessou-nos aprofundar o amor moderno para melhor compreender o espaço doméstico e as próprias transformações sociais. Mas não só. Embora as relações amorosas não tenham aqui um papel prioritário ajudam-nos a melhor compreender de que forma os sujeitos modernos percecionam o seu valor na sociedade.

Ao estudar uma atividade que se desenrola na esfera íntima das relações, que é socialmente desvalorizada, não reconhecida e estigmatizada, é importante ter em conta os recursos que as trabalhadoras vão ter para se fazer valorizar. Dado que uma das maiores dificuldades com que os sujeitos se deparam nas sociedades modernas é a de se fazer valorizar ou, melhor, de se verem valorizadas pode-se compreender a dificuldade sentida por estas trabalhadoras em ultrapassar uma ausência de estima social.

Num contexto de desvalorização e estigmatização proclamada numa esfera pública, legitimada numa esfera do mercado laboral é na esfera das relações íntimas que as trabalhadoras tentam encontrar forma de se sentirem reconhecidas. É neste contexto que o reconhecimento acaba por estar bem mais próximo das interações sociais e que será sentido em maior profundidade através de mecanismos emocionais que irão ser desabrochados na interação.

Na esfera pública, a trabalhadora sofre de uma ausência de reconhecimento por parte do outro que não a vê ou que promove formas de desrespeito ao estigmatizar a sua atividade; o grau de desvalorização é tão elevado que quando reconhece-se a pessoa e a trabalhadora na esfera íntima onde decorre a ação, este reconhecimento é sentido como uma forma de “amor” ou “amizade”. Variantes, estas, institucionalizadas de liberdade.

Dado que a procura do valor individual é constante e estando a analisar uma atividade que se encontra à margem dessa valorização, projetando adicionais obstáculos à própria

autoestima destas trabalhadoras (autoestima que, como vimos, provém de uma esfera íntima e

da relação de amor primária), o reconhecimento terá que ser analisado tendo em conta a componente emocional estabelecidas nas relações sociais.

No âmbito das interações sociais estabelecidas, identificaremos algumas situações de

gestão emocional que serão realizadas pelas trabalhadoras na procura pelo seu

reconhecimento. Se adotarmos a conceção teórica de Hochschild em que as emoções são tidas como um dos nossos principais sentidos (in Bendelow e Williams, 1997: 6), poderemos compreender melhor de que forma as trabalhadoras domésticas reaprendem a relação do seu “eu” com o mundo. A cultura de uma sociedade age de forma ativa e não passiva na construção do que se é esperado sentir; sentir este, que não é mais do que a interiorização de uma norma emocional partilhada, tal como admite Hochschild quando nos fala de “feeling rule” . Se o estudo das emoções é pertinente em qualquer contexto de análise social, aqui, neste estudo, e dada as particularidades que esta atividade envolve, salienta-se esta pertinência.

Breve nota conclusiva

É com base nos pressupostos teóricos de Honneth que se pretende olhar para a realidade do trabalho doméstico e para a procura por reconhecimento realizada pelas trabalhadoras domésticas. Tendo por base três esferas de ação veremos de que forma, em cada uma delas, trabalhadoras vivem a sua atividade laboral na procura de reconhecimento.

Sendo a procura de valor individual uma característica das sociedades modernas, questionamos de que forma estas trabalhadoras que vivem uma atividade socialmente desvalorizada e estigmatizada ultrapassam os obstáculos prosseguindo o seu caminho.

Ao estudar o reconhecimento numa atividade socialmente desvalorizada e estigmatizada em que os graus de reconhecimento na esfera do mercado laboral e esfera pública deverão, à partida, ser reduzidos, focaliza-se um olhar sobre a esfera das relações íntimas. Parte-se da hipótese de que será nesta que a trabalhadora doméstica irá tentar conquistar o seu reconhecimento.

Na tentativa de apresentar uma reconstrução sociológica do reconhecimento no trabalho doméstico veremos de que forma as três esferas se encontram interligadas e como este panorama irá ditar novas formas de reconhecimento.

PARTE III – A realidade do reconhecimento no trabalho doméstico