Foram realizadas análises dos RepGrids individuais e dos aspectos comuns entre os RepGrids, como exposto na figura 12. Para tanto, necessitou-se da utilização de dois softwares específicos: a) RepGrid IV, na versão 1.11 Personal Version; e b) SPSS 13.0 (Service Package for the Social Sciences).
A análise individual é iniciada com o lançamento da matriz que contém os construtos, os elementos e as avaliações dos mesmos no software RepGrid IV. Esse programa dispõe os dados no formato de grade de repertórios. Aproveitou-se essa grade para identificar, com asteriscos, os pólos de preferência relacionados pelos entrevistados durante a entrevista.
Com base na grade de repertórios de cada entrevistado, avaliou-se o número de construtos citados por ele, bem como sua diferenciação, as quais, referem-se, respectivamente à diferenciação e à complexidade cognitiva (TAN e HUNTER, 2002). Na seqüência, realizou-
se uma análise estatística descritiva dos dados da matriz previamente montada, para se avaliar as preferências do entrevistado. Para a realização da análise estatística descritiva, todos os dados foram lançados no SPSS, dispondo as notas dadas aos elementos nas linhas e as notas dadas aos construtos nas colunas. O SPSS reconhece os construtos como variáveis e os elementos como casos (BELL, 1997). Tendo em vista que as avaliações utilizaram uma escala de 1 a 5 em número naturais, como sugerido por Tan e Hunter (2002) e Wright (2004a), os construtos com médias inferiores a 3 indicam maior predisposição do entrevistado pelo pólo da esquerda, enquanto que valores superiores a 3 indicam preferência pelo pólo da direita (BELL, 1997). Essas preferências identificadas na análise descritiva retratam a prática atual do estrategista em sua empresa. Foram comparadas com os pólos de preferência identificados pelo dirigente em questionamento realizado durante a entrevista, os quais haviam sido registrados com asteriscos na grade de repertórios disposta previamente e representam as aspirações do entrevistado.
Tendo sido avaliados os pólos de preferência do entrevistado, parte-se para a simplificação dos construtos, de forma a obter alguns componentes principais que representem os demais. Dessa forma, utilizou-se a análise dos componentes principais para identificar os fatores que respondem pela maior parte da variância dos construtos. “A análise dos componentes é usada quando o objetivo é resumir a maior parte da informação original (variância) a um número mínimo de fatores para o propósito de previsão” (HAIR et al., 2005, p. 99).
A identificação dos fatores utilizados pelos estrategistas quando da construção das estratégias organizacionais preconiza a existência de um grande número de variáveis inter- relacionadas, sem uma determinação causal de dependência, o que caracteriza a necessidade de uma abordagem de interdependência.
Considerando o objetivo do estudo, apesar de já existir uma extensa literatura a respeito da formulação e formação das estratégias organizacionais, não há robustez teórica quando se aborda a organização das diversas variáveis existentes na mente do estrategista no momento em que este confere sentido ao seu conhecimento para a construção das estratégias organizacionais. Dessa forma, a identificação das heurísticas dos alto executivos na determinação dos rumos organizacionais será marcada por uma análise de caráter exploratório e não confirmatório.
Complementarmente, tem-se que o objetivo do estudo a ser realizado é identificar a estrutura por meio de dados, tendo em vista que se pretende evidenciar as dimensões latentes – e não grupos de uma população maior – entre as variáveis que não são facilmente
identificadas pelo observador. Dessa forma, a análise considerada para os dados coletados será a análise dos componentes principais, na qual se deseja explicar a variância representada no conjunto original. Para tanto, a seleção do número de componentes a serem considerados será feita com base no critério de percentagem de variância explicada (HAIR et al., 2005; SHLENS, 2005; MINGOTI, 2005).
Com base na determinação do número de fatores a serem considerados e nos escores obtidos com a análise dos componentes principais, são formados os componentes principais. Esses são avaliados de acordo com os construtos que apresentam os maiores escores para cada componente, sendo identificados os fatores que são privilegiados pelos estrategistas quando da construção das estratégias organizacionais. Esses fatores são nomeados, constituindo-se assim a base para o raciocínio dos estrategistas.
Com o intuito de mapear sua forma de pensar, foi realizada a análise de correspondência (Correspondence Analysis – CA) para cada grade de repertórios identificada (BELL, 1997). Trata-se de uma análise multivariada de interdependência, a qual é considerada uma técnica composicional, que tem como principal objetivo “a retratação de objetos em um conjunto definido de atributos” (HAIR et al., 2005, p. 432). No presente estudo, dispõem-se os elementos e os construtos avaliados em um gráfico bidimensional, de acordo com suas similaridades, resultando em um mapa perceptual do entrevistado. Esse mapa perceptual, contendo os construtos previamente indicados com seus pólos de preferências destacados e os elementos representantes do processo de construção das estratégias, demonstra a maneira como cada estrategista confere sentido a cada um dos 14 elementos expostos no gráfico (WRIGHT, 2004a). Os eixos considerados para a construção gráfica serão os principais componentes renomeados na análise dos componentes principais (tendo em vista que esses constituem vetores ortogonais entre si).
A partir desse gráfico, é realizada análise das preferências dos estrategistas. Também, procede-se a sua correlação com os demais resultados e a literatura de estratégia em PMEs. Entretanto, como o objetivo do estudo é exploratório, não se busca aprofundar a análise comparativa com as diversas abordagens defendidas pelos autores sobre estratégias em PMEs. Tem-se que a análise dos componentes principais (Principal Component Analysis – PCA) e de correspondência (CA) mais a análise de agrupamentos, denominada de FOCUS (não utilizada na pesquisa em função da utilização da PCA, que atende aos objetivos do estudo), apresentam-se comuns quando são avaliados os diversos estudos que empreendem o método RepGrid (BOEREE, 1997; BELL, 1997; TAN e HUNTER, 2002; HUFF e JENKINS, 2002; WRIGHT, 2004 b).
Não existem requisitos que precisam ser atendidos para a realização tanto da PCA quanto da CA (HAIR et al., 2005; SHLENS, 2005; MINGOTI, 2005). Essa liberdade de pressupostos constitui-se como um aspecto relevante, somado ao alinhamento dos objetivos das técnicas de análise com os da pesquisa em questão, para que a PCA e a CA fossem utilizadas nas análises dos dados. A despeito dessa liberdade de pressupostos, como salientado por Hair et al. (2005), não serão negligenciados esforços para garantir a comparabilidade dos objetos e a completude dos atributos usados.
As limitações da PCA estão presentes em suas suposições (SHLENS, 2005): - Linearidade – alterando a base de dados não lineares.
- Média e variância como estatísticas suficientes – apenas as probabilidades exponenciais são descritas pela média e variância.
- Grandes variâncias apresentam importantes dinâmicas – PCA com pequenas variâncias podem representar ruídos.
- As componentes principais são ortogonais – simplifica a solução, permitindo sua realização por meio da álgebra linear.
Tendo sido realizadas as análises acima referidas para as entrevistas individuais, partiu-se para a identificação dos aspectos comuns dos RepGrids, que se dividiram em dois momentos.
No primeiro momento, foram agrupados todos os construtos renomeados, identificados como principais nas análises individuais, mantendo-se os pólos de preferência destacados. A partir desse agrupamento, os construtos priorizados foram rearranjados, realizando-se o “Visual Focusing”, no qual se identificam os padrões ou similaridades, resultando em simplificações (grupos) que posteriormente são analisadas (TAN e HUNTER, 2002). Essas simplificações constituem os fatores comuns privilegiados pelos estrategistas entrevistados nas análises individuais.
No segundo momento, foram consolidados todos os construtos identificados pelos estrategistas nas entrevistas realizadas. Tendo essa enorme grade como base, alinharam-se os pólos semelhantes dos construtos (invertendo os mesmos em alguns casos). Em seguida, foram identificados e agrupados os construtos similares, de acordo com uma análise lingüística realizada pelo próprio autor. Essa análise resultou em grupos de construtos semelhantes, os quais tiveram como suas avaliações para os respectivos elementos a média das notas dadas pelos entrevistados aos construtos originais que integraram cada agrupamento (HAIR et al., 2005). Esses grupos, com as respectivas avaliações, constituíram uma grade de
repertórios que foi analisada da mesma forma que as análises individuais, por meio da PCA e da CA.
Além dessas, outras análises foram realizadas a cada passo empreendido, com o intuito de robustecer a identificação dos fatores privilegiados pelos tomadores de decisão estratégica e possibilitar o alcance dos objetivos específicos do trabalho: a) avaliar os construtos mais citados pelos entrevistados, ou seja, quais são os que mais se repetem; b) identificar os elementos com as notas mais altas dadas pelos estrategistas na primeira e na segunda rodada de entrevistas; e c) analisar tais elementos e construtos identificados com base na literatura existente.
Tendo sido definida toda a metodologia, assim como o referencial teórico que sustenta a pesquisa, partiu-se para a pesquisa de campo, cujos resultados e análises são apresentados no próximo capítulo.