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Salientemos em primeiro lugar que a codificação ou análise da informação não é mais que o processo através do qual os dados são compartilhados, conceptualizados, estabelecendo-se as suas relações (Vilelas, 2009).

Na nossa pesquisa, toda a informação recolhida nas entrevistas por nós realizadas aos Mediadores (n=29) foi integralmente ouvida e transcrita para Word (tarefa árdua, morosa mas produtiva sob ponto de vista da análise e tratamento dos dados), facto que nos permitiu uma imediata imersão no material. Esta circunstância foi por nós perspectivada como o primeiro momento de análise dos dados e conduziu-nos a uma primeira estruturação conceptual dos mesmos, facilitando assim o trabalho de subsequente análise da informação. A este respeito, Silverman (2000) refere que o acto

189 de preparação associado a uma transcrição é uma atividade teoricamente saturada já que o que se vê e ouve é uma tarefa não de recolha mas de pura análise dos dados.

As vinte e nove entrevistas (n=29) exclusivamente efetuadas aos MF resultaram assim numa panóplia de discursos inteiramente transcritos e sobre o qual foi efetuada a análise e o tratamento da informação.

No caso do atual estudo, e conforme já tivemos oportunidade verificar mais atrás, o processo de análise dos dados baseou-se fundamentalmente na metodologia preconizada por Glaser e Strauss, denominada Grounded Theory, de natureza qualitativa com vista à construção de teoria. Neste sentido, não se trata de no presente estudo de verificar uma ou várias abordagens teóricas sobre o tema objeto de análise, mas de tentar compreender o fenómeno em estudo com recurso à análise e interpretação da informação empírica recolhida com o fito de desenvolver teoricamente este campo de investigação (Amaro, 2005).Deste modo, o objetivo da Grounded Theory é desenvolver teoria substantiva relativa à realidade estudada, ou seja, uma explicação global acerca do fenómeno objeto de estudo (Strauss & Corbin, 1990; Amaro, 2005).

Assim, e considerando o preconizado por esta metodologia, podemos referir que a análise do material ocorreu em simultâneo com a sua recolha o que nos levou a orientar a pesquisa numa alternância entre dois pólos em interação (Ribeiro, 2009) e num processo de constante comparação da informação empírica (Glaser & Strauss, 1967; Strauss & Corbin, 1994).

O primeiro momento da operacionalização da análise e tratamento da informação traduziu-se naquilo que, à luz da Grounded, se designa codificação aberta, que é a mais exaustiva e ampla possível. Este procedimento de codificação consistiu, como aliás defendem Strauss & Corbin (1990), na decomposição, análise, comparação, conceptualização e categorização dos dados com recurso, segundo afirmam Fernandes & Maia (2001), a processos de questionamento, comparação, rotulação e etiquetagem. Neste tipo de codificação os dados foram tratados analiticamente com vista à descoberta de conceitos subjacentes aos dados empíricos recolhidos (Amaro, 2005; Amaro, 2008). Neste âmbito, recorremos à técnica de codificação dos textos linha a linha, codificando- se cada palavra, frase ou oração (Vilelas, 2009), mantendo, como refere Amaro (2008), “o espírito aberto a todas as categorias possíveis” procurando, em contexto de processo, “identificar propriedades, objetivos ou inter-relações”. Esta foi a primeira etapa utilizada na redução dos dados.

190 Já com a codificação axial, que consiste, de acordo com Strauss e Corbin (1990), numa panóplia de acções ou procedimentos, através dos quais os dados são reagrupados depois da operação de codificação aberta, com recurso ao estabelecimento de relações entre as categorias, foi possível o desenvolvimento de categorias e a articulação entre elas (categorias e subcategorias). Este processo, foi, de sobremaneira, importante para que pudéssemos reduzir significativamente o número de categorias já que desta forma começaram a ficar organizadas (Vilelas, 2009). É neste procedimento de codificação que Strauss & Corbin (1990) sugerem que se relacione as categorias com as suas subcategorias com recurso ao estabelecimento de um conjunto de relações, a que chamam paradigma de codificação que envolve: fenómeno, condições causais, contexto, estratégias de ação/interação e consequências.

Por fim a codificação selectiva ou focalizada levou-nos a um processo de identificação de categorias principais ou centrais relacionando-as, de forma ordenada, com as outras categorias (Amaro, 2008). Constitui-se como o último procedimento da análise, mas mais abstracto, integrado e complexo (Strauss & Corbin 1990; Amaro, 2008).

Segundo Strauss e Corbin (1990) nesta fase de análise, edifica-se a “story line” (linha- de-história) assente numa categoria central que reflecte o que de mais marcante foi considerado pelos participantes, e nas relações entre ela, categorial central, e as outras categorias mais relevantes para o estudo.

Considerando que na Grounded Theory a amostra se encontra intimamente vinculada à análise dos dados, os indivíduos objeto de estudo foram seleccionados e determinados em função da sua pertinência para a elaboração e definição das categorias conceptuais e da relação entre elas e não para efeitos de representatividade (Laperrièrre, 1997 citado por Vilelas, 2009). Importa também aqui aludir, não obstante tenhamos respeitado o que esta opção metodológica determina relativamente ao processo de amostragem (“saturação teórica”), que o número de sujeitos objeto de estudo (e estamos a referir- nos exclusivamente aos MF) foi igualmente estabelecido pela procura, quase incessante, de profissionais desta área experimentados na tarefa de Audição de Crianças/Jovens em contexto de Mediação Familiar (questão central da pesquisa). Tal procura revelou-se infrutífera, pelo que como resultado da conjugação de ambas as circunstâncias ficou definida uma amostra constituída pelo número de Mediadores Familiares atrás aludido. Este rumo metodológico manifestou-se particularmente útil na análise dos vinte e nove casos relativos aos MF da RAM entrevistados já que relativamente aos restantes

191 sujeitos (“PSEMF”), tal orientação metodológica foi impossível ser seguida na íntegra, de acordo com todos os seus cânones, quer pela limitação do número de indivíduos suscetíveis de poderem vir a ser entrevistados quer, obviamente, pelo tema objeto de estudo, centrado especificamente na opinião dos sujeitos com formação em Mediação Familiar quanto à “Audição das Crianças e Jovens nos processos de Mediação

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