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5.5.1 Condições prévias necessárias ao processo de recolha dos dados

Para melhor compreensão do processo de análise e tratamento da informação será oportuno aludirmos ao facto de ter sido necessário salvaguardar e garantir algumas condições imprescindíveis às fases de recolha e análise dos dados. Assim, numa etapa anterior à realização das entrevistas, foi necessário, independentemente na natureza dos sujeitos, adoptar alguns procedimentos essenciais à sua concretização.

No caso concreto da recolha de informação junto dos MF há a salientar que se procedeu previamente:

a) ao levantamento do número efetivo de MF residentes na RAM e consequente elaboração de uma lista com os seus nomes, contactos de telefone (pessoais e profissionais) e e-mails. Para o efeito, foi imprescindível a colaboração do Instituto Português de Mediação Familiar (Lisboa) e da sua Delegação no Funchal.

b) ao contacto telefónico com os Mediadores com vista à auscultação da sua eventual disponibilidade para participar no estudo. Há que referir que esta auscultação foi bastante mais facilitada nos casos e situações em que os Mediadores foram nossos colegas de formação. Nos restantes casos, a dificuldade na abordagem aos sujeitos (aos Mediadores) foi ligeiramente maior e

184 a resposta por parte destes relativamente a uma eventual adesão às entrevistas, mais incerta, tímida e reservada;

c) ao agendamento da realização das entrevistas (dia/hora) bem como o acerto do contexto físico para a sua observância (cf. Anexo IX – grelha especialmente elaborada para este efeito);

d) à preparação do equipamento destinado à gravação das entrevistas. A este respeito há a realçar a disponibilização de um gravador digital de marca Sony (modelo ICD – P520) e instalação, em computador portátil, (Compaq Presario CQ61-Sistema Operativo Windows Vista – Home Premium) de “software” para audição das entrevistas.

No que concerne à salvaguarda das condições essenciais à recolha de informação junto dos profissionais sem especialização em mediação familiar (PSEMF) importa notar, fundamentalmente:

a) a auscultação junto de serviços, instituições ou técnicos de referência da Região, para conhecimento da disponibilidade pessoal e profissional de profissionais com experiência significativa nas áreas de promoção, proteção e tutelar cível (convirá assumir que da panóplia de potenciais técnicos e em condições de poderem vir a ser inquiridos, alguns já estariam naturalmente referenciados em virtude dos cargos que ocupavam e funções que exerciam nos contextos atrás referidos);

b) a realização de um contacto telefónico ou presencial inicial com os profissionais para confirmação da sua colaboração (ou recusa);

c) o agendamento da realização das entrevistas (dia/hora/local);

d) a preparação do equipamento e do material imprescindíveis à realização e condução das entrevistas (tal como nas entrevistas realizadas aos Mediadores).

5.5.2 Processo de recolha dos dados

Garantidas as condições atrás referidas, a recolha da informação por nós efetuada em contexto de entrevista processou-se do modo que a seguir explicitamos:

185 Junto dos MF

a) contacto pessoal ou telefónico com o Mediador com vista ao agendamento da entrevista (data, hora e local). De referir que os agendamentos das entrevistas, no que às datas e horas diz respeito, foram sempre efectuados em função da disponibilidade pessoal e profissional dos entrevistados e que o contexto físico e espacial de realização das mesmas foi, na esmagadora maioria dos casos, sugerido pelos mediadores.

Este contacto foi igualmente relevante para sensibilizar o profissional para o interesse do estudo, para dissipar alguns receios que o mesmo pudesse sentir com a nossa abordagem e aproximação e, ainda, para explicar como e por que razão a pessoa foi escolhida (Ruquoy, 1997).

b) esclarecimento dos entrevistados acerca da finalidade da entrevista, do contexto institucional e académico do estudo, da relevância dos testemunhos e das opiniões dos Mediadores para o avanço do conhecimento científico no domínio da Mediação Familiar em geral e do tema objeto de pesquisa em particular. Esta primeira abordagem, já em contexto de entrevista, serviu igualmente para solicitarmos autorização aos Mediadores para a gravação das entrevistas e lhes pedir que formalizassem essa mesma anuência com recurso ao preenchimento e assinatura da Declaração de Consentimento Informado já referida.

c) realização efectiva das entrevistas. Nestas, designadamente no seu início, procurámos situar os entrevistados no “tema da entrevista” e criar um clima de confiança essencial ao seu desenvolvimento. No corpo das entrevistas tivemos como preocupações: revelar uma postura de escuta, evitando interromper os entrevistados, fornecendo-lhes espaço e confiança para se exprimirem pelas suas palavras e no seu ritmo próprio; controlar o fluxo de informação; evitar perguntas tendenciosas; confirmar que íamos entendendo o que e os entrevistados iam dizendo; resumir o que ia sendo dito pelos mediadores, confirmando assim a compreensão dos testemunhos motivando-os a falar mais; evitar generalizações por parte dos entrevistados levando-os a citar casos específicos; apelar à autenticidade dos conteúdos dos testemunhos (socorrendo- nos da “técnica de Kinsey” – “Olhando-os nos olhos”); enquadrar as “perguntas difíceis” colocando as questões centrais do estudo para o fim das entrevistas,

186 altura em que a confiança dos mediadores era mais evidente e significativa (Villas, 2009).

Foram realizadas vinte e nove entrevistas em profundidade (n=29), com um total de pouco mais de trinta e oito horas de conversação (tempo mínimo e máximo de entrevista, respectivamente: 0:59:42 e 1:53:44, cf. Anexo X), número considerável para um estudo de cariz qualitativo (Guerra, 2006). Sobre este número de entrevistas levadas a cabo, falaremos mais à frente aquando da abordagem acerca da Metodologia

Grounded no que concerne especificamente aos procedimentos empregues na análise e

tratamento dos dados.

No fim das entrevistas tivemos o acrescido, redobrado e especial cuidado em registar algumas observações a respeito do comportamento dos entrevistados e do ambiente onde encontros ocorreram (registos efetuados na Grelha já referida e identificada como

Anexo IX). Assim, relativamente à postura dos MF há na nossa perspetiva a relevar: a

grande disponibilidade dos entrevistados em colaborar connosco; o facto de manifestarem sentimentos de alguma satisfação em saberem que podiam estar a contribuir para o avanço do conhecimento científico acerca duma questão particularmente exigente em termos de reflexão pessoal e profissional; o encararem as entrevistas como mais uma oportunidade para voltarem a lidar de perto com alguns conceitos e temas ligados à Mediação; o receio, expresso ou camuflado, de alguns interlocutores em não conseguirem corresponder ao desafio colocado, já que muitos deles não mais tinham tido contacto com determinadas matérias objeto de análise. No que concerne ao ambiente será pertinente salientarmos que os locais onde se realizaram as entrevistas foram sempre do agrado dos entrevistados (domicílio, locais de trabalho ou lugares públicos). Ainda relativamente aos locais de realização das entrevistas, foi nossa preocupação assegurar que os mesmos, independentemente da sua natureza, apresentavam condições ideais a nível acústico, comodidade, discrição e privacidade.

Junto dos “PSEMF”

a) contacto telefónico com os técnicos destinado a calendarizar a realização das entrevistas (data/hora/local). De salientar que, tal como sucedeu com os Mediadores, a calendarização das entrevistas foi efetuada de acordo com

187 disponibilidade pessoal e profissional dos sujeitos e que o seu espaço de realização foi escolhido pelos memos.

Este contacto foi igualmente oportuno e relevante para evidenciar a importância do estudo e dissipar eventuais dúvidas que pudessem surgir relativamente à escolha dos sujeitos e à prestação dos seus testemunhos.

b) envio aos entrevistados, via e-mail, do Guião de Entrevista. De notar que esta circunstância foi solicitada pelos profissionais objeto de estudo, argumentando que seria para si uma mais-valia já que lhes permitiria um tempo para melhor refletir sobre os assuntos a tratar. Com o cuidado de não referir susceptibilidades, foi-lhes comunicado que o interesse dos testemunhos radicaria na sua experiência profissional e que qualquer colagem direta a aspetos teóricos seria contraproducente sob ponto de vista científico.

c) realização das entrevistas. No início das mesmas procurámos situar os entrevistados no tema, criar um clima de confiança e requerer autorização formal para a gravação da conversa com recurso final à assinatura da Declaração do Consentimento Informado atrás aludido. No decurso das entrevistas, tivemos como preocupações acrescidas: evitar não interromper os entrevistados; não induzir respostas; assegurar que íamos entendendo o discurso; sintetizar o que ia sendo transmitido pelos profissionais; fazer apelo à espontaneidade da verbalização dos conteúdos.

Foram efetuadas duas entrevistas em profundidade (n=2), com um total de pouco mais três horas de diálogo (3:10:44). Como já tivemos oportunidade de ver, uma ao Juiz Presidente do Tribunal de Família e Menores do Funchal; outra a um Técnico Superior do Centro de Segurança Social da Madeira com intervenção regular em processos de natureza Tutelar Cível.

5.5.3 Dificuldades diagnosticadas na recolha dos dados

Vimos que a entrevista foi a técnica eleita para a coleta da informação. Esta técnica de recolha, como todas as outras, apresenta algumas limitações ou dificuldades, que podem ser superadas ou minimizadas se o entrevistador for experiente (Freixo, 2009). Embora considerando que as entrevistas tenham corrido sem especiais anomalias e que estas foram, com maior ou menor dificuldade, inteiramente transpostas, julgamos sensato assumir aqui algumas das nossas vulnerabilidades enquanto entrevistadores e outras que

188 não sendo imputáveis a nós próprios, não deixaram de se fazer sentir e de causar alguns constrangimentos num momento tão crucial e determinante como o da recolha dos dados. A este propósito, salientamos como especiais adversidades neste processo junto dos MF:

a) a dificuldade na condução de algumas das entrevistas, especialmente quando os entrevistados apresentavam algum embaraço ao nível da sua expressão ou discurso verbal ou se estendiam demasiadamente em assuntos alheios aos contextos de análise/interesse;

b) o esforço por nós dispendido com o propósito de não influenciar a opinião do entrevistado (sobre esta questão não será alheio o facto de também sermos Mediadores Familiares, com saberes e posições pessoais sobre os assuntos e matérias abordados);

c) a gestão de alguns momentos em que os entrevistados manifestaram ou indiciaram uma certa dificuldade na compreensão do significado e da intenção de algumas perguntas formuladas;

d) o facto de muitas das entrevistas serem realizadas após um dia normal de trabalho (entrevistador e entrevistado), o que exigiu, pelo menos da nossa da nossa parte, um esforço acrescido quer ao nível da condução das entrevistas quer da sua dinamização.