Sobre a intensidade do compartilhamento de informações dos pequenos e médios produtores da cadeia de suprimentos com os demais membros da cadeia da cana-de-açúcar é baixo. Em nenhum dos produtores respondentes foi encontrada evidências sobre alguma parceria ocorrida. O produtor de cana de médio porte comenta que não houve colaboração durante a crise hídrica, e exemplificou que uma das possibilidades seria a recompra da vinhaça, substrato da cana fornecida, para utilização na fertirrigação. Segundo o produtor, os custos logísticos para transporte e armazenamento da vinhaça inviabilizam a colaboração entre os elos da cadeia. O subproduto é abundante para as Usinas, mas entre Produtores e Usinas não possuem esforço para relacionamento conjunto neste sentido. A colaboração apontada pelos produtores acontece por meio de reuniões e palestras com associações de plantadores regionais.
Do lado das destilarias houve a mesma percepção em relação a baixa colaboração. O Gerente Agrícola da Destilaria de Grande Porte coloca que não houve colaboração para regular o fornecimento durante o período da Crise Hídrica. Principalmente devido a grande concorrência que existe com as demais Usinas localizadas próximas à Destilaria, levando o respondente a afirmar que a situação foi emergencial: “nós somos em oito usinas aqui em volta né, então não foi nada de colaboração, foi quem pode chegar primeiro, salvem-se quem puder” (GERENTE AGRÍCOLA DESTILARIA DE BEBIDAS GRANDE PORTE).
A falta de colaboração ainda segundo um dos respondentes da Destilaria de Grande Porte tem sua causa ligada aos traços culturais históricos simbolizados pela figura dos coronéis proprietários das primeiras usinas sucroalcooleiras. Esta postura para o participante impediu o desenvolvimento de muitas regiões, devido a concorrência de mão-de-obra, alegando que em locais com muitas Usinas, não haveria outras indústrias em
desenvolvimento. Ambos os gerentes nesta empresa concordam que apesar do surgimento de alguns grupos, centros de pesquisa, a cadeia sucroalcooleira ainda é muito isolada, sem ter visibilidade total do seu potencial em relação ao mercado global.
Entre as barreiras para o desenvolvimento, na opinião dos respondentes, está a intervenção do governo no setor, por meio de subvenções favorecendo a comercialização de combustível, energia e açúcar. Entretanto, nem sempre as Usinas conseguem aproveitar estes benefícios para integração e estruturação de longo prazo.
O Gerente Técnico da Usina 6 confirma a necessidade de maior colaboração, por ter ocorrido fechamento de Usinas durante a crise por má administração e falta de apoio do governo. Considerando as Destilarias de Bebidas, mas observando as micro e pequenas, um dos respondentes, presidente da associação dos pequenos produtores, apontou que chegaram a ter 20 associados em São Paulo, contudo após a crise hídrica houve muitos fechamentos. O intuito da associação na opinião do respondente é conseguir ações conjuntas frente ao governo ou mercado, que não são viáveis economicamente para um único micro ou pequeno produtor.
Entre as Usinas foram encontrados dois cenários distintos. Nas Usinas não associadas à Cooperativa 1, foi apontado que devido a falta de uma ação de relacionamento com o produtor, tiveram maiores dificuldades com consequentes problemas econômicos (alta de preços da matéria prima) e financeiros (falta de capital para investimentos). Já entre as Usinas de Cana de Açúcar ligadas a Cooperativa 1, o compartilhamento de informações acontece por meio de esforços conjuntos de relacionamento, como as reuniões periódicas, além de investimentos dedicados, como a infraestrutura para armazenamento de açúcar da Cooperativa 1 disponível nas diversas Usinas. Estas ações podem favorecer a obtenção de fontes de vantagens competitivas pela flexibilidade e velocidade da co-localização e os sistemas de informações desenvolvidos entre a Cooperativa 1 e as Usinas fornecedoras associadas.
Um dos respondentes Gerente Agrícola da Usina 1 destaca que estas informações provenientes da Cooperativa 1 circulam apenas internamente na empresa, mas com a utilização de novas tecnologias ligadas a internet das coisas tem ajudado na difusão destas informações com velocidade aos interessados no setor de Cana-de-açúcar.
Ainda na Cadeia da Cana, a Usina 3 revela que houve compartilhamento de informações durante a crise hídrica entre órgãos do governo (CETESB e DAEE) em reuniões com presença de especialistas dos centros de pesquisa (CTC), para iniciarem definições de planos
em conjunto. Da mesma forma que na Usina 1, entre outros elos da cadeia não houve aproximação ou compartilhamento de informações.
Na Cadeia da Laranja, a Cooperativa 2 também indica que o compartilhamento de informações foi realizado por meio de encontros, cujo interesse aumentou durante o período da Crise Hídrica: “Nós fizemos alguns eventos aqui na cooperativa em que trouxemos alguém para falar sobre mudanças climáticas, aspectos climáticos de forma geral e a gente percebe um interesse muito grande do produtor nisso. Ele tem influência grande de cooperados quando se fala nesse tema, coisa que não se tinha antes” (GERENTE AGRÍCOLA COOPERATIVA 2).
O participante Proprietário da Processadora de Laranja de Médio Porte comenta que a Citrus BR, Canal Rural e Climatempo são algumas das organizações que fornecem informações regulares sobre a produção, safra, fatores climáticos, que permitem ter uma noção de como estará o mercado futuro.
Do lado dos Compradores, a Rede de Alimentos 1 comenta que houve a formação de comitês permanentes para acompanhamento das questões ligadas ao clima e uso sustentável de água. Além do comitê interno houve relacionamento externo entre as fábricas da Rede de Alimentos com seus fornecedores, por meio de debates e avaliações.
Ainda na opinião dos compradores, a Rede de Refrigerantes 1 indica que os alguns de seus compradores exigem que as informações sobre produção e gestão de recursos naturais sejam compartilhadas. Geralmente são utilizados e-mails para envio aos compradores e órgãos de fiscalização do governo.
O mesmo comenta o Gerente Técnico da Rede de Restaurantes 2, somente após a sinalização da concessionária de abastecimento, iniciaram as atividades de rever o uso de água na área de alimentação e demais locais da infraestrutura de serviços oferecida pela Rede. O respondente comenta ainda sobre o exemplo do robô para as piscinas, cujo projeto foi mais discutido durante o período da crise e por meio de grupos de discussão descobriram boas práticas na Alemanha. Este mesmo grupo avaliou a decisão de aquisição após uma visita técnica aos fabricantes e trouxe benefícios voltados diretamente para qualidade dos serviços e melhorou significativamente a economia de água neste processo, devido uso desta inovação para tratamento das piscinas.
Na opinião da Gerente Técnica da ONG 1 houve mais aproximação entre as empresas que compõem a cadeia produtiva de alimentos e bebidas. O Consórcio que a ONG1 faz parte promoveu no período, encontro com especialistas trazidos de Israel e também do Nordeste para trocarem informações sobre tecnologias e processos de alocação negociada. As
iniciativas ainda estão em fase de discussão, mas a proposta foi no sentido de negociarem o horário de captação de água entre indústria, setor rural e serviço de saneamento. Apesar de não terem concretizado ações específicas fruto destas discussões, a aproximação entre os elos das cadeias de diferentes setores, permitiu melhor preparação frente a decisão tomada pela Agência Nacional de Águas em restringir a vazão para a bacia hidrográfica na qual as empresas fazem parte.
A respondente adiciona que o Consórcio realiza monitoramento constante, com diversos pontos na bacia hidrográfica e com técnicos responsáveis, além de boa estrutura e tecnologia para compartilhamento de informações. Por exemplo, elaboraram um site para no período da crise hídrica, chamado SS PCJ (saladesituacaopcj.org.br), para compartilharem informações. Na opinião da participante o debate aumentou a frequência e contribui para visibilidade: “Aumentou. Até essa questão do sistema Cantareira, pouca gente conhecia, pouca gente sabia o que era”.
Com a visibilidade durante a crise hídrica o consórcio foi procurado pelo consulado dos EUA para obter informações sobre a gestão dos recursos hídricos da bacia hidrográfica, na qual empresas norte-americanas estavam instaladas: “com isso o consulado americano veio atrás do consórcio porque queria saber: temos algumas empresas norte americanas aí na região, queremos saber como está a relação da crise”. Também foram realizados contatos e intercâmbios com empresas Israelenses.