4.3 NAVIGASJONSSTUDIE
4.3.3 Veien til suksess
onfirmamos, também que, sob um outro ângulo de visão, a atitude de Louva-a-deus, perante o impasse, poderia revelar versatilidade da personagem quanto à prática da improvisação, considerando ser essa uma característica co- mum do indivíduo medievo, aspecto resgatado pela obra. Devido às experiências vividas na floresta e ou mesmo à sua irreverência, a personagem não dá a devida atenção à elaboração das adivinhas, as quais poderiam tê-lo conduzido a recorrer, no momento adequado, a uma encenação e, assim, ter conquistado a vitória.
No perfil da personagem são nítidos os traços de menino imaturo, alegre, adaptado ao ambiente descontraído das ruas. Ele simboliza o indivíduo familiarizado com a camada da população com quem convive na praça pública, que interage com as feiras e festas populares, que partilha da intimidade do povo, quando “... o seu corpo está em contato com os das pessoas de todas as idades e condições; ele se sente membro de um povo em estado
perpétuo de crescimento e renovação.”62 Segundo Bakhtin, na Idade Média,
“a praça pública era o ponto de convergência de tudo que não era oficial, de certa forma gozava de um direito de ‘exterritorialidade’ no mundo da ordem e da
ideologia oficiais, e o povo aí tinha sempre a última palavra.”63
A estória está centralizada, como vimos na personagem-herói Lou- va-a-deus, personagem aparentemente tola. Seu bom desempenho é acidental, as
62 BAKHTIN, Mikhail. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. p.79.
C
respostas às adivinhações coincidem com o estado de espírito da personagem no momento do desafio e representam traços da linguagem oral.
A figura do bobo, do pícaro significa o ser totalmente “idiota”, “tolo”, a representação da inocência. O seu comportamento o faz ser visto como
um lunático (do latim “lunaticu”)64, aquele que está sob a influência da lua, un-
gido pela lua, portanto protegido.
O tolo, por ser considerado puro, é eleito pela sociedade como o elo existente entre o humano e o divino. Adjetivado seguidamente de louco, o bobo tudo percebe, mas o homem não lhe dá ouvidos, pois embora ele tenha a percep- ção para detectar o erro, ele não possui o poder de verbalizar, sem poder, por- tanto, para reverter uma situação, em princípio. Louva-a-deus pode ser caracteri- zado, de acordo com a obra, como o bobo que se aventura e arrisca a própria vida. Assumindo traços comportamentais do tolo, ele age livremente e revela, na performance realizada no palácio, traços de seu comportamento irreverente, rompendo com os padrões de ordem social, embora conhecendo os riscos de pu- nição.
Podemos, ainda, associar a sua figura, aos elementos do povo que se
dispunham em praça pública, nas denominadas “festas dos loucos”65, realizadas
durante o período medieval. No sentido figurado, celebravam e contestavam, os dogmas da Igreja, servindo-se, para isso, de um repertório chulo. Argumenta Bakhtin que as figuras representativas do bobo, do trapaceiro e do bufão possu- em
“... uma ligação muito importante com os palcos teatrais e com os espetáculos de máscaras ao ar livre, elas se relacionam com um certo setor particular, mas muito
63 Idem, ibidem. p.132.
64 FERREIRA, Aurélio B. Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2.ed. rev. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1986, p.1053.
importante para a vida na praça pública.” 66
A narrativa, perseguindo as trilhas do imaginário medieval, insinua a crença insistente na maldade natural à mulher e sua predileção à feitiçaria, te- mida como agente de Satanás, quando aponta em sua personagem feminina uma oscilação comportamental capaz de promover, no entanto, mais de uma interpre- tação.
A princesa defende uma postura rígida. Adjetivá-la de má, porque impõe a morte como castigo, seria precipitação. O jogo é proposto, os partici- pantes têm conhecimento das regras e aceitam o desafio. O comportamento des- cortês de A Divinha, durante o combate, acentua-se no momento em que ela se sente derrotada, mas isso também faz parte do plano. Louva-a-deus é flexível no tocante à aceitação natural das coisas, “... por ser simples e sem sofisticação, tem
uma atitude simples e sem pretensões diante da vida.”67 Ainda que a personagem
expresse medo de uma possível punição, seu caráter descontraído consegue ope- rar mudanças na conduta da princesa que, como o leitor, vai acompanhando o modo como Louva-a-deus conquista o apoio dos que assistem ao desafio e pas- sam a torcer por ele. A princesa bastante sagaz como se apresenta durante todo o tempo deve reconhecer o caráter paradoxal que está vivendo. Como futura noiva demonstra entusiasmo, chega a torcer em determinado momento pela vitória de Louva, aparenta estar satisfeita por ter encontrado um noivo à altura de suas adi- vinhas, de decifrar o proposto, ou seja, à altura dela. Aceitar Louva-a-deus, que representa o povo, significa reconhecer elementos oriundos de diferentes cama- das culturais, cujo entrelaçamento, a princesa supõe ser um elemento importante para a conservação do poder. Por outro lado, como princesa, poderia sentir-se ameaçada e infeliz, percebendo sua iminente derrota por um plebeu. No entanto, não é o que se verifica. A princesa parece reconhecer e apreciar o poder popular.
66 BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética. p.275.
Consolidamos essa afirmativa através da prancha número 18.
O sucesso de Louva-a-deus, representa para ambos, a renovação, o fim de um ciclo e o início de uma nova era. A efabulação expressa a intenção do plebeu em vencer os obstáculos e equiparar-se ao nível social da princesa; mas a luta é bipolar, pois também exalta os direitos e sentimentos do elemento femini- no. O desejo de realização de A Divinha, visando à perpetuação do trono, sobre- põe-se à passividade daquela que aguarda confortavelmente ser resgatada pelo seu príncipe. A fusão entre o imaginário – o sonho de ter o príncipe e, o mundo real, expresso pelas lutas e paixões que o homem precisa enfrentar, é que lhe vão conferir a vitória plena, a sua auto realização como mulher. De outro modo, o conflito de natureza existencial abordado no texto, vai oscilar entre o amor e a sabedoria trazida pela palavra, fator que , de acordo com o conto, traz a preser- vação ou a destruição da vida.