Esta “cultura escolar prescrita” foi definida por Dallabrida para melhor expor a cultura de uma escola, mas pode ser empregado para definir as normas e procedimentos da FIT. Trata-se do fio condutor entre a IES, corpo docente, discente e funcionários que atuam dentro da instituição. No caso da FIT, existe uma “cultura escolar prescrita”, pois ainda se utiliza das normas e regras antes de ser incorporada à rede UNIESP, além de ter mantido boa parte do corpo docente da antiga gestão. A manutenção deste corpo docente da FIT foi um fato isolado dentro da rede UNIESP, pois é cultural a mudança de todo professorado e até funcionários da instituição que foi absorvida pela organização. Entretanto, a cultura organizacional da UNIESP foi colocada em prática dentro da FIT de forma gradual e incisiva a tal ponto que alguns professores e funcionários não se adaptaram a esta nova forma de organização. Esta cultura ainda está se avolumando dentro da FIT, tanto para o corpo docente quanto para funcionários e colaboradores. Após ser incorporada pela rede UNIESP, podemos afirmar que nos dias atuais a FIT está em processo de transição de uma cultura escolar para outra.
Este termo pode ser usado para pensar as IES privadas. A rede UNIESP possui 135 unidades nacionais e cada unidade possui uma cultura singular. Mesmo todas estas unidades utilizarem os mesmos procedimentos acadêmicos, não possuem as mesmas regras administrativas. Um indicativo de singularidade de cada unidade é que todas as
unidades da rede UNIESP possuem formas de contratações diferenciadas, tanto para o corpo docente como para funcionários, seja para atividades administrativas ou operacionais. As unidades são independentes para adquirir novos funcionários. Algumas unidades se utilizam de agências especializadas para este tipo de tarefa, outras unidades possuem a cultura de “indicações” de outros funcionários, mas todas as contratações necessitam ser aprovadas pela mantenedora. Já houve situações em que a mantenedora emitiu avisos a todas as suas coligadas de que era proibida a contratação de novos funcionários, independente da necessidade de cada unidade. Todavia, permanece a dinâmica de que cada unidade possui uma burocracia própria para contratações e demissões de colaboradores. Após esse processo peculiar a cada unidade, a contratação ou demissão segue para a matriz, ou seja, a burocracia é a mesma para todas as unidades.
Outra diferença entre as unidades é o salário para os docentes. A UNIESP possui um plano de carreira para todos os professores pertencentes a rede chamada “steps”. Cada “step” representa um nível de salário considerando o tempo de efetivação do professor ao grupo quanto seu nível acadêmico. Existem dez níveis de steps, indo do step 1 aos step 10. Mestres e doutores possuem um salário maior dentro dos steps por possuírem um nível acadêmico maior em comparação aos especialistas. A FIT possuía um piso salarial maior do que a UNIESP. Após ser incorporada pela UNIESP, a FIT conseguiu manter um piso salarial maior para seus professores já pertencentes à instituição referente às outras unidades da rede. Os professores que foram contratados pela FIT após a incorporação estão dentro da faixa salarial paga pela UNIESP. Este fato é importante pela discordância de valores salariais dentro da própria FIT. Existem professores que recebem salários maiores do que outros possuindo o mesmo grau acadêmico porque já pertenciam à FIT antes da incorporação. Assim como existem professores com titulação maior do que outros e possuem um salário semelhante ou menor daqueles professores que já estavam na FIT antes da incorporação por terem sido contratados após a incorporação. A mesma linha de regra é válida para os coordenadores de curso.
Referente às demissões de docentes, cada unidade possui uma linha de trabalho singular. Apesar de as punições aos professores serem igualmente aplicadas em todas as unidades através de advertências e demissões padronizadas, outra característica de singularidade é de que cada coordenador pode, de acordo com sua particularidade e
cultura da instituição, atribuir punições ao professor de acordo com sua necessidade. Outro fator importante é referente a metodologia de aula e aplicações de avaliações. Cada professor planeja suas aulas de acordo com o grau de instrução e cultura dos alunos e seu próprio nível cultural.
A mesma linha de conceito serve para a aplicação de avaliações. De acordo coma cultura existente na IES existem unidades onde os professores são orientados pelo coordenador do curso em questão para não aplicar avaliação com questões dissertativas, pois os alunos poderão se constranger e o índice de reprovação aumentar. Entretanto, existem professores que possuem total liberdade para aplicação da sua avaliação, seja com questões dissertativas, alternativas ou orais. Isso vale tanto para diferenciações entre as unidades da rede, quanto para cursos de graduação dentro de cada unidade, ou seja, não apenas a unidade da rede UNIESP possui uma cultura singular, mas é possível que cada curso de graduação possua um tipo de cultura, tanto para tratamento dos docentes quanto para discentes. Não foram encontrados documentos que afirmem tais ações, porém, estes comportamentos pedagógicos são culturais dentro da IES.
Um exemplo da cultura prescrita pela UNIESP refere-se às normas e regras da matriz sobre as unidades. É normal anunciarem união de turmas em diferentes períodos para evitar a contrações de professores e, se necessário, diminuir o número de horas/aula ou até demitir profissionais. Existe uma política constante e explícita de contenção de gastos. No início dos semestres os coordenadores da FIT são instruídos pela Direção da instituição em não atribuir as horas/aula aos docentes por escrito antes de qualquer determinação desta mesma direção devido à possibilidade de haver junção de turmas de diferentes períodos letivos. A partir do momento que o coordenador de curso atribui hora/aula para este professor, o mesmo possui direito de receber por este salário independente de novas junções e aberturas de turmas. O professor termina o semestre letivo informando para o coordenador do curso sua disponibilidade de horários para o semestre seguinte, entretanto, este profissional não sabe se haverá aumento ou diminuição da sua carga horária. Isso gera uma situação de instabilidade, e os discentes questionam sobre saídas de professores da IES ou vindas de alguns professores novos, além da resistência a junções de salas porque as turmas e grupos dentro das salas já estão consolidadas. Estas situações geram desconfianças do corpo discente e da população local quanto à qualidade do curso, muitas vezes não mensurada pela IES, que se pauta única e exclusivamente pela economia de curto prazo.
Até o aspecto físico da instituição sofreu alterações após a incorporação da FIT pela UNIESP. Na gestão FIT, a Direção possuía total controle e autonomia para determinar o aspecto de espaços físicos da faculdade. Todas as determinações e procedimentos para qualquer mudança física e melhorias estruturais da instituição poderiam ser feitas em caráter imediato, seja para curto ou médio prazo. Após a incorporação da FIT pela UNIESP, esta cultura foi alterada abruptamente. Todas as reformas estruturais prediais e qualquer necessidade de equipamentos e de materiais de trabalho, como papel, giz, caneta esferográfica e tintas para impressoras, mesmo em caráter de urgência, necessita ser informado à matriz havendo a possibilidade de não aprovação destes custos. Isto causa uma dependência maior da unidade com a matriz, tirando a autonomia da Direção e Coordenação referente às necessidades estruturais da instituição. Esta regra é tão presente que foi uma das primeiras imposições da matriz sobre a FIT após a incorporação.
Este fato corrobora para pensarmos quão efetiva é a particularidade de cada instituição de ensino. Sendo a atual mantenedora, a UNIESP possui uma série de regras impostas não apenas à FIT, mas também a todas as suas unidades, padronizando os meios de trabalho e, em alguns casos, não respeitando a cultura de cada instituição de ensino incorporada. Devido a estes fatos, existe a possibilidade de estes professores, colaboradores, funcionários e docentes não se sentirem pertencidos a uma instituição de ensino.
Isso remete a uma complexidade anteriormente apontada: alguns alunos que começaram suas atividades acadêmicas anteriormente à incorporação da FIT ainda possuem costumes da antiga faculdade. Os alunos que começaram suas atividades acadêmicas dentro da IES após a incorporação possuem uma adaptação mais fácil e rápida justamente por não terem passado por uma cultura diferente da atual mantenedora. Os professores que foram contratados após a absorção da FIT pela UNIESP não possuem conhecimento desta antiga cultura, e o entendimento destes alunos oriundos da antiga gestão FIT torna-se dificultoso. Os professores que foram contratados antes da incorporação não possuem tanta dificuldade porque sabem como lidar com os alunos que fizeram parte da antiga gestão. A Diretoria da UNIESP/FIT, que não fez parte da antiga gestão, adapta-se parcialmente a esta “cultura antiga”, mas busca sobrepor a nova cultura a qual estes alunos precisam se adaptar. A responsabilidade de equacionar a situação cabe aos coordenadores, que foram
professores destes alunos durante a antiga gestão FIT. Esses coordenadores devem orientar os antigos e novos professores em como lidar com os alunos nesta fase de transição sem se indispor com docentes e discentes.