4. Fravik fra vegbredde
4.3 Vegbredde ved installering av midtrekkverk
Cheguei ao hospital para uma visita no final de semana e, ao passar pelo corredor, ouvi uma interna, dentro de um quarto, chamar pela psiquiatra da equipe de intervenção.
A auxiliar de enfermagem dissera que a interna estava contida no leito, pois, desde o dia anterior, quando recebera a visita do filho, havia ameaçado voltar a comer fezes, além de jogá-las nos outros.
Aquela paciente tinha um histórico de comportamento não só de ingestão de fezes, mas de atos destrutivos, suicidas. No entanto, a meu ver, não se tratava unicamente de uma regressão a estágios anteriores do desenvolvimento afetivo, da descoberta do corpo ou do círculo vicioso de voltar o produto do corpo para dentro dele. A paciente também assumia atitudes manipuladoras, visando provocar reações esperadas nas outras pessoas.
Eu já havia convivido antes com pessoas que, através de chantagens ou de ameaças explícitas, tentavam “arrancar” dos outros o afeto que, na fantasia, preencheria
o vazio existencial em que elas viviam. Por ser manipulador, esse comportamento gerava nos receptores sentimentos ambíguos de raiva, desprezo, piedade, além do movimento forçado de tentar expressar apreço.
Bem, acontece que nossa psiquiatra me pediu para tentar ter uma séria conversa com a paciente, tentando encontrar um ponto de autenticidade no diálogo, capaz de superar a condição de manipulação em que nos encontrávamos, para que aquele episódio pudesse produzir mais mensagens desinstitucionalizadoras no diário que vínhamos construindo. Talvez nossa psiquiatra, que já vinha freqüentemente discutindo essas questões com a paciente, esperasse que minha intervenção no caso pudesse produzir alguma mudança uma vez que eu ocupava o papel de diretor do hospital e de autoridade. Talvez fosse mais uma fantasia nossa acreditar nessa possibilidade, já que, nesse caso, vivíamos a sensação de impotência por não conseguirmos viabilizar modificações no comportamento sempre repetitivo da paciente. Entendíamos que esse processo de tentar capturar o reconhecimento, o afeto das outras pessoas, faz parte da condição humana e do funcionamento da subjetividade. O excesso de manipulação e o uso de estratégias destrutivas por parte da paciente, no entanto, acabavam mais afastando as pessoas do que as aproximando, e isso explicava nossa necessidade de fazê-la mudar o seu comportamento (sua tática para conseguir afeto e reconhecimento não funcionava, e teríamos de ajudá-la a encontrar outras formas de obter o reconhecimento dos outros).
Cheguei até a cama onde a paciente estava atada e comecei a conversar. Ela disse que estava amarrada porque queria fumar muito e não a deixavam. Retomei o episódio da ameaça que ela havia feito de jogar fezes nas pessoas. Ela tentou me convencer de que a doença a levava a comer fezes, afirmando que tinha alucinações auditivas em que lhe ordenavam que o fizesse. Insistia em frisar que era doente e que não controlava seus comportamentos. Aceitei sua avaliação, mas disse que parte de seu comportamento, o de jogar fezes nos outros, podia ser controlado, pois não significava necessariamente uma compulsão da doença (de fato, pela avaliação do quadro psíquico que ela apresentava nesse contato, e considerando o contexto em que se deu o ato de jogar fezes, eu tinha dúvidas se de fato ela tivera aquelas alucinações auditivas). Afinal, quanto do ato de comer fezes não visava provocar reações nas pessoas? Pedi que ela tentasse se colocar no lugar de quem recebe fezes dos outros na cara.
Em seguida, ela manifestou sua tristeza com o fato de o filho ter ficado assustado com ela e não a ter levado para casa. Combinamos que todos nos esforçaríamos para criar as condições de sua ida para casa, a começar por ela, que evitaria multiplicar qualquer tipo de ameaças. Negociei então com ela, para que pudesse sair do leito e andar comigo fora do hospital. No entanto, ela dizia que queria ir ao banheiro, garantindo que não comeria as fezes.
Acompanhei-a ao banheiro e, enquanto aguardava ao lado da cabine, ela foi contando trechos de sua história, dos filhos, dos pais, das experiências de sofrimento pelas quais havia passado.
Carregava sempre consigo uma sacola muito importante, cujo interior era composto por cigarros e muito, muito papel higiênico, que era uma arma para substituir a compulsão de ingerir fezes.
Passamos a passear e a conversar na área externa ao hospital, e ela me contou os estupros que havia sofrido na adolescência, seu envolvimento com drogas, os episódios de psicose pós-puerperal e as várias internações psiquiátricas a que fora submetida.
Logo, combinei que ficasse na recepção do hospital com um dos cuidadores, sentada.
Outro cuidador veio logo e saiu com ela para buscar água.
O que eu tentava marcar com essas ações com os pacientes era a necessidade de outros funcionários se aproximarem, assumindo um outro olhar e novas estratégias para lidar com o sofrimento.
Eu não tinha respostas prontas nem sabia o jeito correto de lidar com todas as situações, mas queria estimular que a busca por mudanças, através da ampliação do diálogo com os internos, substituísse o jeito geralmente simplista de lidar com essas situações, presente na lógica coercitiva do hospital: conter mecanicamente no leito, para não atrapalhar o funcionamento da instituição, e só. Esse tipo de resposta violenta, que os internos até já esperam receber, devido a suas experiências anteriores, apenas reforça e reproduz a sua nulidade, a impossibilidade de assumirem acordos e responsabilidades, a sua invalidação como sujeitos de discurso. Era a necessidade do diálogo e da descoberta de novas respostas que justificava minha participação, e dos membros da equipe de intervenção, em episódios como esse, para que não ficássemos limitados
apenas às questões administrativas do hospital, reproduzindo a mesma divisão de papéis, impermeáveis uns ao outros, que a antiga estruturação hierárquica mantinha.