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Trafikksikkerhetskostnader

5. Konsekvensanalyser

5.1.4 Trafikksikkerhetskostnader

Interessante o movimento das mulheres.

Após as chuvas que invadiram o junho de nossa cidade, a ala das mulheres, muito bem guardada e escondida, teve de ser interditada, após uma noite em que as infiltrações dominaram as paredes e as gotas de chuva avançaram pelas janelas sem vidro, molhando colchões, cobertores e pessoas.

Os funcionários, então, resolveram levar as mulheres para a “ala aberta”, um dos lugares mais preservados, limpos e iluminados, historicamente ocupado pelas internas- moradoras (aquelas cujos parentes pagavam aos antigos administradores uma mensalidade destinada a perpetuar a internação), que têm mais autonomia, cuidam do local e de si mesmas.

Foi como se a periferia tivesse ocupado o centro da elite, ou como se o “povão” chegasse em peso à festa dos “mauricinhos”.

O tempo e a chuva deram o impulso espontâneo à mudança que um dia haveria de ser provocada pelo discurso, pela forma de escutar, de refletir e de se relacionar com os internos que vimos implantando e tecendo a cada dia com pequenas ações no cotidiano.

Muito além do contato com os internos da elite, dessa microssociedade que reproduzia hierarquicamente as mesmas relações de classe ou de castas, os pacientes mais pobres e mais “instáveis” (ou seriam aqueles que gritam mais, ocupam espaços e expressam com mais furor seu sofrimento?) chegaram mais próximos dos corredores de entrada do hospital, daqueles brilhantes corredores que servem aos profissionais e aos visitantes.

Se era difícil levar os médicos, o posto de enfermagem e os outros profissionais até o interior das enfermarias, o interior das enfermarias veio aos profissionais, e a todos aqueles que trabalhavam na área de apoio (farmácia, administração) e que muito pouco contato tinham com os internos.

A circulação de pacientes engendrada mudou a dinâmica do hospital. A partir daquele momento, era comum ver em portas e corredores um entra-e-sai e cuidadores se organizando para acompanhar de fato o movimento dos internos, principalmente dos

mais graves e que apresentavam mais dificuldades de conviver com os outros, o que gerava situações de violência (violência produzida pela dinâmica institucional de anos a fio, como espelho da violência perenemente sofrida por essas pessoas).

Pelos corredores e pelas portas, pela rua vazia do estacionamento do hospital, onde ficava a entrada, havia um movimento frenético de profissionais e pacientes tentando se entender e construir um processo de diálogo.

Algumas contenções mecânicas ainda continuavam a acontecer, mas com o objetivo de proteger os próprios pacientes e seus companheiros, e não como castigo e abandono.

Sempre discutimos a necessidade de se acompanhar o paciente quando da contenção, de explicar e refletir com ele o significado daquela medida, de compartilhar o sofrimento para que dele pudessem nascer novos projetos (ficar o tempo todo ao lado do paciente, comprovando que o objetivo da contenção não é se livrar do incômodo que seu sofrimento representa, não é atender a uma necessidade de paz de quem está amarrando).

Pouco a pouco, as contenções diminuíram, sendo substituídas pelos passeios e pelo acompanhamento pessoa-pessoa, mesmo naqueles casos como o de uma paciente (a mesma que tem uma singular relação com as fezes) que socou as vidraças e se cortou, tentando fazê-lo várias vezes, como se pedisse ajuda, afeto, às vezes contenção física, medicação sedativa de emergência, mas, sobretudo, alguém para compartilhar o sofrimento muito intenso.

Algumas pacientes permaneciam em quartos individuais (como era o caso daquela moça com fama de morder a qualquer momento muitas pessoas), mas desta vez eram quartos munidos de cama, colchão, cobertor, banheiro próprio, limpeza várias vezes ao dia, em contraste com as antigas celas fortes.

Enquanto se desconstruía a idéia de que aquela paciente era uma mordedora inveterada e de que seu contato com outras pessoas só poderia ser viabilizado com a presença de cuidadores homens para intimidá-la, muitos passeios foram reproduzidos pelos corredores, não só com profissionais homens, mas com mulheres.

Por muitas vezes desamarrei as faixas que continham essas pessoas, começando os passeios pela parte nobre e aberta do hospital. Isso pôde ser reproduzido pelos outros

funcionários, já que questionávamos o sentido da violência e propúnhamos a possibilidade de um novo tipo de abordagem.

No entanto, era bem limitado o nosso potencial de transformação na dinâmica do trabalho, uma vez que estávamos trabalhando com profissionais que se encontravam havia anos no hospital e com alguns cuidadores que nunca tinham exercido função semelhante. Além disso, tínhamos poucos quadros e líderes, a equipe de intervenção era pequena, para reproduzir com mais força as transformações.

Apesar disso, os atos que fizemos em poucos tiveram efeitos estrondosos, cuja responsabilidade foi dos próprios profissionais que, com mensagens emitidas em baixa freqüência, espalhadas, múltiplas e simultâneas, souberam captar e descobrir por si, com pouca supervisão, novas formas positivas de se relacionar e dialogar com os pacientes.

Tudo era ainda bem intuitivo, muito mais no campo do contato corporal que propriamente do discurso.

A agressividade do paciente a que Basaglia se referia, necessária para produzir transformações na instituição e nas pessoas (Basaglia, 1985), ainda se manifestava pelas relações primárias, pelo contato corporal, pela relação de descoberta do próprio corpo traduzida pela relação com o corpo do outro. Não pudemos ainda ver manifesta a agressividade pelo discurso das pessoas no coletivo, pela reflexão e produção de crítica através de participações em reuniões e assembléias.

Como disse Basaglia (1985: 116),

para reabilitar o institucionalizado que vegeta em nossos asilos seria, portanto, mais importante que nos esforçássemos para despertar nele um sentimento de

oposição ao poder que até agora o determinou e institucionalizou, antes mesmo de construir em torno dele o espaço acolhedor e humano do qual também ele necessita. Despertado esse sentimento, o vazio emocional em que o doente vem vivendo há anos voltará a ser tomado pelas forças pessoais de reação e de conflito, ou seja, o único ponto de apoio possível para sua reabilitação: sua agressividade.

A velocidade do processo e a necessidade de responder a tantas demandas exteriores relacionadas à governabilidade e legitimidade públicas da intervenção, além do fato de a equipe de intervenção ser muito pequena, não permitiram que neste primeiro momento fizéssemos muitas assembléias e reuniões com os pacientes. Esse

momento poderia fazer parte da segunda etapa da intervenção, depois da mudança para o novo prédio, com nova equipe e nova dinâmica. As assembléias seriam fundamentais para que se exercesse uma reflexão crítica do processo, para se tomar decisões coletivas sobre o funcionamento da instituição, ou seja, para forjar e fortalecer os laços de reciprocidade e responsabilidade entre todos os atores envolvidos, o que seria extremamente terapêutico para os pacientes.

Preparávamo-nos para essa mudança, enquanto as pacientes circulavam pelos corredores e alguns funcionários, como vi ocorrer com uma do setor de administração, se trancavam em suas salas, internavam-se voluntariamente, pois, segundo diziam, “os loucos estavam soltos”.

Lembranças de Santos IX

Em Santos, as assembléias, os espaços de discussão entre os trabalhadores, as reuniões para estudo, eram freqüentes e intensas, ocorrendo desde o interior do Anchieta, até nos serviços territoriais que foram sendo criados. Essa prática de discussão representava um dispositivo fundamental de exercício de poder, de questionamento de papéis cristalizados, enfim, de construção de projetos coletivos e de produção de crítica sobre o que estava sendo produzido com o trabalho. A voz dos pacientes sempre foi valorizada, e podia ter lugar em todos os momentos de seu processo de vida. Muitas vezes algumas falas eram traduzidas por outros atores, pacientes ou profissionais, o que possibilitava a criação de nexos e o desenvolvimento de um método eficaz de comunicação. A participação maciça dos funcionários e dos diretores das unidades fazia com que este fosse um espaço legítimo de poder e decisão, o que produzia intensas modificações naqueles cuja voz antes era considerada um grunhido (ou simples sinal de sintomas psicóticos), talvez, nunca uma enunciação de conteúdo precioso.

A festa de São João

Já se disse que o São João em nossa cidade e no Nordeste é tão importante quanto os festejos de Natal nas regiões Sudeste e Sul.

Na véspera de São João, as famílias se encontram e as fogueiras na porta de cada casa proliferam. Sem querer ser exagerado, as fogueiras que vi na noite de São João de

2005 geraram na cidade uma fumaça bem parecida com a neblina da Serra do Mar na estrada São Paulo-Santos (litoral sul).

No hospital dizia-se que o São João também era comemorado anualmente, com uma pequena festa.

E foi isso que fizemos, mas do nosso jeito.

Encomendamos comidas típicas (muitos quitutes derivados do milho e da farinha de mandioca, lá chamada macaxeira) e contratamos o trio de forró.

Mas, diferentemente dos outros anos, a festa, que desta vez se deu em frente ao hospital, na parte externa, muito embora fosse uma festa caseira destinada aos internos, funcionários e familiares, levou para a rua 100% dos internos, e não apenas aqueles “que têm condições”, como era prática nos anos anteriores.

Trazer para fora do hospital, de forma negociada, alguns pacientes extremamente cronificados que não aceitavam ver a luz do dia e receber o ar num espaço aberto também foi um desafio, e parte e objetivo da festa.

Os funcionários se envolveram, dançaram com os internos, e as mulheres novamente tiveram o microfone à disposição para cantar e se manifestar.

Para a equipe dirigente da intervenção, que preparava para breve a mudança de prédio, a festa soava como uma despedida. Pareceu até que os funcionários percebiam isso, alguns deles se emocionando, assim como se emocionaram quando foram conhecer as residências terapêuticas que os pacientes iriam ocupar, durante a inauguração das casas. E assim como se emocionariam, ao vê-los saindo para ocupar as casas quando da mudança.

Já estava claro para os funcionários que a manutenção do hospital se tornara inviável, tanto que todos se preparavam para participar da seleção da prefeitura, e outros já procuravam outros empregos. O que não se sabia, no entanto, era a data exata de fechamento do hospital.

O fato é que, nesses momentos de comemoração, reinava um sentimento misto de alegria por ver os pacientes deixarem sua condição de segregação (que talvez muitos dos funcionários, no duro dia-a-dia do hospício, sabiam ser necessário) com a

preocupação futura com a possibilidade de não ter emprego e de ter que sobreviver sem o trabalho no manicômio, fazendo outras coisas.