O trabalho teve início com uma fase qualitativa envolvendo um estudo exploratório da revisão bibliográfica e evoluindo para a pesquisa documental dos editais de concursos públicos cujos bancos de dados de participantes eram disponíveis ao autor. Tal coleta de dados se mostrou necessária em razão da existência de dados importantes para a pesquisa que se encontravam dispersos (GIL, 1999) e seguiu critérios de qualidade (LAKATOS E MARCONI, 2001), buscando-se fontes primárias pertencentes a arquivos públicos (editais dos concursos publicados em Diário Oficial).
Não existe no país, hoje, uma base de dados censitária de concursos públicos. O autor, assim, lançou mão de bases de dados que lhe eram acessíveis, de três das maiores entidades organizadoras do país. Portanto, além dos dados coletados mediante pesquisa documental (editais), os dados disponíveis para a elaboração da pesquisa constituem-se de pesquisa censitária contendo informações de candidatos a concursos públicos dos últimos cinco anos, prestadas no ato da inscrição nos certames.
Os 1.800.945 candidatos dos concursos selecionados demonstraram atender critérios de representatividade por sexo, carreira, idade, raça e residência (como será visto a seguir), a fim de conferir confiabilidade dos dados a serem produzidos. O universo contempla concorrentes para 2.807 cargos disponibilizados nos certames, das mais diversas áreas do conhecimento e faixas de vencimentos.
Os dados socioeconômicos e as opções de carreira, bem como os dados dos desempenhos nas provas e a classificação alcançada pelos inscritos dos concursos foram utilizados para a realização da pesquisa. No entanto, por se tratar de uma base de dados constituída ao longo dos anos e por não ter tratamento regular de higienização de base, foi necessário o tratamento de dados pelo autor para garantir a normalização dos dados e permitir as análises estatísticas.
Inicialmente, tendo em vista que o ordenamento jurídico brasileiro define que os cargos são criados em lei de cada ente federativo, constatou-se uma variada gama de nomenclaturas para uma mesma carreira de atuação. Logo, foi feito um trabalho de padronização dos cargos pertencentes a cada carreira, adotando-se, para isso, as
49 denominações usadas pelo Ministério da Educação para o ensino superior no país.
Ato contínuo, os dados sobre Trabalho e Rendimento do Censo 2010 do IBGE (2016) disponibilizados no Apêndice 1 deste trabalho serviram de parâmetro para a definição das profissões/carreiras tidas como nichos do sexo feminino ou masculino, conforme quadro 2, que relaciona as carreiras componentes da base de dados e a respectiva predominância de ocupação por sexo:
Quadro 2 - Relação de carreiras e respectiva predominância de sexo, segundo dados do IBGE (2012)
Carreira Sexo Carreira Sexo
Administração NEUTRA Educação Profissional - Engenharia MASCULINA Arquitetura e Urbanismo FEMININA Educação Profissional - Farmácia-
Bioquímica FEMININA
Arquivologia FEMININA Educação Profissional - Nutrição FEMININA
Artes FEMININA Educação Profissional - Odontologia FEMININA
Biblioteconomia FEMININA Educação Profissional - Tecnologia da
Informação MASCULINA
Ciências Biológicas FEMININA Educação Profissional - Turismo NEUTRA
Ciências Contábeis MASCULINA Enfermagem FEMININA
Comunicação Social/Jornalismo NEUTRA Engenharia MASCULINA
Direito NEUTRA Estatística MASCULINA
Docência - Artes FEMININA Farmácia/Bioquímica FEMININA
Docência - Ciências Biológicas FEMININA Física MASCULINA
Docência - Educação Especial FEMININA Fisioterapia FEMININA
Docência - Educação Física MASCULINA Fonoaudiologia FEMININA
Docência - Ensino Religioso NEUTRA Formação geral NEUTRA
Docência - Filosofia FEMININA Geografia MASCULINA
Docência - Física MASCULINA História FEMININA
Docência - Geografia MASCULINA Letras FEMININA
Docência - História FEMININA Medicina MASCULINA
Docência - Língua Estrangeira FEMININA Nutrição FEMININA
Docência - Língua Portuguesa FEMININA Odontologia FEMININA
Docência - Matemática MASCULINA Pedagogia FEMININA
Docência - Música MASCULINA Psicologia FEMININA
Docência - Pedagogia (séries iniciais) FEMININA Química MASCULINA
Docência - Química MASCULINA Recursos Humanos FEMININA
Docência - Sociologia NEUTRA Secretariado Executivo FEMININA
Docência - Tec. da Informação MASCULINA Serviço Social FEMININA
Economia MASCULINA Sociologia NEUTRA
Educação Física MASCULINA Tecnologia da Informação MASCULINA
Educação Profissional - Administração NEUTRA Terapia Ocupacional FEMININA Educação Profissional - Arquitetura e
Urbanismo FEMININA Turismo NEUTRA
Educação Profissional - Enfermagem FEMININA Veterinária/Zootecnia MASCULINA Fonte: dados da pesquisa.
Algumas observações sobre estas etapas do trabalho merecem anotação. Como mencionado, durante o trabalho de padronização dos 2.807 diferentes cargos disponibilizados nos 198 concursos públicos componentes da base de dados surgiram dúvidas com relação a postos com nomenclatura genérica (e.g., “Analista”, “Técnico
50 Superior Especializado”, entre outros) e seus corretos enquadramentos nas categorias de carreiras estabelecidas. Nessas situações, foram consultados os requisitos de escolaridade exigidos para o desempenho do cargo, bem como a descrição das atribuições das funções a serem desempenhadas, expressar nos editais reguladores dos certames.
Para a denominação da natureza da carreira (se feminina, masculina ou neutra), utilizou-se o critério de existência de percentual de ocupação do sexo maior que 55% nas carreiras, segundo dados do Trabalho e Rendimento do Censo 2010 (IBGE) e Apêndice 1; nos casos onde a distribuição dos sexos não ultrapassou tal percentual, considerou-se a carreira como neutra, posto que não se verificou predominância de homens ou mulheres.
Esse trabalho qualitativo foi supervisionado pelo autor e realizado por dois codificadores independentes, contando com dupla digitação para inserção no banco de dados; as divergências havidas foram tratadas pelo autor e regularizadas no banco de dados.
Anote-se, por fim, que propositalmente o autor buscou realizar a distinção de carreiras destinadas ao exercício da docência básica e das séries iniciais do Ensino Fundamental - considerando que as mulheres tradicionalmente foram alocadas em funções de ensino primário - e da educação profissional, uma área com maior participação dos homens. Assim, tornaram-se possíveis análises específicas sobre esses ramos de trabalho, além dos demais ramos profissionais representados pelas demais carreiras.
Por se tratar de estudo empírico, para a consecução do objetivo da pesquisa decidiu-se que a pesquisa seria de caráter majoritariamente quantitativo e descritivo, tendo em vista que tem como finalidade a descrição das características e relações entre variáveis (GIL, 1999).
Embora alguns (VERGARA, 2007; CASTRO, 1976) defendam que a pesquisa descritiva apenas exponha o cenário de determinada situação e não tenha o compromisso de explicar o fenômeno, não especificando relações de causalidade, defende-se aqui a linha de Selltiz et al. (1965), que informa que este tipo de pesquisa busca descrever um fenômeno em detalhe, permitindo abranger, com exatidão, as características de um indivíduo ou um grupo, bem como desvendar a relação entre os eventos.
51 foi a adoção de estatísticas descritivas, na medida em que, conforme Mattar (2001, p.62) defende, este método “tem o objetivo de proporcionar informações sumarizadas dos dados contidos no total de elementos da(s) amostra(s) estudada(s)”. A estatística descritiva se mostrou especialmente relevante em razão do grande volume de dados analisados, permitindo representar por meio de tabelas, gráficos e indicadores, de forma concisa, sintética e compreensível, a informação contida no conjunto de dados (MARCONI & LAKATOS, 1996).
A análise de dados é uma das fases mais importantes da pesquisa, pois, a partir dela é que serão apresentados os resultados e a conclusão da pesquisa, conclusão essa que poderá ser final ou apenas parcial, deixando margem para pesquisas posteriores (MARCONI & LAKATOS, 1996).
A investigação se baseou, assim, na análise quantitativa da relação diferencial entre candidatura, desempenho nas provas, aprovação e classificação em concursos públicos e variáveis de interesse tais como estado civil, existência ou não de filhos, idade, cor/raça, entre outros. Os dados obtidos na análise do banco de dados elaborado pelo autor foram comparadas com bases de dados públicas (IBGE, MTE, entre outros) que incluem informações socioeconômicas da população brasileira e que se mostraram relevantes para o propósito da pesquisa.
Diante dos elementos descritos, a pesquisa teve natureza quali-quantitiva, com a adoção conjugada e complementar de ambos os métodos, conforme o caso.