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Os desequilíbrios na divisão do trabalho precisam e têm de ser corrigidos. A igualdade de oportunidades deve ser um dos eixos precípuos do desenvolvimento, de modo que o Estado, no acesso aos seus cargos, não pode ser indiferente a esta desigualdade. Ademais, a medida, a paridade entre os gêneros elevaria em US$ 28 trilhões o produto interno bruto (PIB) mundial até 2025, segundo estudo da consultoria McKinsey realizado em 2015.

Padrões de discriminação prolongados no tempo podem reforçar-se mutuamente, mantendo, ao longo de gerações, as mulheres e jovens do sexo feminino aprisionadas num mundo de escolhas e oportunidades limitadas (PNUD, 2016).

Os avanços tidos no campo da paridade de gênero se mostram insuficientes para compensar o patamar de desigualdade há muito estabelecido. É inegável que as mulheres conquistaram campo no mercado de trabalho e que atualmente muitas sociedades passam por transformações na família – celula mater da sociedade – resultando em uma maior partilha dos serviços domésticos entre homens e mulheres. Porém, mais precisa ser feito.

O presente estudo partiu da constatação da desigualdade histórica entre homens e mulheres na ocupação do mercado de trabalho e da ideia de que tal desigualdade deveria ser investigada.

Antes de comentar os resultados, é importante indicar que a pesquisa sofreu limitações na medida em que fatores como o grau de responsabilidade com os cuidados do lar ou o grau de atuação como provedor principal da casa não são conhecidos. Essas condições afetam diretamente a capacidade de preparação para as provas do concurso público.

O fato de os(as) candidatos(as) terem declarado a existência de filhos não significa, tampouco, que estes são responsáveis integralmente pelos cuidados com as crianças. Pesquisas qualitativas futuras poderão destrinchar os níveis de desempenho em concursos de candidatos que tenham – ou não – serviços de empregados domésticos e/ou babás ao seu dispor.

Outros fatores determinantes tais como como horas de estudo dedicadas ao conteúdo programático do concurso, realização de cursos preparatórios especializados, entre outros, também não são conhecidos.

86 Por se tratar de um trabalho empírico, a pesquisa se limita a observar e caracterizar o comportamento dos candidatos nos concursos públicos, abrindo espaço para que trabalhos de caráter qualitativo possam investigar as reais causas das variações que ocorrem.

Respeitados os limites do estudo, uma vez que não se teve acesso a toda base de dados de concursos do país, alguns resultados podem iluminar pesquisas futuras sobre a ocupação de homens e mulheres nas carreiras profissionais e a evolução do conceito de divisão sexual do trabalho, bem como alguns achados sugerem que o chamado “teto de vidro” também ocorre na seara pública.

Variados índices internacionais consideram nível superior como um dos principais componentes de empoderamento da mulher. O resultado deste trabalho joga luz na limitação de tais índices frente à realidade brasileira e o modelo de seleção baseados em provas de conhecimento instituído pelos concursos, pois o maior grau de instrução formal aparentemente não resulta em melhores colocações no mercado de trabalho. O número considerável de mulheres inscritas para carreiras masculinas reforça a ideia de avanço feminino no mercado de trabalho; neste estudo elas apareceram em presença maior inclusive em carreiras historicamente masculinas (e.g., Ciências Contábeis, Direito e Estatística). Pesquisas futuras poderão explicar se esse comportamento é de fato por conta do avanço no campo do ensino superior e do trabalho ou se os melhores postos disponíveis no ramo privado estão ocupados por homens, ocasionando a grande procura em postos do ramo público.

As mulheres, principalmente solteiras, apresentaram severa piora de desempenho nas provas após os 25 anos. Contudo, os homens também demonstraram comportamento semelhante nas mesmas coortes etárias. Esse fenômeno pode indicar que os recém egressos das faculdades tem maior capacidade de assimilação do vasto conteúdo cobrado nas provas ou que tenham maior tempo disponível para a preparação nos concursos, uma vez que muitos nessa faixa etária ainda vivem no mesmo lar que os pais e contam e contam com a assistência parental.

Os números – sobretudo nas coortes etárias até 35 anos – também indicaram considerável diferenciação de gênero no desempenho nas provas em razão da existência de filhos. Esta variável é a que demonstrou maior relevânciapara redução do desempenho e classificação dos candidatos.

Em algumas carreiras, uma mulher solteira e sem filhos teve cerca de quatro vezes mais chances de figurar dentre os classificados no concurso do que uma mulher

87 casada sem filhos ou uma mulher casada com filhos; em comparação a uma mulher solteira e com filhos, o número de mulheres solteiras e sem filhos foi cerca de oito vezes maior.

A despeito de maior número de mulheres inscritas em diversas carreiras, causou espécie que em 55 carreiras (88,7% do total) o percentual de candidaturas versus o percentual de classificados nos concursos evoluiu em favor dos homens, mesmo em áreas de ocupação feminina (merecem destaque: Artes, Enfermagem, Fisioterapia Nutrição, Odontologia, Pedagogia e Recursos Humanos).

O cotejo da variável cor/raça apresentou resultados ainda mais desfavoráveis para as mulheres negras, indo ao encontro da ideia de que no Brasil a cor da pele indica limitações socioeconômicas aos cidadãos. Portanto, os dados sugerem que esse grupo de mulheres, ao ter menos condições de arcar com investimentos adicionais na preparação para os concursos (realização de cursos específicos, contratação de babás para os filhos, etc) acabam por ser prejudicadas.

A hipótese mais corrente na seara de gênero, na qual incidem barreiras para as mulheres ascenderem às posições mais bem remuneradas e com mais poder, encontrou algum amparo nos resultados aqui encontrados. Homens aparecem até quatro vezes mais do que as mulheres em cargos com remuneração superior a R$ 15 mil reais ou de grande valor social (indicados na seção 5.4); quando existem filhos nesta seara, elas aparecem em número ínfimo, próximo de nulo, enquanto os homens – embora também afetados – conseguem boa ocupação nos cargos.

Estes achados indicam que a mulher escolha preservar a vida familiar em detrimento da profissional. Isso não indica, contudo, que elas preferem essa escolha, mas sim que talvez se vejam obrigadas a isso, na medida em que os maridos ganham mais e não compartilham dos afazeres domésticos. Estudos qualitativos poderão jogar luz nessa questão.

Recomendações de pesquisa futura podem ser feitas com relação ao modelo de seleção imposto no país. Importa averiguar em que condições estes processos ocorrem a nível nacional, considerando a vasta gama de órgãos promotores dos certames, e, sobretudo, investigar se os candidatos que estão sendo selecionados preenchem o perfil de competências exigido para cada função.

A aplicação de surveys aos candidatos revelará informações essenciais que impactam diretamente na preparação para os concursos a respeito do grau de responsabilidade com a família (horas trabalhadas no lar, empregadas domésticas,

88 babás, etc).

No presente trabalho, devido às limitações de tempo e custo, optou-se por medir o desempenho dos candidatos segundo o número de acertos padronizado, ficando a análise do comportamento do desempenho dos candidatos por disciplina como sugestão para pesquisa futura. É que o desempenho dos candidatos pode variar conforme a natureza e o campo de conhecimento da questão aplicada no concurso.

Uma última sugestão de reflexão para o campo seria a necessidade de instituição de políticas de cotas às mulheres para acesso ao serviço público em determinadas carreiras, na medida em que, conforme sobejamente demonstrado neste trabalho, o sexo feminino possui histórico de segregação e discriminação, bem como tolhimento de direitos políticos e sociais.

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