Vinte e Um de Outubro de Dois Mil e Dez. Quando cheguei à estação rodoviária Tietê, em São Paulo, vinda do aeroporto de Guarulhos e de um Congresso em Santa Fé, Argentina, que coincidiu com o período de reconhecimento do rio107em Extrema, Minas
Gerais, ainda não tinha recebido o endereço do alojamento que esperava há mais de uma semana por e-mail. Ninguém atendia os celulares como de costume. Nem o técnico, nem os adultos homens, nem as mulheres, nem os juniores. Entrei no site da Confederação Brasileira de Canoagem e li um informativo sobre o ônibus para o rio sair todos os dias do ginásio de esportes, imaginei que este poderia ser o alojamento e para lá me dirigiria quando chegasse à cidade, em busca de maiores informações. Eu chegaria à noite do último dia de reconhecimento e na manhã seguinte iniciariam as provas. Ao chegar na rodoviária encontrei numa casa de internet dois juniores com camisetas da Bozo D’água que me disseram que o alojamento era mesmo o ginásio, embora as equipes masculinas de Brotas estivessem hospedadas, com os botes, em uma casa mais próxima ao rio. Levaram-me até o ginásio para encontrar a equipe feminina. No ginásio acontecia a reunião geral, antes da abertura do campeonato na praça da cidade, da organização com os capitães de cada equipe. Neste momento o organizador havia pedido aos capitães que chamassem os demais membros de suas equipes para preencher novamente a ficha de inscrição que havia sido preenchida online, mas que não poderia ser usada por problemas no site da confederação. Isto possibilitou ouvir toda a reunião. Não é comum que todos os membros das equipes sejam autorizados a participar, pois é entendido que muitas pessoas geram tumulto quando há necessidade de deliberação sobre alguma mudança nas regras, nas provas ou sobre situações excepcionais. Na reunião se falava dos problemas com o transporte dos botes. Nem todas as equipes dispunham de carros para levá-los até o rio - e sofriam com as condições alternativas que encontravam para isto, tais como carregá-los a pé e ter que largá-los no chão de tempos em tempos para descansar, o que provocava furos - e sobre conseguir reboques emprestados com pessoas da cidade para usar no
107 Entre os remadores pode haver um líder e eles podem conversar entre si sobre o que fazer, durante um percurso ou prova. Mas, normalmente a estratégia a ser utilizada, ou seja, a interpretação sobre a corredeira a ser aplicada, é negociada e acordada nos dias que precedem a competição em um período que é chamado
reconhecimento do rio. Assim, no dia da prova se poderá concentrar em ser o mais sincrônico, e veloz possível, dentro do que fora estabelecido e em resposta ao imponderável. O silêncio é mais bem visto que o falatório sobre o que deve ser feito. O senso comum do rafting preconiza: “quem fala muito rema pouco” ou “se tem fôlego pra falar é porque não tá fazendo a força que deveria na remada.”
ônibus cedido pela prefeitura, além do próprio organizador colocar seu carro à disposição, dentro dos limites de suas próprias tarefas. Além disso, conversavam sobre o que havia acontecido durante o reconhecimento do rio. Quantos botes viraram, quantos atletas caíram dos botes em quais trechos, se houve lesões, quais eram as partes rasas do rio e o que deveriam evitar na competição para minimizar os riscos. Outro tema era a seca inesperada e o nível baixo do rio. A esperança de chuvas nos dias seguintes acenava para a possibilidade de manter os trechos das provas mais longas, selecionados durante a época do planejamento do campeonato (época de cheia). Caso contrário, haveria mudanças nos locais de largada e chegada das provas. Houve também recomendações sobre entrar em silêncio no local das provas que aconteceriam pela manhã devido ao fato de aquela área ser propriedade de um hotel fazenda e de a permissão para a realização da prova ter sido difícil de conseguir frente ao argumento do incômodo aos hóspedes. Surpreendeu-me o desabafo do organizador que se desculpava por não poder oferecer melhores condições para o campeonato, visto que a CBCa havia autorizado apenas a ele trabalhar no evento e com orçamento muito restrito. Apresentou a única pessoa com quem dividia o trabalho de organização, um funcionário cedido pela prefeitura. Falou sobre como isto limitou a estrutura que poderia oferecer aos atletas, principalmente a alimentação – o café da manhã consistia em dois pães com mortadela, uma maçã ou banana e café com leite, o almoço se limitava a dois pães com mortadela e suco artificial e o jantar, visto como a refeição importante do dia, já que não haveria provas após seu acontecimento, servido no refeitório do ginásio, era apresentado como uma refeição completa com arroz, feijão, carne, legumes e salada. Apesar de deixar claro que sentia fortemente as restrições do evento, afirmou a importância de, embora ter que sacrificar sua estrutura já precária, poder oferecer pela primeira vez um prêmio em dinheiro aos primeiros colocados do campeonato “para ajudar com os custos do campeonato mundial”: sete mil reais 108. E ressaltou, também para minha surpresa, de igual valor para a equipe
masculina e feminina. Supondo que seriam R$ 2.500 para a equipe adulta masculina campeã, R$2.500 para a equipe adulta feminina campeã e R$2.000 para a equipe Junior campeã, já que não havia inscritas na categoria Junior feminino; e que cada equipe tem em média sete pessoas, sendo que o campeonato mundial demandava passagens aéreas internacionais, fiquei pensando que a ajuda ainda era bastante irrisória, talvez nem pagasse a taxa de inscrição do campeonato. Intrigada com a informação e pedindo maiores impressões dos atletas fiquei sabendo que o campeonato mundial também não oferece prêmio em dinheiro ou equipamentos. Fiquei me perguntando sobre o que levava estes homens e mulheres a investirem, muitas vezes, o pouco que tinham sem ganhar
108No Brasil não se forma uma seleção nacional de rafting, a equipe vencedora do campeonato nacional é aquela classificada para representar o país no mundial.
praticamente qualquer compensação financeira. Mas ainda tinha que encontrar um colchonete, visto que tinha esquecido de colocar o meu no ônibus como havíamos combinado, depois de usar um banheiro sem porta ou assento e de um banho gelado, condições dos vestiários do alojamento. No primeiro dia do evento as meninas acordariam às 4:30, pois estavam inseguras sobre que estratégia usar no trecho da primeira prova e desejavam navegá-lo novamente. Saímos a pé do alojamento, cada uma com seu remo em punho - o meu, emprestado, era o remo reserva da equipe - em direção à saída da cidade e depois de uma subida em estrada de terra, em torno das 5:20 chegamos na casa onde dormiam as equipes masculinas com os botes. Usaríamos um deles emprestado, já que a equipe feminina não possui um. Procurando-o na garagem junto aos outros botes encontramos dois dos juniores dormindo dentro de dois deles. Depois de ajustarmos sua calibragem com uma bomba, as meninas pediram que eu passasse silicone no casco, para que elas não ficassem com as mãos escorregadias logo antes do treino. O que eu nunca havia visto, mas elas me explicaram que era para ajudar o bote a deslizar na água. Eu nunca havia feito isso e fui executando a tarefa conforme suas indicações. Depois elas se posicionaram em volta do bote e cada uma segurou a corda que o circunda para levá-lo ao rio e eu fiquei com todos os remos. Combinamos revezar de tempos em tempos quem carregaria os remos, o que correspondia à tarefa mais leve. No caminho algumas discussões sobre a forma de carregar o bote e se ele deveria ser solto no chão para um pequeno descanso começaram. Ao chegar ao trecho mais próximo ao rio, com subidas e descidas, passagens estreitas entre galhos e barrancos, a tensão se intensificou. Eu nunca havia carregado um bote nestas circunstâncias e neste trecho eu compunha a equipe que o fazia enquanto ouvia reclamações sobre minha inabilidade. O peso, a dificuldade em manobrar o bote e as diferentes opiniões sobre como transpor um obstáculo com ele levava a insultos mútuos e eu procurava me manter em silêncio. Ao chegarmos à margem elas me pediram que ficasse com as mochilas em um local protegido e se dirigiram à água. Depois de um tempo, Coré chegou e se juntou a elas que atravessaram para a outra margem e novamente ergueram o bote para carregá-lo até o ponto da largada. A partir deste momento, da posição em que eu estava com as mochilas e os equipamentos reservas já não conseguiria observar mais nada a não ser sua rápida chegada de mais ou menos trinta em trinta minutos. Eventualmente elas me pediam que filmasse o trecho que era capaz de capturar. Aparentemente elas erravam a direção em um trecho e seu bote acabava preso nas pedras de uma parte rasa do rio, o que as faria perder tempo para soltá-lo e correr riscos de queda, já que teriam que descer e empurrá-lo. Enquanto elas procuravam acertar a navegação nessa corredeira, as outras equipes começavam a chegar. Os atletas normalmente aproximavam-se com seus botes, encontravam um local abrigado do sol, quando possível, para deixá-lo e observavam as
corredeiras discutindo entre si sobre suas condições naquele dia, ou então, iam para a outra margem e treinavam a descida. Nesse ínterim, um microfone foi instalado e uma caixa de som passou a “animar” os atletas com música, muita da qual sertaneja. As demais equipes de Brotas chegaram juntas e uniformizadas. Frente a outras equipes pareciam uma multidão realmente intimidadora. Antes das provas se iniciarem, Coré me perguntou se desejava remar para que ele elaborasse uma estratégia e me encaixasse na prova mais adequada às minhas capacidades. Eu lhe disse que estava ali pela pesquisa e que não tinha a intenção de atrapalhar o rendimento da equipe, por isso, se ele não achasse que eu poderia melhorá-lo, que eu ficaria a observar de bom grado. Ele me perguntou se estava certa disso, já que o justo, em sua opinião, por eu ter pago a taxa de inscrição no campeonato, seria que eu participasse de ao menos uma prova. E eu confirmei que sim. Assumi, então, a função de cuidar dos pertences das atletas, buscar água e comida, filmar suas descidas ou a de eventuais adversárias diretas e levar e trazer recados, passando assim os dias inteiros à margem do rio. Esta dinâmica me expôs novamente às gracinhas operadas pelos adultos homens e também ao padrão um tanto intempestivo de comunicação, para os meus critérios, operado pela equipe feminina, que passava a conhecer. Depois de alguns dias sofrendo constrangimentos destes dois tipos e de uma crise de choro escondida, ao ser segurada pela cintura na fila do refeitório, ultrajada e descontrolada, fui até a mesa dos adultos e disse-lhes na maneira de xingamentos que não aceitava tais abordagens. Como já mencionei, depois disso perdi muitos interlocutores que sequer me cumprimentavam. No último dia, ao final da última prova, os juniores, que já haviam manifestado pena de mim, por não ter entrado na água sequer uma vez, gentilmente perguntaram se eu gostaria de experimentar descer as corredeiras do trecho das provas curtas, quando elas acabassem. Respondi sem refletir que sim, pensando que finalmente teria algo prazeroso do que me lembrar. Entretanto, enquanto dois deles que se compadeceram da minha situação tentavam convencer um terceiro a formar um R4 comigo, e com pressa, porque o bote que usavam era emprestado pela equipe adulta e os adultos gritavam da outra margem que iriam embora e os deixariam sozinhos para carregar o bote de volta à casa, um deles esqueceu o capacete ao entrar no bote. Imediatamente, começou a ser repreendido por vários adultos que gritavam da margem –“Seu moleque, quer morrer? Sai daí agora! Se você não sabe usar seus equipamentos não pode ficar aí sozinho! Seu oreia seca, vai ter que aprender!” Ele obedeceu, desconcertado, e ainda levou uns tapas ao sair do rio e continuou sendo advertido. O bote foi retirado da água e começou a ser carregado. Os juniores olharam para mim como quem se desculpa e se apressaram em ajudar a carregar o bote, ainda levando broncas. Mas quem devia desculpas a eles por ter os incentivado a fazer algo não previsto pelo grupo era eu. Experimentei remorso e constrangimento pensando nas
consequências da situação para eles. Acredito que por todas essas situações o campeonato foi a situação mais extenuante em campo. Mesmo sem entrar de fato na água, tanto física como emocionalmente, fiquei esgotada. E mesmo com o encerramento festivo devido às vitórias - todas as categorias foram ganhas pelas equipes de Brotas treinadas por Coré e aquelas que não compuseram o pódio conquistaram boas colocações - a sensação era a de que estava fora de lugar também nas comemorações. Sensação que se reforçou na hora de retornar a Brotas, pois não havia assento disponível para mim no ônibus das equipes. Pelo que entendi, alguns apoiadores e espectadores haviam, na última hora, as acompanhado, ocupando os assentos de quem não havia ido com o ônibus da prefeitura. Fui, então, para a rodoviária da cidade e voltei sozinha a São Paulo chateada. Apesar de todas as tensões pelas quais passei parecia não ter aprendido nada sobre as técnicas. Na pior das hipóteses, esse campeonato poderia ter sido ideal para a confecção de ótimas imagens sobre o
rafting competitivo, mas eu não dispunha do equipamento fotográfico necessário.
Meus sentimentos à parte, relendo estas anotações, percebi o quanto esta incursão, especialmente a última situação vivida, elucidou a importância e presença da segurança na
aventura, seus equipamentos, técnicas e protocolos no enfrentamento do imponderável – com os quais acenei no prólogo - mesmo no ambiente competitivo, e que consegui entender a ordem e as características das provas desta competição, que estão conforme a descrição do tópico a seguir.